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Não existe história feliz em um abrigo de animais. Cada um tem o seu passado de abandono, de sofrimento, de rejeição. Aqueles que não têm passado, nasceram ali, o que dá na mesma.

Apesar de todo sofrimento, não é raro encontrar animais felizes vivendo em um abrigo, sobretudo quanto há estrutura, quando estão saudáveis, quando condições mínimas de dignidade são garantidas.

Não é essa a realidade da casa de D. Tereza. Por isso, os animais que lá estão, em sua maioria, são cães tristes, arredios, assustados.

Como de costume, sempre que nos envolvemos em histórias assim, com grande número de animais, precisamos focar do coletivo. Precisamos doar aos montes, convocar voluntários, organizar eventos para adoções.

E, como sempre ocorre, algumas histórias individuais nos machucam mais. Em uma matilha muito grande e de cães grandes e médios, nada é mais urgente que retirar de lá os velhos e pequenos. Pra eles, a vida em um lugar assim se resume a 24 horas de sofrimento por dia.

Assim foi feito. Fizemos uma grande campanha e muitos cãezinhos idosos, cegos e sem dentes estão hoje levando uma vida diferente, sendo cuidados com toda a dedicação do mundo pelos novos donos, pessoas que se dispuseram a se doar pra salvar o que sobrou de uma vida.

Um dos casos especiais, um cãozinho cego, velho e com o corpo tomado de sarna, nos impôs uma ação diferente. Ele não tinha a mínima condição de ser levado a uma feira de adoções.

Cori, um Shih-Tsu legítimo de 6 quilos, gordinho e muito, muito triste e deprimido.

Seu estado físico era o pior possível. Sua pele estava grossa de tanta sarna. Feridas se espalhavam pelo corpo, já com cascas formadas pelo sangue que escorria dos ferimentos provocados por suas próprias unhas. Ele não parava de se coçar.

Quando o vimos pela primeira vez, ele estava encolhido em um canto da cozinha, assustado com as brigas dos cães maiores, que acontecem o tempo todo em todos os cantos daquele depósito.

Aquele cachorrinho nasceu pra dividir a cama com os donos, e, no entanto, estava ali naquele depósito de cães indesejados.

Seu pelo estava duro de sujo. Seu cheiro era dos piores que já sentimos.

A cena daquele cachorrinho de colo no meio daquele amontoado de cães maiores era angustiante demais. Infelizmente, ele não estava em condições de ser doado. Não estava castrado e seu aspecto nos impedia até mesmo de anunciá-lo.

Sua história é a mesma de muitos que ali estão. O Cori foi deixado amarrado na porta da casa de D. Tereza. A pessoa que o deixou voltou lá e explicou que o encontrou perdido na rua. Depois, voltou mais algumas vezes, sempre querendo ter notícias dele. Contou que não dormiu na noite que o amarrou ali, com medo que ele se soltasse da coleira e fosse atropelado.

Todo esse cuidado e aparente remorso davam uma boa pista de seu passado. Que essa história chegue aos canalhas que o abandonaram. Que saibam que ele não teve sorte, que não encontrou novos donos, que o lugar escolhido pra deixá-lo não foi bom. Que saibam que ele nunca se curou da sarna e nunca foi feliz.

Lá se vão quase dois anos de intenso sofrimento. Não conseguimos imaginar como ele sobreviveu. Já chegou ali infestado de sarna e, apesar dos vários tratamentos, nunca se curou. Sua comida chega diariamente dentro de um balde. São restos de um restaurante, usados pra alimentar os velhinhos.

Segundo D. Tereza, na época de seu resgate, ela chegou a anunciá-lo, na tentativa de encontrar seus donos. A notícia de que um Shih-Tzu havia sido encontrado levou às portas de D. Tereza pelo menos uma dúzia de donos, felizes porque encontraram seu amiguinho sumido, que dormia com as crianças, que era estimado, que isso e que aquilo.

Assim que colocavam os olhos naquela coisinha feia e doente, a frase era a mesma: “_Que pena! Não é ele.”

Pegamos o Cori e o tiramos de lá. Ele não tinha chance de se curar se continuasse ali. Ele não precisava só de remédios. Sem cuidados especiais e um lugar equilibrado, ele não teria nenhuma chance.

Ele foi colocado no banco do carro e, após a primeira curva, acomodou-se e nos mostrou que um dia já andou de carro.

Dali, seguimos direto para a Vet Master, onde ele foi internado. Seu estado clínico não era bom. Seus dentes indicavam idade avançada, estava cego de um olho e com uma severa infecção no outro. Ele enxergava muito pouco e temíamos que pudesse ser irreversível.

A cegueira talvez tenha sido a forma encontrada pela vida pra que ele não visse direito a realidade em que vivia. Esses pequeninos são inteligentes demais e sabem o que é rejeição e abandono. Não era de se admirar que suas feridas nunca se fechassem. Elas refletiam seu estado de espírito.

Ele aceitava carinho e chegava a virar o pescoço, como se indicasse o ponto em que os afagos eram mais prazerosos. Talvez indicasse apenas o lugar onde coçava mais.

Na faxina inicial, cortes de unhas, limpeza de ouvidos e algumas agulhadas para os exames. Com tudo isso, mesmo sendo seguro em posição pouco confortável, ele resmungava baixinho, mas não chegou a mostrar os dentes, talvez envergonhado do estado de sua boca.

O Cori se mostrou um cãozinho humilde, conformado e sem forças pra reagir. Ele estava derrotado, humilhado e parecia ter perdido a vontade de viver. Ficou na Vet Master por 5 dias, quando recebeu alta e a possibilidade de seguir o tratamento em casa.

Quando o tiramos da clínica, com destino ao lar temporário onde ele daria continuidade ao tratamento, pudemos, pela primeira vez, ver a cor de sua língua.

Ele tinha motivos pra sorrir: seus exames não poderiam ter sido melhores. Tudo que ele tinha era sarna, e nada mais. Até mesmo a leishmaniose foi negativa, o que nos permitiu iniciar a vacinação. O hemograma acusou ótima saúde, contra todas as expectativas.

Dez dias se passaram desde que ele deixou a clínica e este é o cachorrinho que temos o orgulho de apresentar.

Ainda falta muito. As feridas não sumiram e os sinais da dermatite ainda se fazem presentes, mas já assistimos a uma grande transformação.

A infecção no olho foi controlada e ele voltou a enxergar. Ele agora corre, brinca e pula como se fosse ainda filhote. Tem energia saltando pelas orelhas e não dispensa colo. Parece já ter tido isso um dia.

Ao contrário do que se poderia esperar, ele não tem nada de rabugento. É um cachorrinho que procura companhia das pessoas, pede colo, reivindica afagos e parece nos dizer que está pronto pra viver.

É muito sociável e parece não ter enjoado de cachorro. Aprecia companhia de outros cães.

Ele agora é Rei e está pronto pra assumir o trono. Na verdade, nem tão pronto assim.

É que o tratamento ainda leva alguns dias. Ele já iniciou a vacinação e, pra aproveitarmos o resultado negativo para a leishmaniose, a primeira vacina foi a Leishtec. As outras viriam depois.

Ele está feliz e fez do jardim seu território. Ali ele deixa sua marca, com autoridade. O cachorrinho humilhado e derrotado já não existe mais. Sua pele ainda apresenta pontos de infecção, mas nada que não suma com o tempo.

Ele ainda será castrado antes de ser entregue aos novos donos. Que fique claro que não estamos procurando ex-donos. Também não queremos pessoas interessadas em um Shih-Tzu. Ele será entregue a quem se disponha a escrever o final dessa história, que se disponha a dar a ele a vida de rei que merece, que possa dar sequência ao padrão de vacinação que iniciamos.

Ele será entregue com o calendário completo de vacinação: rábica, gripe, óctupla importada e Leishtec. Prometemos a ele que nunca mais vai comer restos de comida. Ração agora só da melhor, com direito a petiscos especiais, molho suculento, patês e outras coisinhas que ele tem experimentado e gostado.

O garoto tem estilo. Cori é um cachorrinho esperto e muito ágil. Gosta de uma varanda, de almofadas, de jardins e de ter amigos.

Esquecemos de contar. Ele está enxergando, quase normalmente.

Desde o resgate, já se foram algumas semanas. Hoje ele já está totalmente livre da dermatite. Ainda traz algumas falhas no pelo, mas eles vão crescer. Acreditamos que, daqui há duas tosas, ele voltará a ser o que deve ter sido um dia.

Ele voltou a brincar, como deve ter brincado um dia. Voltou a correr, como nos tempos de criança. Só faltava uma adoção que valesse mesmo a pena.

E ela veio. Em sua nova casa, Vitória, uma cadelinha mestiça e o Gordo, um tigre vira-lata, esperavam por ele. A recepção foi ótima e o Cori deixou claro que gostou dos novos amigos.

Colo também não vai faltar por lá. Sara, Vitória e Cori formaram um trio imbatível.