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Sempre que recebemos um lote de animais para soltura, algumas histórias se sobressaem. Em média, 250 vidas a cada soltura.

As espécies são variadas, algumas solitárias, outras de hábitos coletivos, alguns muito comuns, outros mais raros.

Ao final da aclimatação, eles já estão quase prontos para se integrarem à natureza. Quase porque a parte final da preparação acontece depois da abertura do viveiro, que será o momento em que enfrentarão perigos naturais, aprenderão a buscar sozinhos outros sabores e poderão encontrar e interagir com outros de sua espécie.

Geralmente, em cada lote, temos a alegria de receber alguns pássaros pretos, entre 5 e 10 indivíduos. A espécie vive em pequenos bandos, que são comuns na região.

Então, sempre que uma turminha chega, o comportamento instintivo de bando prevalece e, no período de aclimatação, eles se unem e acabam formando um pequeno bando, o que garante um começo de vida mais fácil pra todos eles, quando a liberdade chegar.

Além disso, sempre encontram, nos campos em volta do santuário, outros bandos nativos, aos quais acabam se unindo.

Não é raro formarem casais, já que as pessoas costumam capturar também as fêmeas. A espécie é conhecida por sua docilidade e inteligência. Como não tem dimorfismo sexual, todos, machos e fêmeas, acabam vítimas da escravidão.

Na grande soltura de Agosto, dentre os mais de 200 pássaros, recebemos 8 Pássaros Pretos, dentre machos e fêmeas.

Como das outras vezes, eles se uniram em um só bando, chegando mesmo a formar casais. Na verdade, eles se dividiram em um bando de 7 e um solidário, que não reconhecia os demais como seus.

O Chico se mantinha afastado dos demais. Ele os ignorava, como se não fossem da mesma espécie.

Começava a cantar e piar assim que notava a aproximação do tratador. E tão logo alguém entrava no viveiro para a alimentação diária, ele logo se aproximava, pousava na cabeça das pessoas, nos braços, beliscava pra chamar atenção e interagia como conseguia, embora a orientação aos tratadores fosse para que o ignorasse solenemente.

Esperávamos que, sendo ignorado, ele acabaria por se aproximar do banco. Torcíamos para que estivesse ainda preservado um resíduo de instinto que fizesse a diferença.

O Chico estava ótimo de saúde. Voava com desenvoltura e agilidade, mas insistia em manter a amizade humana, como se dependesse dela.

Pedia carinho, pois aprendeu por uma vida inteira que precisa dele.

Enquanto ele se esforçava pra manter vínculos com as pessoas, nós nos esforçávamos por ignorá-lo.

Os dias se passaram e pouca coisa mudava. De um lado do viveiro, o bando de pássaros pretos, já totalmente adaptado, se preparava para a liberdade próxima, inclusive formando casais e já ensaiando acasalamentos.

Mas, isolado dos demais, um sujeito chamado Chico insistia em beliscar alianças. O mais inusitado era que, depois de beliscar aliança em dedo humano, ele beliscava a própria anilha do projeto de reintrodução. Parecia querer mostrar algo que não tivemos a capacidade de entender.

Talvez, mostrando que os vínculos que ele conhecia eram outros, e não aquele que tentávamos empurrar “guela abaixo”.

De qualquer forma, teríamos 30 dias de aclimatação e esperávamos que este período fosse suficiente para que o Chico aprendesse algo sobre um sonho de liberdade.

Apesar desse pequeno detalhe, ele estava bem. Alimentava-se bem, comia as mesmas sementes e frutas dos demais de sua espécie, mas não se integrava ao bando.

Tomava banho todos os dias no lago, jogando água por todo lado. O comportamento dele era muito parecido com os demais, mas ele mesmo não conseguia enxergar a semelhança.

E, finalmente, o dia da soltura chegou, sem que notássemos no Chico uma mudança substancial que nos desse esperança de que ele seria uma ave livre.

Os seus irmãos estavam ali, ansiosos pela abertura da janela.

E o nosso Chico continuava  pousado ao nosso lado nos poucos momentos em que entrávamos no viveiro.

Ele nos olhava como se tentasse entender as razões de tanta indiferença.

Não é indiferença, amigo. Não sabemos mesmo o que devemos fazer pra você se sentir livre. Queremos que você esqueça o passado, que seja livre, como nunca deveria ter deixado de ser.

Você precisa entender que os homens não são bons amigos para animais como você. Tente buscar referências nos seus. Por favor, nos esqueça.

E ele continuava a nos olhar, cobrando explicações e esperando retorno daquela oferta de amizade.

O dia da soltura chegou e nossa expectativa era de que o Chico não deixasse o viveiro. Orientamos o tratador a fechar o viveiro assim que o último saísse, o que geralmente leva em torno de uma semana.

Se o Chico não saísse, ele continuaria no viveiro, até o próximo lote chegar e assim teria mais tempo pra se tornar um pássaro preto livre.

E ele continuava insistindo no contato humano. Comia, bebia, nadava, voava, mas sempre voava de volta para o lado de quem ali estivesse, mesmo que por apenas alguns instantes.

E, para a nossa surpresa total, quando abrimos o viveiro, ele foi o primeiro a deixar a jaula.

Pousou do lado de fora, rente às telas, depois voou para o caibro do telhado externo.

Ele tinha o mundo à sua disposição, agora sem telas. Poderia voar e pousar onde bem quisesse. Mesmo assim, ele voou e pousou no único lugar proibido. Aquela cena nos angustiou além do que podíamos suportar.

Enquanto os outros de sua espécie exploravam o ambiente e interagiam com outras aves, o Chico insistia em ficar perto das pessoas.

Tentamos ignorá-lo, vigiamos o Chico de perto durante todo aquele dia e, quando a noite caiu, ele se abrigou instintivamente em alguma árvore próxima.

Era o começo de um novo tempo. Havia perigos ali. Predadores noturnos poderiam encontra-lo, mas recusávamos a mantê-lo preso. Ele tinha todas as condições físicas para a vida livre, os seus parentes estavam todos ali, prontos para recebe-lo e ensiná-lo sobre a vida de um pássaro preto livre.

Infelizmente, ele não estava interessado. No dia seguinte, levantamos antes do sol pra procurar pelo Chico, saber se ainda estava ali e se a noite tinha sido boa pra ele.

Não o encontramos e uma angústia grande tomou conta de todos os que estavam ali para torcer por ele.

Duas horas mais tarde, o Sr. Irineu chega ao santuário, com o Chico dentro de uma caixa de sapatos.

_ Ele estava na fazenda do outro lado da estrada, brincando com a dona da casa e tentando interagir com o gato dela, que já o vigiava lambendo o beiço.

Estava claro que os 30 dias de aclimatação não foram suficientes. Trancamos o menino novamente em um viveiro de quarentena.

Assim que terminamos a soltura, libertamos o Chico novamente dentro do viveiro de aclimatação, fechado. Lá ele continuará, esperando o próximo lote, que deve chegar em dezembro.

A história do Chico será contada em vários capítulos. Junto com ele, dentro do viveiro, dois pequenos coleirinhos que também se recusaram a sair. Pra eles não tem pressa. Na próxima soltura eles poderão sair.

Experiências anteriores já nos mostraram que animais que não aceitam a liberdade não têm vida longa dentro de nosso viveiro.

E os motivos são muito óbvios. O Santuário Vale dos Sonhos faz parte do Projeto O Lobo Alfa e foi idealizado para restaurar vidas, recolocando-as no caminho evolutivo do qual foram arrancadas.

E para uma ave silvestre, viver em um viveiro de aclimatação, quando outros de sua espécie nidificam em liberdade, não é uma opção. E, pra nossa alegria, os pássaros pretos que deixaram o viveiro estão por ali. Fixaram território em nossas terras e já estão nidificando em uma palmeira próxima.

Portanto, amigo. Ou você deixa o viveiro e se integra, ou o caminho pra você será um novo começo, em outra vida. Nosso território está pronto pra te receber de braços abertos, seja agora, seja em breve. Quem sabe nascendo livre, você será capaz de esquecer a escravidão que tirou de você o sonho de voar?

Que os anjos te acompanhem, amigo, e te conduzam à liberdade, ainda que pra isso você precise morrer e renascer.