Qualquer um que esteja acostumado com estradas sabe quantos animais são avistados em suas margens, quase todos já sem vida.

Só resta aos homens lamentar, isso quando são notados. Infelizmente, muitos nem sequer são vistos. Faz parte da paisagem animais mortos pelos cantos, quanto não viram um tapete no meio da pista.

E foi assim que começou a história do Bono.

Passando pela Rodovia Fernão Dias, em alta velocidade, avistei de relance, dentro da vala do canteiro central, um animal preto que, por um instante, me pareceu ter se mexido.

O trânsito era intenso e só consegui mudar de faixa e atingir o acostamento uns 500 metros à frente. Retornei de Ré pelo acostamento até a altura em que ele estava.

Quando parei o carro, ele levantou a cabeça e me olhou de longe. Enquanto eu esperava diminuir o fluxo de caminhões, de dentro do carro, fiz as primeiras fotos.

Os olhos, que só foram notados depois que descarreguei as fotos, mostravam o tamanho da angústia, do medo e da dor que ele sentia naquele momento. O sol estava rachando de quente e o asfalto estava a mais de 60 graus, capaz de matar em poucos minutos.

Era um cachorro preto, vira-lata. Não tinha nome, não tinha sexo, não tinha nada, nem mesmo esperança de um dia ter uma vida normal. Naquele momento, era possível saber apenas que era grave, muito grave.

Os minutos seguintes não foram registrados pelas lentes de nossa câmera. Atravessei a Rodovia, aproximei-me lentamente, com receito que ele tentasse correr, me abaixei e começamos uma longa conversa, com afagos e um sincero pedido de amizade.

Ele apenas me olhava, com o olhar mais apavorado que já vi. O vínculo afetivo precisaria se formar antes que eu tentasse pegá-lo, mas não tínhamos tanto tempo, pois a temperatura já cobrava seu preço. Sua língua estava escura, com sinais claros de elevada desidratação.

Não havia sangue, nem corte, nem feridas aparentes, mas ele não movia os membros traseiros.

Foi pego no colo com muito cuidado, com gemidos de dor, mas nenhum sinal de que usaria os dentes. Quando o deitei no carro, sobre um tapetinho, ele me olhou com gratidão. O vínculo de confiança e amizade nasceu naquele instante.

Não tínhamos água pra oferecer e o máximo que poderíamos fazer naquele momento seria ligar o ar condicionado, e esperar que a temperatura dele baixasse um pouco.

Havia escoriações perto dos olhos e em outras partes do corpo, mas elas não estavam sequer vermelhas. Pareciam antigas.

Tínhamos a convicção de que o acidente tinha ocorrido momentos antes, pois ele não sobreviveria ali mais algumas horas.

Claro que naquela situação, não era possível avaliar o quão especial ele era, e nem o tamanho do presente que ganhamos de nosso Pai, por receber aquele irmão tão querido.

Tínhamos apenas um cachorro triste, com claros sinais de uma vida pouco aproveitada, em termos de evolução.

Foi internado no mesmo dia, recebeu muita medicação pra dor, iniciando os exames e demais procedimentos que permitiriam pelo menos saber se aquela história teria um final feliz ou se seria apenas mais um resgate pra dar a um animal um fim de vida mais digno.

Sabemos que não há dignidade na ponta de uma agulha e, quando a eutanásia vem logo depois do resgate, o tempo e o breve contato não são suficientes pra “preparar a volta”.

Os exames e radiografias confirmaram o que já desconfiávamos. Ele não teve vida fácil e a fratura tinha sido na bacia, com indicação cirúrgica.

O resgate ocorreu no domingo e a cirurgia aconteceu na terça-feira, pela manhã.

Não poderia haver, naquele momento, cachorro mais triste. Ele era um machinho e, na clínica, ganhou o nome de Bono.

Temos um amigo muito especial com nome de roqueiro famoso, mas o nosso Bono, por enquanto, era apenas mais um vira-lata preto e atropelado.

A cirurgia correu bem e, apesar do longo e difícil período de recuperação que se desenhava, ele teria chances de voltar a andar.

Notamos também que, naquele momento, havia muito mais que apenas dor física. O pior estava dentro. Não sabemos quem ele era, que vida ele teve e nem como chegou naquela Rodovia. Mas teríamos tempo pra descobrir o essencial.

Seu resgate foi no dia 14 de outubro e a alta médica, 12 dias mais tarde. E foi com alegria que o recebemos naquele dia 26 de outubro e o trouxemos para nossa casa.

De hoje em diante, Bono, você não é mais um cão sem dono. Você terá amigos equilibrados e uma família, mesmo que temporária, que vai te estimar e te ensinar sobre a amizade mais bonita que a evolução já construiu.

Ele gostou da ração e ficou de pé, ainda sem apoiar as duas pernas. Seria uma questão de tempo pra ele recuperar os movimentos.

Só de ficar de pé e ser capaz de caminhar, já tínhamos motivos pra comemorar.

Não tínhamos muito espaço pra oferecer, e ele também não precisava dele. Na verdade, ele precisaria apenas de um cantinho pequeno, sem escadas, onde pudesse se levantar apenas pra comer e se aliviar.

Na receita médica havia de tudo: analgésicos fortes, vitaminas e fortificantes para uma anemia, e até antidepressivos. Nosso amigo precisaria de tempo, um bom tempo, pra mostrar o que é.

Fisicamente, Bono é um SRD preto, de pelo médio, do tamanho de um Cocker, pesando 9 quilos.

É muito dócil com pessoas e com outros animais. É bonzinho e, quase 20 dias depois de seu resgate, ninguém havia ouvido um único latido. Claro que está cedo pra ele latir, pois a dor ainda é intensa, mas ele já se mostra um menino bonzinho, capaz de viver e conviver muito bem com uma família, até mesmo em apartamento.

Tivemos um período de adaptação logo depois que ele saiu da clínica. Afinal, algum manejo ainda era necessário, por causa da medicação. E ele ainda sentia dores.

O spray local era o que ele menos gostava e resistia, mas dos remédios orais, ele aprendeu a gostar e esperar por eles, já que vinham enrolados em uma grossa camada de presunto. Veganismo é para os homens e não para os lobos.

Foi recebido aqui pela Pintada, nossa eterna mãezona, capaz de alegrar e socializar qualquer lobo triste.

Foi recebido também pela Estopa, Hanna e até pela encrenquinha da Duda, sem esquecer a Tita, nossa cisquinha de quilo e meio que, assim como ele, também não usa uma patinha traseira, mas por motivos diferentes.

Nada como uma matilha equilibrada e receptiva para que um lobo se sinta em casa. Bono estava, finalmente, à vontade, sentindo-se amparado e protegido.

O rabinho já nos recebia com abanos frenéticos, sinal de que aquele pacto de amizade que fizemos, lá naquele canteiro de Rodovia, vai durar pra sempre.

Ele ainda está triste, é claro, pois ainda sente dores. Ainda preserva uma das pernas para andar e, daqui há algumas semanas, uma radiografia nos dirá se a cirurgia foi mesmo o sucesso que ele merecia.

Bono já é capaz de descansar entre os demais cães do território, e bocejar, com a força de quem está bem e tranquilo.

É isso, amigo, que queríamos pra você. Ainda tem muito pela frente. Só o tempo vai te devolver a capacidade de andar novamente com a agilidade que teve um dia.

Já iniciou também as vacinas, mas castração vai ter que ficar mais pra frente, pois ele precisa descansar de cirurgia.

Precisamos encontrar para o Bono novos e carinhosos donos, capazes de entender que ele precisa agora, não mais de tutores comuns, mas de pastores, dispostos a conduzi-lo na jornada evolutiva que foi traçada pra ele.

O acidente talvez tenha sido a forma encontrada pela Vida de mudar seu destino, que tudo indica, não lhe favorecia nessa jornada. Bono agora vai aprender sobre afeto, sobre amizade e vai entender que lobos e homens são amigos, verdadeiramente amigos.

Ele não precisará aprender a amar, pois isso os cães já nascem sabendo. Essa semente foi plantada no coração deles quando seus antepassados se aproximaram dos homens, ainda moradores das cavernas.

A evolução retirou os lobos do relento e os trouxe pra dentro de nossas casas, pra cima de nossas camas. E foi essa proximidade que levou à evolução do chacra cardíaco, nas duas espécies. É por isso que homens que convivem com lobos são diferenciados em termos de capacidade de amar.

E nosso caminho, além de evoluir rumo à divindade (para alguns ainda rumo à humanidade), é exatamente proporcionar a eles a mais intensa e verdadeira amizade, para que eles também caminhem rumo à humanização. Essa é a missão dos homens, compromisso evolutivo assumido em um passado remoto, e do qual não podemos mais fugir.

Bono está para adoção. Afinal, quanto mais cedo ele iniciar uma caminhada ao lado de seus pais definitivos, mais rápido ele retomará o caminho evolutivo do qual falamos acima.

Talvez, alguns procedimentos fiquem para depois, mas nós garantiremos tudo o que ele precisará, até que esteja totalmente recuperado.

Contato: (31) 3477.7602.

E-mail: crispim@oloboalfa.com.br

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