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Há muito mais pra mostrar do que pra falar.

O pedido de ajuda dava notícias de um senhor de 70 anos que tinha aproximadamente 100 animais, a grande maioria Poodles, alguns Pinschers e mestiços dessas duas raças.

Síndrome de Diógenes ou Síndrome de Noé são os nomes de uma doença já conhecida e de fácil diagnóstico. Neste caso, alguns problemas de saúde foram o incentivo que faltava para que o tutor dos animais aceitasse doar alguns deles.

Quando cheguei ao local pra conhecer a situação, já encontrei dois grupos de animais, um primeiro que seria mantido pois ele se recusava a doar, e um segundo, que ele aceitava entregar para adoção, mas com um discurso na ponta da língua, se fazendo de vítima.

As pessoas que nos pediram ajuda já haviam iniciado o trabalho e já haviam conseguido castrar quase todos os machos, com exceção de dois que estão fazendo a festa entre as fêmeas.

Entre os que não serão doados, havia uma ninhada que acabara de nascer e duas fêmeas prenhes, já perto de parir, fora aquelas que tivessem no início da gestação.

Os animais estavam aparentemente bem, embora com pelo embolado e muito sujos. Não havia sinais de maus-tratos, muito embora a narração do fato desse notícia de que a ração é racionada. Claro que onde há superlotação, os mais submissos normalmente não comem. Mesmo assim, não vimos nenhum animal com sinais visíveis de desnutrição.

Na ala dos que serão mantidos, até que existem alguns caixotes espalhados, forrados com panos que lhes servem de cama.

Infelizmente, entre os que serão doados, não há cama, nem sombra e quase nada de ração.

O único abrigo é um banco feito com algumas tábuas, onde eles têm que se amontoar, sobre elas durante a noite pra evitar o chão frio, e sob elas para se esconderem do sol quente.

Está evidente que não cabem todos, nem sobre nem sob o banco.

Não sei onde vão se esconder quando iniciarem as chuvas. É certo que receberão toda a água que vier do céu. Quem sabe o céu envia algo mais pra eles?

O tutor tem apreço pelo animais e faz o que pode, mas com tantos animais, o que ele pode é muito pouco. Mas essa é uma verdade que não é admitida.

Algumas pessoas têm procurado ajudar. Um vizinho chegou a comprar uma máquina de tosa pra tentar melhorar as condições dos cães, mas o trabalho está longe do ideal.

Claro que neste caso a intenção é melhorar o conforto dos animais, e isso tem sido feito. A estética vai ficar por conta dos adotantes.

São tantos que não dá pra tosar todos. O pelo cresce rápido demais e muitos já estão embolados de novo.

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Eles chegam a se amontoar procurando a proteção do grupo. São cães muito dóceis, mas assustados e tristes.

A maioria nasceu ali e não sabe que existe uma vida diferente do lado de fora. Eles nem imaginam o que é dividir um travesseiro com os donos, um passeio na praça ou mesmo um banho de pet shop.

Segundo relato de vizinhos, os cães chegam a uivar de fome, embora aparentemente estejam bem nutridos. A ração realmente não os nutre. Falta quantidade e qualidade. Eles nasceram pra comer ração super prêmio, pra ter atenção, pra passear de carro, pra desfilar com os donos.

A ração que comem, além de passar longe do que eles merecem e precisam, é racionada.

A grande maioria é de Poodles, com alguns poucos Chiuauas, Pinschers e outros mestiços dessas raças.

Mas tem também alguns mestiços de Poodle com um certo Cocker que um dia passou por ali, como estes dois irmãos. Claro que um puxou a mãe e outro puxou o pai.

Não existe cachorro feio naquele lugar. Mesmo na turma dos preteridos, existem algumas jóias raras. Na verdade, todos são.

Contra tudo e contra todos, ainda aparecem algumas que são capazes de ficar de pé, balançando as patinhas, como se pedisse carinho. Os movimentos são típicos de cachorrinho de circo. Alguém deve tê-lo ensinado a fazer aquilo.

Muitos deles são desconfiados. Na verdade, são tristes. Eles se amontoam, como se buscassem a proteção do grupo.

De agora pra frente, vou escrever menos. As fotos falam mais alto.

Que fique muito claro que nenhum animal será doado sem castrar. Infelizmente, alguns já foram doados antes de nossa chegada.

Resta torcer para que não tenham caído em mãos erradas.

Infelizmente, existem também alguns problemas urgentes a resolver, como esta fêmea com tumor de mama. Ela precisa de assistência médica.

Uma parte dos animais não será doada. Entretanto, nosso empenho é em retirar de lá os que o tutor autorizou e depois negociar parte do restante.

Abaixo, uma pequena prévia dos que não serão doados (Por enquanto).

Estes animais precisam ser salvos. E quem assumiu essa missão foi a Cão Viver.

Os primeiros a deixar o local foram recebidos na Cão Viver, vacinados, vermifugados e castrados.

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Atualização – O resgate

Foi em uma manhã de segunda-feira que 23 deles deixaram a antiga casa, com destino a uma nova vida.

Estavam assustados, é claro, mas pareciam tranquilos. Os que foram resgatados eram exatamente aqueles que estavam mais magros, mais embolados, mais assustados.

Eram aqueles que tinham sido separados para serem doados.

Entre eles, haviam 3 ou 4 bichons, que até pareciam de raça pura, não tivessem tido as caudas amputadas.

Muitos eram mestiços do Poodle com Pinscher, o que fez nascer cãezinhos diferentes e até exóticos, embora todos muito pequeninos.

Eram 6 fêmeas e 17 machos. As seis fêmeas ficaram na Cão Viver, já que precisavam ainda ser castradas.

Os machos, já castrados, seguiram para Betim. Ficariam hospedados na casa da Denise, por absoluta falta de espaço na Cão Viver. Eles chegaram no sítio em Betim e foram deixados juntos, em um canil grande e espaçoso.

Lá receberam as primeiras vacinas e vermífugos. Na medida do possível, alguns foram tosados e outros precisariam  aguardar o grande mutirão de banho e tosa que aconteceria na Cão Viver.

Infelizmente, o sítio em Betim era distante demais para os voluntários.

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De qualquer forma, apesar do desgaste do resgate e da viagem, eles chegaram felizes na nova casa. Até aquele momento, eles não tinham vivido grandes mudanças, mas pareciam saber que estavam no caminho delas.

Dentre todos, um se destacava. Foi o primeiro a receber um nome. Foi chamado de Igor pela Denise e viria a ser o personagem principal de uma das frustrações que protetores costumam experimentar.

Ele é um cãozinho alegre e brincalhão, que adora colo. Fica de pé sobre as pernas traseiras e balança as patinhas dianteiras, como se chamasse as pessoas para se abaixarem ou virem até ele.

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Estes cães evoluíram para dividir a cama e o travesseiro com os donos. Mesmo acomodados temporariamente em um canil, eles pareciam sentir a diferença na energia que os rodeava.

As boas-vindas foram dadas pessoalmente pela Denise, com a experiência de quem já ajudou a socializar muitos outros antes deles. Este ratinho marrom de pelo curto, o único Pinscher puro da turma, recebeu o nome de Calixto.

Enquanto isso, na Cão Viver, os trabalhos seguiam com as fêmeas.

Aquela Poodle com um tumor enorme estava entre as resgatadas, é claro. Constatou-se que aquela bola não era um tumor, mas uma hérnia, que já alojava parte de seu intestino, provocando uma mudança de posição de alguns órgãos internos.

O caso era muito grave já que o aparelho digestivo estava obstruído, o que a impedia de defecar ou de se alimentar. Com um quadro assim, nenhum cachorro viveria mais que algumas poucas horas.

Isso nos leva a certeza de que ela foi salva no último minuto. Foi operada às pressas pela Priscila, veterinária da Cão Viver com experiência nos piores casos.

Na Cão Viver, cada cachorro é tratado como se fosse o único.

Entre as fêmeas, duas ratinhas peludinhas, com ¼ ou talvez menos de Pinscher, garantiu a elas o tamanho micro toy.

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Outras duas, estas com um percentual maior de Pinscher, herdaram o tamanho das duas raças que compõem seu DNA.

Uma mais peludinha e outra de pelo baixo, com cara de vira-lata.

Chegou o sábado, dia muito esperado. As expectativas eram as melhores. Muita gente se oferecendo pra ajudar no mutirão e outro tanto manifestando o desejo de adotar.

Os machos eram 17 e já estavam todos vacinados, vermifugados, castrados e examinados. Alguns já estavam tosados e outros passariam pela tosa ali mesmo.

As surpresas foram as melhores possíveis em um aspecto e as piores possíveis em outro.

Com relação à união de voluntários e funcionários, a nota foi 10, com louvor. Muita gente compareceu, mais que esperávamos.

A Brigada Planetária transferiu temporariamente para o pátio da Cão Viver parte de sua diretoria, para dar banhos e ajudar na organização da feira.

Muitos outros voluntários, alguns tosadores com experiência e outros só com a boa vontade. Os médicos e estagiários da Cão Viver renunciaram ao feriado para estar ali.

O fato é que o mutirão funcionou bem e todos os cães foram tosados, uns bem e outros menos.

Mas o fato é que estavam todos em condições de serem adotados. Os machos já poderiam deixar o abrigo e as fêmeas precisariam aguardar alguns dias para castração e o pós operatório.

Nas fotos abaixo, a grande festa foi receber os cães e interagir com eles. O dia foi cheio e agitado, mas eles pareciam felizes. Era gente demais e cada um que passava perto de um cachorro fazia questão de estender os braços e fazer um afago.

Eles nunca receberam tanta atenção e tanto afeto. Nenhum voluntário que esteve ali vai conseguir esquecer o dia.

Não é exagero dizer que os animais estavam felizes. Esses cãezinhos estão muito avançados no processo de humanização. Alguns deles, só faltam falar, e outros, falam usando a língua dos sinais.

Com tudo pronto, era hora de esperar pelo principal: os adotantes. Eles eram as pessoas que tinham o poder de encerrar a festa, de fazer a diferença.

Esperamos, esperamos, esperamos e esperamos, mas eles não vieram. Pelas redes sociais, havia mais de 50 pretendentes. Acreditávamos que pelo menos os 17 machos que já estavam castrados poderiam deixar o abrigo, nos permitindo buscar outro tanto.

Mas eles não vieram. Talvez o feriado, talvez a chuva (Não choveu. Até o tempo ajudou). Não é o caso de tentar entender.

Duas fêmeas foram adotadas. Só não puderam deixar o abrigo nos braços dos novos donos porque ainda serão castradas e farão o pós operatório na ONG. Mas as duas ratinhas pretas estão com o futuro garantido.

Sem adotantes, eles ficaram tempo demais esperando e foram se desanimando. Era claro o desconsolo daqueles cães.

Precisamos explicar que os cães não são cãezinhos de exposição. Eles estão magros, judiados, um pouco assustados. Não são os mais belos exemplares da espécie.

Infelizmente, os poucos adotantes que chegaram não se interessaram. Talvez esperassem coisa melhor. Alguns deixaram o abrigo decepcionados: __Mas é isso?

É ISSO. É exatamente ISSO o que temos pra oferecer. E não queremos aqui pessoas interessadas em cãezinhos de revista. Não queremos aqui gente interessada em um cãozinho de raça. Não queremos por aqui gente que não entenda que esses animais precisam ser ajudados.

Assim que os portões da ONG se fecharam, decidi entrar na pequena suíte onde alguns deles estavam acomodados. E tentei fazer fotos que fossem capazes de transmitir o que eles estavam sentindo, e que era também o sentimento de cada protetor, de cada funcionário e de cada voluntário que lá estava.

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Não sabia se pedia desculpas a eles pelo preconceito de nossa espécie, ou se prometia que daria o sangue pra mostrar e descrever o que estava acontecendo ali dentro.

E que cada um interprete estes olhares como puder.

Alguns desses cãezinhos são sociáveis e vêm no colo de pessoas estranhas sem cerimônia.

Mas, a maioria deles é de lobinhos ainda assustados e arredios. São dóceis, mas precisam de tempo, de socialização, de cuidados, de carinho. A maioria deles precisa ser conquistada.

O dia já estava no fim, mas havia ainda algo muito importante a ser feito ali.

Aqueles lobinhos precisavam entender que a vida era boa. Precisavam saber que havia quem se importava com eles.

Então, eles foram soltos no pátio, onde tiveram um bom tempo socializando com os diretores da Cão Viver.

Primeiro, foram deixados à vontade, cheirando e pisando a terra, correndo, pulando, marcando um território que nem sequer é deles.

Claro que, a essa altura, não importava se estavam deitando na terra depois de terem tomado banho. Afinal, aquela faxina toda não tinha lhes trazido os tão sonhados adotantes.

Só pra explicar a livrar a cara de alguns tosadores profissionais que lá estavam, este aí fui eu quem tosou. Mas o trabalho ainda não terminou e o pessoal da tosa ficou de voltar no domingo pra terminar o serviço.

É claro que vão pegá-lo de novo. Resta saber se vai ter conserto. Mas se não consertar tudo no domingo, na próxima tosa alguém dá jeito nele.

Outros apenas tiraram os bolos na tesoura mas conservaram a carinha peluda, talvez pra fazer pose e servirem de atrativo para as próximas feiras.

Tinha também lobinho miúdo buscando posto de observação mais alto. Ali, ele se coroava o Rei. E será, em breve.

Depois de um tempo relaxando na área de terra, era hora de interagir com as pessoas. Petiscos são um bom começo.

Aos poucos, eles foram se aproximando, mostrando que não eram tão arredios assim. Até beijo distribuíram, como se agradecessem a acolhida.

Quem se lembra do Igor, aquele cãozinho que ficava de pé balançando as patinhas?

Pois é. Ele tinha sido adotado. Deixou o abrigo no colo do que acreditamos que seria uma ótima adotante. Moraria em um apartamento e teria companhia de outra cadelinha muito parecida com ele, quase do mesmo tamanho.

Mas aí, menos de 2 horas mais tarde, ele estava de volta, devolvido. É que ele chegou à nova casa e foi bem recebido pela companheira peludinha, mas ele ficou arredio, com medo, se escondendo.

Esta foi a razão da devolução. Quando chegou, sua turma já estava se divertindo na terra. Ele foi deixado entre os seus e foi logo recebido pelos amigos, como se o perguntassem por onde andou.

Chegou meio cabisbaixo e parecia saber que algo não tinha dado certo.

Mas em questão de minutos já estava novamente alegrinho. Afinal, estava entre os seus.

Mais tarde, ele se aproximou das pessoas, como se pedisse acalanto. O dia tinha sido cheio pra ele.

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E ganhou o que precisava, na medida certa. Aqui não vai faltar colo pra você Igor.

A socialização com os diretores da ONG se estendeu pelo resto do dia até o início da noite. Em pouco tempo já estavam todos rodeando as pessoas, pedindo carinho e colo, sabendo que ali tinha algo que valia a pena.

Eles não são selvagens. Estão prontos para se renderem. Precisam apenas de paciência.

Claro que o Igor era sempre um dos primeiros a reivindicar o colo.

Era hora de prepará-los para a noite fria. Pelo menos aqueles que estavam pelados precisavam de roupinhas. Estranharam um pouco porque não conheciam isso. Mas vão se acostumar.

O trabalho durou algumas semanas, com voluntários ajudando na socialização dos cães, até que, um a um, eles foram adotados. O tempo vai ensiná-los que a vida vale muito e que os tempos são outros.

Esperamos ainda poder continuar contando esta história, com o resgate dos outros que ficaram. O tempo vai nos mostrar o caminho.