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Ele era chamado de “cabeção”. Não era um nome, mas apenas uma forma de identificá-lo, que nem podia ser considerada carinhosa.

Ele é um Bichon Frisé de 12 anos. Foi usado como reprodutor, até que seu dono autorizou a sua castração. Depois disso, perdeu a utilidade.

Ele foi retirado de um lugar onde vivia com quase 100 cães, amontoados, sem assistência adequada, sem banhos regulares, colo, sem cama quente.

Pra quem já teve um desses, sabe que eles evoluíram pra dividir a cama com os donos e jamais pra viver assim.

Lamentamos ter demorado 12 anos para resgatá-lo, mas nossa espécie está ainda evoluindo e histórias assim devem servir para ajudar em nossa evolução.

Apesar de todo o sofrimento, ele se mostrava um cãozinho dócil, muito sociável e que ainda gostava de colo e afagos. Acreditamos que ele teve tudo isso um dia, em um passado distante.

Ele foi resgatado e levado para a casa da Lucinédia, que o recebeu de braços abertos.

A primeira providência era um bom banho e tosa. O resultado revelou um cãozinho gordinho, muito bonito e cheio de vontade de aproveitar a vida que ainda lhe restava. Estava saudável e tinha uma vida inteira pela frente, ou quase isso.

Mostrou-se sociável e se encantou por uma certa neguinha que, quis a vida, fosse resgatada no mesmo dia que ele. Chegaram juntos ao hotel de luxo onde ficariam à espera de adoção.

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Nos primeiros dias, ele preferia dormir no cimento frio. Não estava acostumado com o conforto de uma casinha.

Mas qualquer um se acostuma fácil com coisas boas. Não precisou de muito pra ele entender que cama e panos secos são ótimos, principalmente para um lobinho pelado.

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Na hora da farra, ele está sempre no meio da bagunça. Apesar da idade avançada, ele está aprendendo a brincar. Talvez apenas relembrando, já que o pelo denso lhe tirava a mobilidade. Não sabemos a quantos anos ele não sabe o que é uma tosa decente.

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No lar temporário, ele recebeu o nome de Duck. Precisava de uma adoção verdadeiramente especial. Ele tinha que descobrir um mundo diferente.

Um dia, recebemos uma mensagem de alguém que intencionava adotar um cãozinho para fazer parte de uma numerosa família. Apresentamos à Mayra o Duck e ela o aceitou sem nem mesmo pensar muito.

Ele não tinha muitos pretendentes, pois já era um cãozinho mais velho. Mesmo assim, o interesse da Mayra foi tanto que logo nos enviou algumas fotos do ambiente que estava sendo preparado para a chegada dele. Ali foi possível saber que o Duck tiraria a sorte grande. Era o tipo de adoção que esperávamos pra ele.

Não é segredo que alguns lobinhos estão em processo bem avançado de humanização. O Duck parecia entender o que estava acontecendo. Chegou e se mostrou bem a vontade. Deixou muito claro que aprovava a escolha que fizemos pra ele.

Eram tantas mãozinhas querendo afagá-lo que faltou orelhas. Tantos colos disponíveis que ele nem se interessou pela caminha macia.

Na verdade, não escolhemos nada. A vida tem seus métodos e suas regras.

Duck era apenas um nome provisório. Ele estava nascendo de novo e precisava de tudo novo. Ganhou novo nome e passou a ser chamado de Cake. Ele vai se acostumar muito rápido. Afinal, eles identificam muito mais o tom da voz que os vocábulos.

Depois de experimentar cada colo, era hora de conhecer a casa. E cada um queria mostrar um pouco da casa ao Cake. Algumas “boas-vindas” são mesmo especiais. Para um lobinho que só falta falar, não poderia haver melhor recomeço.

Em  questão de minutos, a convivência estreita tinha passado do chão da sala para o sofá.

Esses lobinhos são folgados o suficiente pra ocuparem cada espaço. E ocupam com autoridade, do coração das crianças ao cantinho na cama.

As fotos abaixo mostram exatamente o que acabamos de prever. E como crianças que convivem intimamente com cães são mais felizes e até mais saudáveis, só podemos acreditar que essa adoção foi mais uma condução da vida.

As novidades não param de chegar. O Cake não é um cãozinho acostumado com muitos privilégios. Mesmo assim, em seu primeiro passeio de carro ele deixou claro que está pronto para aproveitar tudo o que a vida lhe permitir viver. Nem se lembra mais que já viveu muito. Os anos que lhe restam serão os mais intensos, os mais felizes, os únicos que valerão a pena lembrar.

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O Cake teve sorte. Sua história foi um final pra lá de feliz. E não custa lembrar os outros velhinhos esquecidos nos abrigos.