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Uma história bíblica, que teria se passado em Samaria, dá notícias de mães canibais, que teriam devorado os próprios filhos, para saciar a fome extrema.

Na passagem em questão, a fome atingiu um nível irreversível. Mais que saciar a própria fome, aquele extremo foi um ato de eutanásia, que abreviaria o sofrimento das crianças, antes de saciar a fome das mães.

Na natureza, o canibalismo de mães contra os próprios filhos ocorre quando o estado de fraqueza da mãe atinge um nível tal que ela percebe que não terá forças de alimentar seus filhos, e que se insistir em tentar, também não sobreviverá.

Então, não para saciar a fome, mas para repor nutrientes, a mãe acaba por comer os próprios filhos, muitas vezes, já nascidos sem vida e prematuros.

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Tais extremos são como dizer: _Não dá mais. Cheguei ao fundo do poço.

Quando este tipo de canibalismo ocorre com espécies ainda primitivas, tudo é mais fácil e natural. É a lei da selva, da sobrevivência. Depois do inverno, sempre vem a bonança e a vida se encarregará de reequilibrar.

A leoa que perdeu seus filhos recém-nascidos para um macho que acabou de tomar a coroa, volta a entrar no cio e, em algumas semanas, dará a luz a novos filhos.

Aqueles que ficaram pelo caminho nem sequer serão lembrados, e por força da infinita misericórdia, logo estarão de volta, a cumprir seu estágio evolutivo.

No entanto, quando isso acontece com seres que já evoluíram o bastante para iniciarem um processo de humanização, o estrago é grande. E esse é o caminho dos lobos.

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Boneca é uma cadelinha de aproximadamente 9 anos, que se arrastou pela vida da forma que deu. Não teve muito e nem conseguiu evoluir tanto quanto poderia.

Seus donos não lhe ofereciam muito, mesmo porque não tinham o suficiente nem pra si mesmos.

Boneca já despejou no mundo muitos lobinhos, mas, como nas estatísticas da selva, apenas uma pequena parte deve ter chegado à idade adulta.

Com aproximadamente nove anos de vida, fica evidente que sua idade reprodutiva já estava chegando ao fim.

E, ignorando os sinais da vida, como uma legítima semi-domiciliada, seu destino seria parir lobinhos até não aguentar mais e morrer com filhotes em seu ventre, sem forças pra pari-los.

O último parto foi difícil, seguramente o mais difícil dentre todos, porque a mãe já não tinha mais juventude e saúde pra tanto esforço.

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E como se não bastasse, seus donos nem sequer olhavam pra ela e deixavam-na se virar sozinha.

Não sabemos quantos filhotes vieram ao mundo dessa vez, mas quando o resgate chegou, só dois restavam.

Era pra ser mais um resgate de mãe e filhotes, daqueles em que dá tudo certo, com os filhotes sendo adotados e a mãe, depois de submetida a regime de engorda, cuidados médicos, vacinação e castração, partiria também com destino a uma nova vida.

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Mas, alguns sinais são mesmo imperceptíveis.

Ninguém percebeu, mas a Boneca havia chegado ao fim da linha. Pra ela não dava mais. E como se atendesse a um chamado da mãe natureza, acabou atacando os próprios filhos, para repor um mínimo de nutrientes em seu fragilizado corpo.

O ataque foi interceptado e o filhote ferido socorrido às pressas, sendo também retirado do convívio da mãe, junto com o outro sobrevivente, ainda sem nenhum ferimento.

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Não se trata aqui de selvageria. Conforme explicado acima, a mãe havia atingido seu limite. Agiu atendendo ao instinto de sobrevivência. Essa era a única realidade que ela conhecia e era isso ou a morte para a família inteira.

E quando tragédias assim acontecem com seres tão especiais, os resultados não poderiam ser outros. A mãe parecia entender o que aconteceu. Entristeceu e caiu em profunda depressão.

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Desenvolveu inflamação no útero e precisou ser operada às pressas. Apresentou uma série de outras graves enfermidades, que lhe custaram longos e doídos tratamentos.

A cada novo problema, parecia dar sinais de que não queria mais, que tinha chegado ao fim da linha.

Seus protetores, entretanto, não permitiram que ela desistisse. Quando os remédios, que lhe foram enfiados garganta abaixo, começaram a fazer efeito, seus olhos tornaram-se turvos.

Talvez tenha sido a forma encontrada para não ver mais nada da vida. Já tinha visto o suficiente pra não querer mais continuar aqui.

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Se a luta pra salvar a mãe foi grande, em outro cômodo da casa, a batalha pra salvar a vida dos filhotes não foi menor.

Uma maratona se sucedeu, sendo os pequenos alimentados na mamadeira, de 3 em 3 horas, sem nenhum intervalo para descanso.

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Aos poucos, eles começaram a reagir.

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A luta pela vida da mãe continuava intensa. Em uma tarde, Boneca foi até sua amiga e protetora, deitou-se em seu colo e chorou, como se pedisse pra ver os filhos uma última vez.

Naquele dia, Boneca foi levada até o quarto em que os pequenos estavam. Deitou ao lado deles e ali ficou, velando o sono dos filhos. Parecia querer saber se eles estavam bem, se tinham sobrevivido. Estava envergonhada, embora todos soubessem que não teria sido sua culpa.

Depois de tudo, era demais exigir de sua protetora que voltasse a confiar nela e a deixasse com os filhotes. Mas, àquela altura, Boneca já estava bem e não representava mais nenhum risco aos filhos.

Mesmo assim, ela pôde desfrutar da companhia deles por apenas alguns minutos. Aquela família não existia mais. Cada um seguiria seu caminho e não voltariam mais a se encontrar.

Nem sempre os caminhos são justos, mas a vida tem seus critérios.

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Os lobinhos estavam melhorando rapidamente e, em algumas semanas, era possível saber que a luta traria recompensas.

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E não poderia ter melhor recompensa que poder apresentar ao mundo as duas criaturinhas mais bonitinhas que já existiu.

Receberam os nomes de Sansão e Dalila. Em poucas semanas, não havia mais nem sinal da tragédia que havia se abatido sobre a família deles.

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Os dois foram anunciados e partiram nos braços de adotantes especiais, que prometeram a eles um novo mundo, muito diferente do que foi a vida da mãe deles.

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A Boneca seguiu lutando pela vida. Foram muito intensos os tratamentos, com remédios, internações, recaídas e mais recaídas.

Cada dia aparecia um problema novo, mas depois da última visita aos filhos, ela ganhou um novo estímulo e passou a reagir melhor aos tratamentos.

Continuava sendo uma das mais tristes lobinhas que já existiu, mas, ainda assim, mostrava que queria viver.

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Boneca era uma cadelinha carente. Aproximava-se com facilidade e aceitava afagos de qualquer desconhecido.

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A vida pra ela não foi nada fácil e, com avançada idade, já não esperava muitas mudanças.

No lar temporário, todos se desdobravam pra dar a ela carinho e afeto.

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Ela já entendeu que o mundo pode ser diferente. Na verdade, falta as pessoas entenderem que o mundo tem que ser diferente, cabendo a nós operar essas mudanças.

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Que histórias como da Boneca não se repitam em cada esquina, em cada canil esquecido, atrás de cada muro alto.

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Com o tempo, ela se recuperou e parecia melhor, chegando mesmo a se arriscar em brincadeiras.

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Não chegava a sorrir e fazer festa, mas isso já seria demais pra ela, pelo menos naquele momento.

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Aceitar afagos, e até reivindicar de vez em quando, já representava um grande avanço. Acreditamos que ela ainda poderia aprender a brincar, mas só se ela tiver a sorte de encontrar donos dispostos a operar essa transformação.

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Os novos donos não vieram, mas o lar temporário supriu suas necessidades. A Boneca conquistou sua amiga e acabou ganhando algumas regalias. Passou a viver dentro de casa, fazendo parte da matilha permanente do território.

Ela não sabia que estava para adoção. Viria a saber, se o adotante chegasse pra buscá-la, mas como ele não chegou, ela passou o resto de seus dias, acreditando que tinha sido adotada e tendo a certeza de que era muito estimada.

Em uma tarde, uma visita inesperada de alguém que trazia nas vestes o cheiro de filhotes ainda em lactação.

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E não dá pra descrever o que foi a emoção dela ao se aproximar e tentar buscar naquele cheiro, a lembrança do que foi, ou do que poderia ter sido.

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Foram muitos os filhotes largados no mundo, muitos dos quais tiveram fins trágicos e vidas muito curtas.

A alegria que ela demonstrou em seguida foi mesmo contagiante.

Uma luz se acendeu e, pela primeira vez, entendemos que a Boneca, finalmente, tinha se tornado uma cadelinha feliz.

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Ela foi vacinada, vermifugada, castrada e vivem algum tempo com ótima saúde. Era uma cadelinha do bem, incapaz de qualquer gesto agressivo.

Foi capaz de conviver muito bem com outros cães, com crianças e até mesmo com cães menores do que ela. Como ela vivia em um lar temporário, a vida acabou lhe trazendo outros filhotes, mesmo que não fossem dela.

A vontade de começar de novo encontrou a oportunidade, ou talvez a falta dela, que no caso da Boneça, foi ainda melhor.

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Houve um tempo, em que chegamos a pensar que ela estivesse ficando cega. E de fato estava, mas até nisso ela se recuperou. Viveu normalmente e feliz, saudável e sem nenhuma sequela dos tempos difíceis, por mais de dois anos.

Gostava de se esquentar no sol, embora fosse uma cadelinha de dentro de casa, apesar de seu porte médio e da grossa capinha de gordura.

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A Boneca não está mais entre nós. Ela partiu, em decorrência de uma irreversível e terrível insuficiência renal.

A adoção nunca chegou pra ela, mas ela partiu sem saber disso. Pra ela, a adoção tinha acontecido no dia do resgate. Sua mãe foi a protetora que a resgatou, e que a tratou como filha, até o último dia de sua vida.

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E-mail: lucinediafigueiredo@gmail.com

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