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Mais uma grande soltura de animais silvestres, vítimas do tráfico e de criadores.

Tucanos, micos, gambás, corujas, gaviões e mais de 200 pequenos pássaros. Como ali havia presas e predadores, nunca se pode soltar todos juntos. Os predadores ganharam a liberdade imediata e as pequenas presas passarão conosco 30 dias, período em que se fortalecerão, aprenderão a voar e farão um treinamento intensivo para a vida livre.

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Nosso viveiro estava pronto para recebê-los, contando apenas com a presença de Rubinho e Tunico, os dois retardatários da última soltura.

A soltura de animais silvestres é feita por veterinários e biólogos do Ibama e IEF. Os órgãos cadastram áreas particulares com natureza preservada e condições de abrigar certa população.

É feito um prévio inventário da fauna da região, a fim de identificar quais as espécies poderão ser soltas ali.

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A maioria desses animais foi apreendida em poder de traficantes, em condições de extremo sofrimento e maus-tratos.

Infelizmente, apenas uma parte mínima dos animais retirados da natureza chega viva aos órgãos ambientais. A grande maioria morre no transporte, em razão das péssimas condições em que são traficados, em caixas sem ventilação, malas e outros lugares escondidos das autoridades.

Os que são apreendidos com vida são os vitoriosos. Depois que chegam ao CETAS, eles são examinados, recebem atendimento médico, vitaminas, vermífugos e passam por uma triagem, a fim de se identificar quais ainda conservam condições de voltarem à natureza.

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Depois da triagem, eles são libertados em áreas de soltura. Alguns deles chegam ao nosso território, preparado para recebê-los.

Entre os mais de 200 pequenos pássaros, havia 15 psitacídeos, de duas espécies diferentes. Infelizmente, são duas espécies muito visadas por traficantes.

O periquito-de-encontro-amarelo (Brotogeris chiriri) é um pequeno psitacídeo verde com uma faixa amarela na região superior das asas. Vive em grandes bandos e faz o ninho em cavidades de árvores, telhas de edificações e até mesmo em ninhos escavados em cupinzeiros arborícolas e em casas de joão-de-barro abandonadas.

Adaptaram-se muito facilmente a áreas urbanas, sendo vistos com frequência nas copas das árvores de praças e parques.

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O periquito-rei (Eupsittula aurea) é também conhecido como periquito-estrela, ararinha e cabecinha de coco (Goiás), jandaia-estrela, jandaia-coquinho, aratinga-estrela, coquinho-de-ouro, jandaia, ararinha, maracanã-de-testa-amarela (Amapá) e periquito-cabeça-de-coco (Minas Gerais).

Não é considerado ameaçado, mas infelizmente, é um dos que mais sofrem com a insanidade humana. Seu topetinho alaranjado e sua aparente docilidade o colocam na lista dos mais capturados e traficados.

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Para a equipe que os acompanhou desde a apreensão, abrir as gaiolas é a coroação de um trabalho árduo e, por vezes, ingrato.

No momento da soltura, cenas como esta abaixo davam a noção da agressão que estes animais sofreram, subjugados e obrigados a empoleirar-se em ombros e braços humanos.

Não é compreensível que eles se sintam mais confortáveis empoleirados nas costas de alguém, a usar as asas e buscar um arbusto logo à frente.

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Mais angustiante ainda é ver muitos deles agarrados às telas, com medo de pousarem no capim alto, nos arbustos ou mesmo no chão de terra.

Passarão por aqui aproximadamente 30 dias, período em que fortalecerão as asas e ganharão a experiência de se abrigarem nas copas das árvores.

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Infelizmente, alguns deles passaram tempo demais enjaulados e sentem-se mais confortáveis usando as pernas do que as asas.

Essa dificuldade refletia também na sua socialização. No primeiro dia de aclimatação, já notamos um comportamento de bando. Eles procuram se unir, formam casais e começam, ali mesmo, dentro do viveiro, a construir os vínculos que farão deles um bando completo quando a soltura chegar.

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Mas nem tudo são flores. Nada pode ser mais angustiante do que ver um deles isolado do grupo, tristonho, sem a capacidade de voar.

Infelizmente, a triagem do Cetas é só o primeiro passo. Daí até a soltura e a completa adaptação à natureza tem um longo caminho, nem sempre vencido. Quando recebemos um lote de animais, alguns deles acabam sucumbindo antes de ganharem a liberdade. Outros, nem sequer deixam o viveiro após a abertura da janela.

E este parecia ser o destino daquele estropiado periquito de asa caída e olhar triste. Ele não se uniu aos demais e passava o dia inteiro empoleirado próximo à tela, olhando o mundo que havia do lado de fora.

Ele também parecia ter grande dificuldade de voar. Tínhamos fundado receio de que ele ficasse para trás, quando o bando partisse.

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Mas a aclimatação é pra corrigir essas coisas menores. Pra facilitar a aproximação dele com o bando, e também o acesso à comida, fixamos um poleiro que ia da tela onde ele ficava até um arbusto próximo e, dele, para o coxo de frutas.

Esperávamos que, com isso, ele pudesse interagir melhor com os outros de sua espécie e, quem sabe, se unir à grande família que se formava.

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Aos poucos, ele foi se aproximando e começando a interagir. Nos primeiros dias, os encontros aconteciam durante as refeições.

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Nada como uma boa mesa pra se fazer amigos. O Calanguinho, como passamos a chama-lo, passou a se entrosar com o bando.

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Nossa alegria de vê-lo se integrando só não foi maior do que a de vê-lo usando as asas.

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Em 15 dias ele já havia se integrado. Usava as asas com desenvoltura, embora ainda precisasse de mais alguma musculação.

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Dos oito da espécie, vimos nascer ali três casais.

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E, para nossa alegria, um desses casais era o Sr. Calango e sua amada. As asas continuaram caídas por algum tempo, mas logo notamos que elas não significavam nada.

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Entre os verdinhos de asas amarelas, a aclimatação foi mais fácil.

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Alguns casais se formaram, mas o melhor foi ver que eles fizeram um pacto de vida e se reuniram em um só bando.

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Estavam sempre juntos, buscando a proteção do grupo mas, sobretudo, o afeto bem característico dos psitacídeos.

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Dividiam e compartilhavam as sementes e também as frutas.

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Conviviam em harmonia com a turma do topete. Embora tenham os mesmos hábitos alimentares, não disputam os suprimentos.

Afinal, eles sabem que a natureza é generosa e, em liberdade, eles não precisarão disputar, nem comida e nem território.

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São espécies irmãs que podem coabitar sem dificuldade.

Aliás, há alguns anos, em uma das solturas anteriores, chegamos a registrar o nascimento de um casal formado por um de cada espécie. Foi o caso de Driano e Arinúbia.

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Dessa vez, não foi preciso se misturarem. Dos 15 psitacídeos, havia 8 de uma espécie e 7 da outra. Tínhamos ali dois bandos inteiros e equilibrados.

Assistimos ao nascimento de duas famílias. Entre os “coquinhos”, a adaptação é sempre mais lenta, pois eles parecem ser os mais massacrados. Muitos deles foram retirados do ninho ainda filhotes.

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Outros tiveram as penas das asas aparadas por anos. As pessoas cortam as asas para que possam viver soltos dentro de casa, e acham que estão proporcionando liberdade a eles.

É preciso entender que tirar as asas de um pássaro é o mesmo que cortar as quatro pernas de um cachorro. A crueldade é grande, pois eles perdem todo o sentido da vida.

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Vieram ao mundo pra ganhar o céu, e são obrigados a romper distâncias (mínimas) usando as pernas, que não foram feitas pra andar, e o bico, que não foi feito pra agarrar.

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Neste período de aclimatação, procuramos manter com os animais o mínimo possível de contato. O santuário não é aberto a visitação e o tratador é orientado a servir os comedouros e sair, sem nenhuma interação com as aves.

Eles precisam aprender a se manterem distantes das pessoas. Precisam entender que não dependem delas pra comer.

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Claro que os comedouros são abastecidos, assim como a bandeja de frutas. E, ao ganharem a liberdade, encontrarão do lado de fora os mesmos comedouros e as mesmas frutas. Mas somente por um tempo. Logo eles aprendem a buscar o alimento diretamente na fonte.

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O período de aclimatação serve também pra este treinamento, pois procuramos simular dentro do viveiro o que eles encontrarão do lado de fora.

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Têm que se empoleirar e se equilibrar pra encontrar o que a natureza oferece.

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Temos também poleiros artificiais, mas que eles usam muito pouco. A área coberta do viveiro, aproximadamente uma terça parte de todo o viveiro, é também a mais escura e a menos frequentada.

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Ver esses animais, durante uma grande tempestade, preferirem os galhos altos da amoreira, onde recebem toda a chuva, ao abrigo das telhas, é um sinal bem claro de que estão se adaptando.

Na natureza, não terão áreas cobertas. Por isso, até mesmo as intempéries do tempo chegam na medida certa pra ajudar na preparação deles. E estes chegaram ao nosso território no mês de janeiro, em plena estação chuvosa.

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O tempo passou e a aclimatação transcorria normalmente. Mesmo aqueles pássaros mais dóceis (Leia-se, os mais massacrados e subjugados), já mostravam sinais de que dispensavam a aproximação humana.

Isso deixa muito claro que eles não precisam de nosso afeto. Não precisam de nosso carinho.

Pelo contrário, precisam apenas de nosso respeito. Precisam que sua liberdade seja respeitada, precisam de vida.

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Infelizmente, as autoridades são tolerantes demais em relação aos maus-tratos a animais.

O foco é a proteção do ecossistema e não do indivíduo. É uma pena que existem ainda criatórios autorizados.

As autoridades precisam entender que são os criadores autorizados que estimulam o tráfico, pois as pessoas que compram estes animais os exibem como troféus, despertando a cobiça de outros.

Para aquelas pessoas que não podem pagar por um animal legalizado, o tráfico surge como alternativa mais barata.

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E este é apenas um argumento prático. Pra nós, entretanto, o principal motivo de se abolir a escravidão é a proteção animal. Cada vida conta e não importa se um animal foi retirado da natureza ou se nasceu em um criatório autorizado. A covardia é a mesma.

Também pouco importa se um animal é de nossa fauna ou se é exótico. A covardia da escravidão é uma só e destrói vidas. A escravidão aprisiona almas.

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Voltando a falar dos nossos protegidos, os 30 dias de aclimatação transcorreram muito bem.

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O bando se formou, tanto entre os “coquinhos” quanto encontre os “verdinhos”

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Na hora de comer, as duas espécies formavam um bando único e harmônico. Pareciam até amigos de infância.

Na verdade, são companheiros de tragédia. As histórias, embora variadas, são muito parecidas, e todas passam pela escravidão e por uma vida inteira de sofrimento.

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E finalmente, o dia da soltura chegou. Chegamos ao santuário antes do dia clarear. Abastecemos os comedouros e a bandeja de frutas dentro do viveiro, enquanto os animais estavam ainda sonolentos.

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Eles se levantaram, já sem a nossa presença, tendo o banquete de todos os dias já servido.

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Era preciso encher bem as barriguinhas. E assim o dia chegou dando as boas vindas a todos eles.

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Aquela manhã de fevereiro começou como todas as outras, daqueles dias de aclimatação.

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Mas havia algo no ar. Eles pareciam pressentir que alguma coisa estaria mudando.

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Aproveitaram o desjejum com a gulodice de sempre.

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Finalmente, eles estavam prontos. Nossa missão havia chegado ao fim.

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Dentro de mais alguns instantes, eles seriam aves livres. Estariam por sua conta e risco. Por algum tempo, ainda abasteceremos os comedouros no entorno do viveiro, mas não poderemos mais livrá-los dos perigos que a vida livre trará.

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A abertura da janela é o marco zero dessa nova fase. Eles agora serão aves livres, mesmo que demorem uma semana pra deixar o viveiro.

Uma soltura não é uma grande revoada. Consiste no simples gesto de abrir uma janela para a vida.

E eles, como aves livres que são, usarão essa permissão da forma que lhes convier. A soltura completa leva de sete a dez dias.

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Muitos deles deixam o viveiro e voltam, muitas vezes durante os dias seguintes.

Então, nunca sabemos ao certo quando exatamente o último deixou o viveiro, pois aqueles que ainda são vistos ali, talvez já tenham saído e voltado.

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E algumas cenas são mesmo especiais. Enquanto registrávamos de um canto as saídas discretas e isoladas, um sabiá que havia deixado o viveiro minutos antes pousou bem ao nosso lado na varanda, trazendo no bico um anelídeo.

Parecia querer nos mostrar que a vida livre era muito mais do que aquilo que nós podíamos lhes proporcionar dentro do viveiro.

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Mas ele não estava sendo mal-agradecido. Pelo contrário, queria apenas dividir conosco a felicidade daquele recomeço.

Enquanto alguns ciscavam o terreiro e conheciam os comedouros do entorno, outros ensaiavam timidamente uma saída.

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Aqueles que saíam primeiro voltavam e se posicionavam nas telas, como se tentassem mostrar aos amigos que ficaram que havia algo novo pra ser descoberto.

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Registrar o primeiro voo em liberdade de um animal é mesmo algo muito especial, que precisa servir para despertar as pessoas.

Queremos um mundo melhor, mas não só para nós, humanos. Queremos um mundo melhor e mais justo para todas as criaturas.

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No entorno do viveiro, aqueles que se aventuraram primeiro começam a se misturar aos nativos e àqueles reintroduzidos, de solturas anteriores.

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Um sabiá laranjeira, depois de ciscar o terreiro em busca de pequenos bichinhos, veio pousar no caibro do telhado.

Parecia não acreditar na liberdade.

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Outros, como esta fêmea de Tico-Tico, já saiu procurando um lugar pra preparar o retorno de alguns daqueles que ficaram pelo caminho.

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E, finalmente, o primeiro dos periquitos decidiu se lançar no mundo. Voou para a mangueira logo em frente, mas logo voltou, vocalizando e chamando pelos companheiros.

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Eles precisam da segurança do bando e não gostam de viver sozinhos.

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Ele chamou, chamou e se esgoelou de tanto gritar, mas os outros não tinham pressa.

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Ele então começou a dar pequenos voos em volta do viveiro e vocalizando.

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Ameaçava partir e voltava para a janela aberta.

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Outros animais que também vivem em bando tinham o mesmo comportamento, de sair e esperar pelos companheiros, antes de partirem.

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Os “coquinhos” também começaram a sair e, para a nossa surpresa e alegria, um dos primeiros a deixar o viveiro foi o Calanguinho.

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Do lado de fora, sua companheira já o esperava. Sua coragem de sair veio da vocalização da parceira, que insistia em chamar por ele.

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E assim eles foram saindo, um a um. Os que saiam primeiro chamavam pelos demais e os esperavam. Alguns voltavam e pousavam nas telas, como se incentivassem os amigos, ou lhes mostrassem o caminho.

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A mangueira logo em frente da janela do viveiro tornou-se o ponto de encontro dos verdinhos.

Ali eles reuniram as famílias e somente depois do último deixar o viveiro, foi que passaram a experimentar voos mais distantes.

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Por uma semana eles continuaram por ali, frequentando os comedouros mas também experimentando novos sabores.

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Por vezes, o bando inteiro entrava novamente no viveiro, talvez pra nos mostrar que foram felizes ali e que reconheciam o quanto aquela casa foi importante.

Mas a vida é muito mais que um viveiro. Eles agora podiam olhar o céu, buscando talvez agradecer a quem os criou, dando-lhes asas e o privilégio de poderem voar.

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FVS 3

IBAMA IEF FVS

 

Calanguinho c