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Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas. E foi por caminhos tortos que chegaram às nossas mãos estes dois irmãozinhos, retirados prematuramente do ninho. Eles ainda não sabiam comer sozinhos e, pra piorar um pouco, tiveram as pontas das penas das asas aparadas.

Bernardo e Bianca 1

Foram resgatados e levados para uma clínica veterinária especializada em silvestres, com o pedido para que ficassem internados e fossem alimentados até que estivessem em condições de comerem sozinhos.

Quarenta dias depois, recebíamos de volta os meninos, com o bico um pouco maior, mas ainda muito estressados.

Bernardo e Bianca 2

Nosso viveiro de aclimatação estava vazio e decidimos usá-lo.

Aqui chegaram os dois irmãozinhos que, mais tarde, descobriríamos ser um casal, os quais decidimos chamar de Bernardo e Bianca.

Pisaram a terra, possivelmente, pela primeira vez.

Bernardo e Bianca 3

O aspecto físico não era nem de longe parecido com o que deveriam ter animais tão especiais. Penas desalinhadas e sujas, sem mobilidade.

Na natureza, filhotes dessa idade já estariam voando alto, mas nossos meninos estavam destruídos. Passaram os últimos 40 dias em boas mãos, mas cativeiro não é lugar para animal algum.

Bernardo e Bianca 4

Os dias seguiram e os dois ganhavam forças, experimentavam novidades, fortaleciam as asas e aprendiam como usá-las.

Bernardo e Bianca 5

Os poleiros mais altos eram um pequeno ensaio do que eles teriam que buscar, quando ganhassem a liberdade.

Bernardo e Bianca 6

Algumas semanas mais tarde, eles já estavam maiores, com os bicos mais fortes e começando a mudar o aspecto de aves de cativeiro.

A recuperação era muito lenta.

Bernardo e Bianca 7

A adaptação seguia como tinha que ser. Eles já colhiam amoras, diratamente da fonte.

Bernardo e Bianca 8

Voavam com desenvoltura e se empoleiravam com confiança nos poleiros inclinados, que simulavam as condições que seriam encontradas na natureza.

Bernardo e Bianca 9

O banho de sol era apreciado, mas revelava as pontas das penas das asas aparadas, sinais que preferíamos não ver.

A essa altura, eles já estavam voando, mas por recomendação médica, precisariam ser mantidos no viveiro de aclimatação, esperando por uma muda completa das penas. Quando as penas das asas estivessem inteiras novamente, poderiam finalmente ganhar a liberdade.

Bernardo e Bianca 10

A espera foi longa. Cada pena encontrada no viveiro era motivo de comemoração, mas confiávamos que esta espera tinha algum propósito. Eles estavam crescendo fortes e precisariam estar bem quando rompessem as telas.

Só assim poderiam reivindicar o território e fixar morada por ali.

Bernardo e Bianca 11

As frutas eram servidas diariamente, além da ração específica para tucanos.

Bernardo e Bianca 12

Entre as frutas frescas e a ração, eles davam preferência para as frutas, o que era um sinal muito positivo. De tempos em tempos, um galho de uma frutífera diferente era pendurado dentro do viveiro.

Aos poucos, eles estavam aprendendo a colher frutos diretamente das árvores.

Bernardo e Bianca 13

Enquanto não acontecia a tão esperada muda completa das penas, o tempo passava e eles perdiam o ar de filhote. Tornavam-se animais adultos a cada dia.

A característica mancha preta na ponta dos bicos ganhava mais forma.

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Bernardo e Bianca 15

As mudanças podiam ser notadas e eles começavam a ficar impacientes com o espaço reduzido do viveiro. Deixavam claro que queriam outra vida. Não eram felizes ali, apesar de todos os nossos esforços.

Bernardo e Bianca 16

Sete longos meses depois do resgate e nossos protegidos estavam prontos para uma nova chance.

Fizemos as últimas fotos deles dentro do viveiro, talvez por medo de não mais vê-los depois que rompessem as telas.

Finalmente, tínhamos animais fortes e saudáveis, prontos para ganharem a liberdade. As penas cortadas haviam sido substituídas e eles tinham agora asas inteiras, prontas pra serem usadas.

Nos vídeos abaixo, os últimos momentos de cativeiro dos meninos.

https://youtu.be/Bn0TJWeP8i4

http://youtu.be/TnTxA9bJoro

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O viveiro foi aberto e esperamos que o sonho de liberdade os mostrasse o caminho.

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O primeiro a colocar o bico pra fora foi o Bernardo. Não teve pressa. Ele parecia investigar e decidir pra onde ir

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Depois, partiu no vôo mais longo que já havia experimentado. Da porta do viveiro, para uma ameixeira, que o esperava com o lanche servido.

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Depois foi a vez da Bianca, que se refugiou em uma mangueira.

Nestes vídeos, os primeiros momentos de liberdade e o primeiro grande voo.

http://youtu.be/6nSWj8HNExk

http://youtu.be/wdo_FnZ2_Yk

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Dali, eles voaram juntos para o interior da mata. Sabíamos que eles se separariam, e foi o que aconteceu. Estiveram juntos por algumas horas, num bosque próximo da casa sede, mas no fim do dia, a Bianca partiu para outro ponto.

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Foi vista nos dias seguintes, ocupando um território mais à frente, em companhia de outro tucano silvestre. Ela era mais arredia e tem agora um amigo em quem se espelhar.

Suas chances de adaptação serão maiores.

Abaixo, os primeiros momentos de vida livre dos dois irmãos, já no interior da mata.

http://youtu.be/5OyQ_AgWZZs

http://youtu.be/c2-JCtZx9Y0

http://youtu.be/egNcFrvvuJ4

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Nos dias que se seguiram, conseguimos avistá-la apenas de longe. Que desta amizade com um macho nativo, venham ao mundo muitos e muitos filhotes, nascidos livres. E que os protetores invisíveis não os deixem cruzar o caminho de gente ainda sem evolução pra viver aqui.

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O Bernardinho disputou no grito o território com um casal nativo e ganhou. Os antigos moradores da área seguiram para o alto da montanha mais ao sul.

Por uma semana inteira, monitoramos os passos do garoto, que ficou por ali. Nos primeiros dias, visitava com frequência os comedouros e as frutas por nós servidas.

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Também se mostrava disposto a brincar, como se a infância ainda estivesse presente. Parecia não saber que cresceu e que precisaria seguir seu caminho, por suas próprias asas.

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De agora pra frente, você está por sua conta, amigo. Podemos facilitar um pouco, mas você precisa aprender a ser livre, como sua irmã.

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Não demorou muito pra ele perceber que a vida tinha coisa melhor a oferecer.

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As amoreiras também estão iniciando a produção, além de outras frutas exóticas. A fazenda tem quase uma centena de diferentes frutas, que garantem suprimento permanente a todos os animais que vivem ali.

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Alguns sabores são típicos da região, outros foram trazidos de longe, como o jambo rosa, que o Bernardo parece ter gostado muito.

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E assim a vida seguiu. Será impossível pisar novamente essas terras, sem buscar na mata e no alto das árvores algum sinal de que vocês ainda estão por aí.

Desejamos que vocês aprendam a saquear ninhos, a capturar pequenos anfíbios, que mantenham-se afastados das pessoas e que sejam, enfim, tucanos livres, com todos os instintos e habilidades que lhes foram dados pelo Pai de todos nós.

E que a história de vocês seja propagada, para que nenhum ninho seja saqueado por mãos humanas. Uma boa parcela da humanidade já entendeu o apelo dos novos tempos e os quer livres. Precisamos despertar e sensibilizar mais alguns.

Pra fecharmos esta história, alguns momentos de vida livre, captados nos dias seguintes, após a soltura. Eles continuam livres e felizes. A cada dia, distanciam-se mais da sede e menos presença fazem nos comedouros.

http://youtu.be/QxSKEtOLKuY

http://youtu.be/ScCF6QPCJxc

http://youtu.be/afXeswmx0Fk

http://youtu.be/uyYg2eJssDc

Bernardo e Bianca

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ATENÇÃO: Não recebemos animais silvestres. Somente o IBAMA e IEF têm essa função.