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Os primeiros símios (macacos sem cauda) surgiram há 25 milhões de anos. No entanto, avançaremos um pouco mais no tempo, até há 100 mil anos, período em que teve início a história que pretendemos contar.

Há 100 mil anos, viviam sobre a terra os antepassados dos humanos, hoje conhecidos como Homo Sapiens. Esses primeiros humanos viviam em aldeias, já dominavam o fogo, construíam e utilizavam ferramentas e já se vestiam com peles de animais.

Nessa época, teve início o processo de domesticação dos lobos (canis lupus). Os canídeos descobriram que viver nos arredores das aldeias lhes trazia algumas vantagens.

Os humanos dominavam a arte das caçadas, manipulavam o fogo para assar a carne e sabiam construir objetos e armas. Descartavam os restos nos arredores de suas aldeias, com os quais os canídeos se banqueteavam.

Assim, homens e lobos foram se aproximando, surgindo uma relação de comensalismo. Os lobos se aproximavam, se serviam dos restos humanos mas nada ofereciam em troca. Era mais fácil e seguro esperar pelos restos descartados pelos humanos que se arriscarem nas caçadas.

Com o tempo, os lobos começaram a auxiliar os humanos nas caçadas, cercando a presa ou mesmo segurando-as para que fossem capturadas e abatidas. Também protegiam as aldeias contra a invasão de outros predadores. Os humanos tinham as armas, a habilidade, a força, a inteligência e a estratégia e os lobos tinham a velocidade, o olfato, a visão noturna e a força nas mandíbulas. A relação passou a ser de cooperação ou mutualismo facultativo. As melhores partes das caças sempre ficavam com os humanos mas, ainda assim, os lobos se banqueteavam com os restos. Os humanos passaram a reconhecer a ajuda dos lobos, oferecendo-lhes restos cada vez melhores.

Os canídeos tinham algumas características evolucionárias que viriam a facilitar a aproximação com os humanos. Com o objetivo de criar fortes laços dentro da matilha, os filhotes, até determinada idade, possuíam uma incrível facilidade de estabelecer ligações afetivas com outros membros da alcatéia. Somente mais tarde ocorria uma redução dessa capacidade e os lobos adultos tornavam-se hostis com indivíduos estranhos.

Essa facilidade de estabelecer relações afetivas foi determinante para a aproximação com os humanos. Com o tempo, os filhotes dos lobos, já nascidos nos arredores das aldeias, passaram a se aproximar dos filhotes humanos, nascendo uma relação de amizade e profundo afeto que viria a se tornar o maior vínculo afetivo entre espécies, em toda a existência deste planeta.

Essa aproximação viria a alterar o curso da evolução dos canídeos. Nascia ali a primeira matilha formada por lobos e homens.

Com a vantagem obtida pelos lobos, com a aproximação aos humanos, aqueles indivíduos mais afáveis e mais próximos dos humanos passaram a receber, desses, mais alimento, tornando-se mais eficientes na luta pela sobrevivência.

Com isto, a docilidade passou a ser uma característica que trazia maior sucesso aos lobos, pelo menos àqueles que viviam nos arredores das aldeias. Recebendo mais alimento, tornavam-se os mais fortes e, mais facilmente, ocupavam a posição de lobos alfas. Como reprodutores, passavam essas características às futuras gerações. Os machos mais afáveis recebiam mais alimento, tornavam-se mais fortes, assumiam a liderança da matilha e se reproduziam mais. A aproximação com os humanos passou a influenciar a evolução dos canídeos, que se tornavam mais dóceis e afáveis a cada nova geração.

Mais tarde, essa evolução, antes natural, passou a ser manipulada pelos humanos, que tinham grande inteligência para tanto. Selecionavam as fêmeas e machos mais afáveis, mais inteligentes, mais fortes. Ali, o cão doméstico deu os seus primeiros passos.

A evolução dos canídeos, com os primeiros passos do cão doméstico, ocorreu quase que simultaneamente à civilização humana. Homens e cães nasceram, cresceram e evoluíram juntos.

Os Homo Sapiens continuaram seu caminho evolutivo até os humanos atuais. Há 12 mil anos o homem deixou de ser caçador, dando lugar a comunidades mais numerosas de pastores e agricultores, com chefes e artífices especializados. A partir do ano 6.000 antes de Cristo, surge a utilização do cobre, bronze e ferro, permitindo a fabricação de novas e mais resistentes ferramentas. Assim, os homens chegaram ao que são hoje, trazendo sempre a seu lado, o amigo canídeo, já domesticado.

Foi assim o processo de domesticação dos lobos. No início, eram apenas animais amansados. A domesticação, propriamente, viria muitas e muitas gerações mais tarde, num processo natural de evolução da espécie que levaria milhares de anos.

Depois que os lobos já estavam domesticados e, com a evolução das sociedades humanas, os cruzamentos manipulados que, até então, buscavam as melhores características de cada animal, como inteligência, força e docilidade, passaram a ocorrer para obter características específicas e até por questões estéticas, dando origem às diversas raças de cães hoje existentes.

Homens e lobos criaram vínculos de afeto e amizade que atravessariam o tempo. Vínculos de almas que sobreviverão ao planeta.

OLA FVS

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