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Alguém imagina como é o caminho de um pássaro, desde o momento em que é capturado pelos traficantes até chegarem às gaiolas penduradas nas casas dos sádicos? Noventa e cinco por cento (95%) ficam pelo caminho.

A este pássaro da foto de capa, demos o nome de Príncipe, mas ele não sobreviveu. Sucumbiu à covardia e insanidade.

Vamos falar de Trica-ferros, que são a bola da vez. A espécie habita bordas das matas. Raramente são vistos em áreas abertas e, menos ainda, nos terreiros ou arredores de habitações humanas. Se pudessem, se manteriam longe das pessoas.

É também conhecido como tempera-viola (Saltator similis). Esta espécie não tem dimorfismo sexual e machos e fêmeas são diferenciados apenas através do canto, o que impõe os mesmos riscos para os dois gêneros.

São animais muito arredios que precisam de espaço, de preferência sem grades. Quando são capturados, eles suicidam.

Não é exagero. Quando se vêm presos, eles se debatem tanto contra as grades que mais de 95% dos animais retirados da natureza morrem nos primeiros dias de cativeiro.

No final do ano passado, a Polícia Ambiental e os órgãos de controle de fauna (Ibama e IEF) realizaram uma grande apreensão desses animais, que estavam em poder de traficantes. A espécie está na mira dos contrabandistas e vem sendo dizimada no País inteiro. Muitos são enviados para fora do País, em condições extremas de sofrimento. Desnecessário explicar que, nesses casos, nem sequer há estatística de sobrevida.

O fato é que estes animais apreendidos em Dezembro tiveram a sorte de serem resgatados. Entretanto, eles estavam debilitados demais para se recuperarem em pequenos viveiros. Ao mesmo tempo, estavam fracos e machucados demais pra soltura imediata, mas conservavam ainda o estado selvagem e precisavam com urgência de um lugar amplo e adequado para a recuperação.

Infelizmente, não existe cativeiro algum no mundo que possa ser considerado adequado para a recuperação de animais silvestres debilitados. Nenhum cativeiro merece esse adjetivo.

Os cativeiros tolerados são somente aqueles usados para aclimatação e soltura. E que bom seria se nossa espécie tivesse a evolução necessária e esse trabalho não fosse necessário!

O fato é que trinca-ferros e sabiás haviam sido apreendidos e precisavam de um lugar bem grande pra se recuperarem, antes de ganharem a liberdade.

E foi com este intuito que eles chegaram ao nosso território, pelas mãos de biólogos e veterinários do CETAS.

Dessa vez não se tratava de simples aclimatação. Eles precisariam de tempo. Muitos deles estavam machucados, destruídos pelas grades, com penas fraturadas. Alguns nem sequer voavam, e não poder voar para um pássaro é o mesmo que arrancar-lhes a alma.

Foi com desconfiança e muito medo que eles colocaram os bicos pra fora da caixa de tansporte, pra ganharem uma pré-liberdade.

Nenhum animal ali estava em boas condições. A tortura que viveram nas garras dos traficantes havia tirado deles a beleza, a força, a vitalidade. Muitos estavam, literalmente, se despedindo da vida.

Assim que foram soltos no nosso viveiro, eles começaram a se espalhar, reconhecendo o ambiente, que se esperasse fosse suficiente para dar a eles, senão a chance de um novo começo, pelo menos uma partida menos traumática.

E infelizmente, o índice de óbitos foi muito maior que o esperado. Geralmente, os animais que chegam ao nosso território já passaram por uma triagem e um período de recuperação. Chegam ali apenas para fortalecerem as asas e ganharem a liberdade.

Mas dessa vez, eles estavam ali para serem reabilitados. Eram 61 trinfa-ferros, 7 sabiás e 3 pássaros pretos. E essa reabilitação prometia ser lenta.

Os primeiros instantes mostravam as aves explorando o chão. Eles pouco usavam as asas. Somente alguns poucos tinham forças para voar e ganharem os galhos das árvores que ali foram plantadas para levar a natureza até eles.

Mesmo aqueles que conseguiam voar estavam claramente debilitados, machucados e fracos. Ainda assim, acreditavam os veterinários que em nosso viveiro eles teriam melhores chances de se recuperarem.

Assistimos cenas angustiantes, de animais assustados, tentando fugir, que caiam acidentalmente na fonte de água. Eles se molhavam inteiros, mas conseguiam sair sozinhos e essa experiência faria deles animais mais espertos.

O recinto recebe o sol em boa parte do dia e eles teriam boas condições de se secarem. Era Dezembro e estávamos no início do verão. Logo as chuvas chegariam com mais força e eles teriam mesmo que se acostumar com a natureza bruta.

Um único indivíduo de Sabiá uma (Turdus flavipes) estava entre eles. A espécie é rara e não são vistos na região. Ele também apresentava as asas caídas. Conseguia voar, mas com dificuldade.

Os mais debilitados eram mesmo os trinca-ferros, que são animais muito arredios e que têm sido as vítimas preferidas dos criminosos.

Um Sabiá da mata (Turdus fumigatus) também estava ali. Muitos deles estavam machucados demais e a recuperação seria mesmo difícil. Sabíamos disso, mas não nos conformamos.

Num caso assim, assistirmos a recuperação e soltura de 80% deles é um índice excelente. Nas mãos dos traficantes, apenas 5% sobreviveria, e ainda assim, enjaulados.

Mesmo assim, não somos ambientalistas e nem nos interessam as estatísticas. Para protetores, cada vida conta e lamentamos muito por cada um daqueles que ficou pelo caminho.

Dentre os sabiás, um sabiá da laranjeira não resistiu. Ele não voava e tinha alguma grave deformação nas asas. Claro que poderia ter continuado ali em nosso viveiro, pelo tempo que precisasse, mas a vida tem seus próprios planos.

Com tantos ninhos no entorno e com tantos filhotes nascendo livres, porque um animal passaria a vida sem voar, dentro de um viveiro?

As marcas das feridas na testa são sinais muito claros de que eles se debateram muito. O desespero para se livrarem da escravidão é tanto que eles se ferem, muitas vezes até a morte.

O Sabiá uma, a quem chamamos de Tiziu, conseguiu se recuperar rapidamente. Em poucos dias ele já estava voando com desenvoltura. Suas penas voltaram a brilhar, apesar da cauda curta, que certamente voltaria a crescer na próxima muda de pena.

Para alguns deles (a maioria), o tempo jogou a favor e puderam se recuperar.

Caprichamos bastante na ceia, para que eles pudessem realmente se fortalecer. Foi gratificante ver que, mesmo aqueles mais debilitados e com penas fraturadas, já podiam voar e frequentavam os comedouros com satisfação e gulodice.

Foi a primeira vez que recebemos um lote de animais para reabilitação, e precisamos nos adaptar pra fazer a soltura de acordo com a necessidade dos animais.

A questão é que, assim que os primeiros começaram a se recuperar, tivemos que enfrentar outro desafio: as brigas. Com 60 trinca-ferros dividindo um mesmo território, era de se esperar que os embates acontecessem. Na natureza, os machos são muito territoriais e os embates são bem violentos, mas quase nunca fatais, já que um deles sempre se afasta.

Em cativeiro, não tem como se afastar e as brigas podem ser perigosas.

Então, tivemos que usar uma estratégia diferente de soltura.

Assim que os primeiros se recuperaram e já davam sinais de que começariam a disputar o território, decidimos então fazer uma soltura gradativa e seletiva.

Abríamos a pequena janela do viveiro por apenas algumas horas ao dia, e sob monitoramento.

Com isso, aqueles animais mais fortes e já recuperados, poderiam sair.

Os que estavam ainda em recuperação, não tinham forças pra alcançar a janela e continuavam no viveiro, que era fechado à noite para evitar os predadores.

Enfim, fizemos essa soltura gradativa por apenas algumas poucas horas do dia, em várias semanas. Quando os mais fortes saíam, voltávamos a fechar o viveiro e esperar mais alguns se recuperarem.

E assim seguimos por pelo menos dois meses.

Três meses depois do início da soltura, ainda temos no viveiro um trinca-ferro que não conseguiu voar. Ele parece ter uma deformação nas asas e tudo indica que continuará ali por mais tempo.

Sabemos que este trabalho fará toda a diferença pra ele. Temos a convicção de que está a caminho da liberdade, ainda que pra isso precise renascer livre. Não sabemos qual o destino que os anjos planejaram pra ele, mas temos a convicção de que ele retomará o caminho evolutivo para o qual veio ao mundo.

A recuperação foi lenta pra alguns, e rápida para outros. Com exceção daqueles que ficaram pelo caminho, ao final, todos conseguiram atingir o vigor necessário para voltarem à natureza.

E esse é o sentido de todo o trabalho que é feito, começando na Polícia Ambiental, passando pelo CETAS e finalizando nas áreas de soltura.

Que a tristeza por aqueles que se perderam sirva de alerta, que ajude as pessoas a refletirem sobre essa insanidade chamada gaiola.

E temos que entender que não só os silvestres são vítimas da escravidão. Nos mercados, presenciamos pequenos viveiros superlotados de animais “exóticos”, cuja comercialização é legalizada.

Não é possível entender porque alguns merecem a proteção das leis e outros não recebem sequer a compaixão das pessoas.

Hoje a humanidade se envergonha de um dia ter escravizado seus semelhantes. Quando será que sentiremos essa mesma vergonha, pelo que fazemos aos animais?

Este garoto abaixo foi um dos que chegou por aqui sem saber voar, com penas desalinhadas e algumas marcas na testa. Demos a ele o nome de Topete.

Ele deixou o viveiro aproximadamente 2 meses depois de sua chegada.

E, logo após a sua saída, foi visto nos galhos de uma mangueira, explorando o ambiente e buscando, no desconhecido, um canto pra chamar de seu.

Que a nossa evolução não tarde a chegar. A natureza não tem mais saúde pra esperar.