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Eu sempre fui uma coisinha miúda, cor de burro fugido, de cachorrinho perdido, de pano de chão encardido ou qualquer coisa parecida.

Pelo meu estado de sujeira, bem que merecia um nome tipo: Estopa. Por sorte, me deram o nome de Brisa. Não deve ser pela minha cor, mas, talvez, pela delicadeza. Já tive um dono e fui feliz. Sou carente, carinhosa e não tenho medo das pessoas. Aprendi que os humanos são bons. Não sei bem o que aconteceu nem o porquê fui abandonada. Não sou de cerimônia. Pulo no colo de qualquer um que se aproxima de mim.

Entrei no cio e acabei prenhe. Talvez por isso, sentindo meu dono que eu seria mãe, não quis a responsabilidade por tantos lobos. Eu não queria ser abandonada. Gostava de meus donos. Preferia ficar com eles, mesmo que tivesse que me separar de meus filhos, depois do desmame.

Ainda sou filhote. Tenho menos de dois anos.

Não gosto das ruas. Tenho medo dos carros e não sei como evitá-los. Por isso, me escondi no pátio de uma escola. Vi tantas crianças naquele lugar e achei que uma delas poderia me levar pra casa. Gosto muito de crianças.

Mas nenhuma delas me escolheu, talvez porque estava muito suja e encardida. Um dia, acordei ansiosa esperando pela chegada das crianças. A cada manhã, minhas esperanças se renovavam. Mas, daquele dia em diante, nenhuma criança apareceu por lá. Ouvi dizerem que estavam de férias. Não sei o que é isso, mas deve ser alguma doença muito ruim.

Logo depois, os poucos adultos que lá apareciam e que me alimentavam também desapareceram. Mas antes de sumirem, me colocaram pra fora e trancaram os portões. Eu não conseguia passar pela grade e acabei ficando na rua, sem abrigo, sem comida e na hora de parir meus filhos.

Nunca senti tanta angústia, medo e tristeza.

Mas aí descobri que tinha alguém olhando por mim. Alguém conhecia minha história e, de longe, vigiava meus passos, como se esperasse o último momento pra me salvar. Os humanos costumam chamar de Deus, mas, pra mim, é uma protetora de animais.

Fui levada a uma clínica veterinária para avaliações. Conquistei a todos. Adoro brincar e faço questão de mostrar o quanto confio e amo os humanos.

Depois da clínica, segui para um abrigo na casa de pessoas muito boas. Separaram pra mim um cantinho especial, com caminha quente, protegida da chuva, com ração e água. Ali fiquei e, poucos dias depois, nasceram os lobinhos. Foram 4 filhotinhos, os mais belos de todo o mundo.

Estava feliz, embora já sintisse a angústia de me separar dos pequenos. O dia estava chegando. Sabia que seria necessária a separação. Cada um deles partiria para uma nova vida, contando uma nova história. Mas, até esse dia chegar, queria aproveitar cada um deles.

Sintia vontade de brincar com eles. Diziam meus protetores que eu era ainda filhote, mas, na verdade, queria mesmo aproveitar cada minuto que me restava ao lado deles.

Eles estavam crescendo e ficando cada dia mais bonitinhos. De tão especiais, foram adotados assim que desmamaram.

Quanto a mim, assim que os pequenos se foram, passei por um período de recuperação e tratamento. A maternidade e a amamentação exigiram muito de mim. Estava debilitada e precisei de um período de descanso e boa alimentação para me recuperar. Fui castrada, vacinada e fiz tratamento para uma oportunista doença de pele, muito comum em cadelas com filhotes. Não era nada grave e minha recuperação foi rápida.

Algum tempo depois, fui adotada. Fui colocada em um carro e segui viagem para um lugar chamado São Paulo, onde uma família especial esperava por mim. Cheguei e fui recebida de braços abertos, como jamais imaginei que seria um dia. Nossa viagem foi uma aventura. Nessa oportunidade, conheci também a Dócil, uma mestiça de Pitt Bul e o Magela, um cão cego desde o nascimento. Eles também viajariam comigo. Também tiveram a sorte de encontrar famílias que os receberam de braços abertos.

Eu nem sabia que existia um lugar chamado São Paulo, mas estou feliz de ter vindo pra cá. É um lugar de pessoas especiais. Percebi isso assim que desci do carro e vi como foi a recepção, não só a minha como da Dócil e do Magela. Não sei se ainda vou me encontrar novamente com a Dócil e o Magela. Espero que sim.

Na viagem, conheci a Fernanda, que se dispôs a nos levar. Ela até preparou um vídeo pra mostrar como foi a nossa aventura, desde que deixamos Belo Horizonte, até chegarmos em São Paulo e nos encontrarmos com nossos novos donos.

http://www.youtube.com/watch?v=rNc-ngg9GbY

Estou muito feliz. Acho que a melhor coisa que meus antepassados fizeram foi se aproximarem dos humanos.

Um resgate de Eliana Malta.

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