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Era uma vez uma linda princesa. Seu nome é Drica, pelo menos a partir de onde interessa.

Uma Poodle toy de menos de 5 quilos, ainda filhote, com idade aproximada de um ano. Nasceu pra crescer no colo, e talvez tenha tido colo em algum momento.

Como uma cadelinha com tão pouco tempo de vida poderia ter chegado naquele estado? Estava temporariamente cega, em razão de uma severa infecção nos dois olhos. Seu pelo, de tão sujo e embolado, já provocava dor. As almofadinhas das patinhas em carne viva, machucadas por um chão rústico, ou mesmo queimadas no asfalto quente.

O fato é que a encontramos por volta das 8 horas da noite, andando de cabeça baixa, com o focinho colado ao chão de pedra fincada. Não enxergava um palmo adiante. Chegamos a pensar que ela era cega.

Foi resgatada e acomodada naquela noite, em uma casinha especial. Ali ela sentiu cheiro de muitos outros lobinhos que também pernoitaram ali. Ganhou água e ração, que ela comeu e bebeu sem muito interesse. Estes cãezinhos são muito inteligentes e sabem quando estão sendo abandonados. A tristeza era tanta que não conseguia sequer sentir fome ou sede.

Claro que estávamos diante de mais um abandono. Mais um caso de uma Poodle adotada ou até comprada, por gente que não consegue cuidar sequer de si mesma. E, pra algumas pessoas, cão doente não serve mais. É só colocar na rua, tomar um bom banho, deitar a cabeça no travesseiro e dormir o sono dos justos.

Mas deixemos os ex-donos a cargo da vida.

No dia seguinte, seguiu bem cedo para a Veterinária Alípio de Melo, onde foi recebida pela Cláudia. Naquele colo ela se sentiu protegida. Chegou mesmo a esboçar uma lambida de agradecimento.

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Os exames não foram dos melhores e impuseram a ela um longo período de internação e tratamento. Anemia e Babésia eram o mínimo. Depois de um longo tratamento e a repetição de uma série de exames, veio o diagnóstico definitivo: Leishmaniose. Infelizmente, este resultado já era esperado, já que ela tinha vários dos sintomas clínicos.

Apesar de tudo isso, a Drica era uma cadelinha muito esperta e ativa. Não era possível pensar em eutanásia pra uma lobinha com tanta vontade de viver.

Como Leishmaniose não é sentença de morte, decidimos tratá-la. Iniciou o tratamento e, dias mais tarde, a Drica, nome que recebeu lá mesmo na Veterinária Alípio de Melo, já estava bem melhor, idolatrando sua anfitriã. Olhava para a Cláudia com devoção.

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As razões são simples. Por algum tempo, a clínica se tornou a casa dela. Ficava por ali rodeando os funcionários, enquanto assistia ao banho e tosa dos clientes que chegavam. Como a pequena Drica era muito comportada, acabou se tornando uma espécie de mascote da clínica. Achava que ali era sua casa e que os médicos e funcionários eram seus donos.

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Tinha que pensar isso mesmo. Afinal, a mocinha foi bem paparicada. Adorava os petiscos.

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E aprendeu como pedir mais com uma carinha de flagelada esfomeada que ninguém resistiria.

Mas nem tudo que é bom dura pra sempre. Afinal, depois de 40 dias internada, duas vacinas, vermífugos e uma grande quantidade de medicamentos, ela já estava melhor e pronta para uma nova etapa. Poderia, enfim, continuar o tratamento em casa. Um novo capítulo de sua história estava pra começar.

Ainda teria algumas semanas de tratamento pela frente e muitas vitaminas, mas já podia deixar a clínica.

Foi de banho tomado e laço rosa que ela deixou a clínica. Apesar da saudade que sentiria, a Drica estava feliz. Demonstrava confiar cegamente em qualquer um que lhe colocasse no colo.

Percebemos na menina alguns comportamentos que indicavam a triste vida que ela teve. Ela fazia suas necessidades em qualquer lugar, mesmo ao lado de sua cama. Lobos não fazem isso. Não é um comportamento natural.

É certo que durante toda a vida, ela viveu confinada em um espaço pequeno, onde era obrigada a comer, dormir e fazer suas necessidades, tudo ali pertinho. Talvez até em razão da falta de higiene, tenha adoecido tão rapidamente.

Percebemos também que degraus com 30 centímetros de altura são intransponíveis pra ela. Poodles são exímios saltadores. Isso indicava também muita fraqueza, que tanto poderia ser em razão da severa anemia, quanto um problema muito comum em animais que vivem cofinados: atrofia muscular.

Sem exercícios, qualquer animal acaba atrofiando os músculos e ficando fraco a ponto de perder até mesmo habilidades naturais. Achávamos que o tempo resolveria isso mas, ao contrário, descobrimos algo pior. O tempo passou, a Drica se fortaleceu, ganhou peso e nada de grandes feitos. Percebemos que ela corre e sobe escadas pulando com as patinhas traseiras juntas, como um coelhinho.

Não sabemos o que é. Talvez algum acidente enquanto ainda era filhote. Mas isso não imposta, já que ela corre e brinca normalmente. Só não tem a habilidade dos Poodles, mas tem vida normal, sem nenhuma restrição.

Em nosso território, ela foi muito bem recebida por uma matilha pra lá de equilibrada. Por aqui ela descobriu que ter amigos fiéis é bom, mas ter muitos amigos é melhor ainda.

Descobriu que latir é legal, mas que tem cachorro que é “sem noção”. Ela até que arrisca umas latidinhas, mas é certo que nunca vai superar a Estopa, nossa lobinha rouca.

E ela não podia nem pensar em imitar a nova amiga. Afinal, a Drica precisava engordar e a Estopa não engorda de latir.

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No primeiro dia ela já queria ficar na porta da rua, como se quisesse mostrar para o mundo que tinha uma casa, que tinha amigos e donos que a estimavam.

Talvez estivesse querendo sair e voltar para a clínica. Afinal, ali foi sua primeira casa de verdade, por 40 dias. Ali ela fez amigos e certamente sentia falta de cada um deles.

Descobriu que o cheiro da grama é bom, que pisar nela é muito legal, mas fazer xixi na terra é sensacional.

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Ela descobriu muitas coisas boas. Aprendeu que vida de cachorro pode ser (deveria ser) muito boa. Mas de todas as coisas novas que ela descobriu, uma supera todas as outras.

A Drica é capaz de trocar tudo, mas tudo mesmo, por alguns poucos minutos de colo.

Ela ainda não estava pronta para adoção. Já tinha se fortalecido e até ganhou peso. No início, não era nem sombra do que deveria ser uma Poodle Toy de um ano de vida. Se naquela ocasião, faltava-lhe energia e vitalidade, depois de um tempo em nosso território, essas coisas escorriam pelas orelhas. Alegria também já não lhe faltava mais.

Ela fez todo o tratamento e hoje está livre da doença. Dependerá do uso de um medicamento leishmaniostático, que a manterá inume à doença, sem risco de desenvolver os sintomas ou de transmitir a doença.

Foi castrada, último procedimento que faltava pra ela estar pronta pra começar vida nova.

Tudo era enfim uma questão de tempo. Mas não havia mais pressa. Afinal, ela estava feliz. Teve tudo o que precisou pra voltar a ser o que não deveria ter deixado de ser.

Por falar em evolução, uma das primeiras providências foi ensinar a garota a usar o jornal. Abaixo, o resultado depois de mais de 30 dias de treinamento. Demorou um pouco, mas conseguimos. Ela já aprendeu. Mas precisamos oferecer a ela sempre duas folhas de jornal, uma para servir de banheirinho e outra para brincar.

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E, como qualquer outro lobinho que passa tempo demais por aqui, ela acabou se enturmando e sendo escalada para uma de nossas expedições. Essas aventuras são sempre produtivas, já que conseguimos observar a criança em ambiente natural. Eles sempre se revelam em situações assim, nos dando condições de identificar com precisão suas habilidades.

Enfim, o tão esperado dia de lobo. Pelo menos uma vez por mês, proporcionamos momentos de total liberdade à nossa matilha. E dessa vez, a Drica era nossa convidada de honra.

Como de costume, preparo o carro e coloco uma coleira em cada cachorro. Depois, abro a porta e pergunto: __ E aí, quem vai passear?

Nesse momento, elas só faltam passar uma por cima da outra pra entrar primeiro no carro. A Drica, no entanto, ficou assustada, sem entender o que estava acontecendo. Além do mais, ela tem dificuldade de saltar e, mesmo que quisesse, não conseguiria subir sozinha.

Quando a peguei e a acomodei junto com a turma, ela se mostrou tensa. Afinal, tudo aquilo era novidade pra ela.

A viagem é longa, mas nada cansativa. Como sempre, elas relaxam e dormem durante toda a viagem e só se agitam quando o carro entra na estrada de terra.

Assim que chegamos, retirei as coleiras de todas elas, inclusive da Drica, e as soltei.

Normalmente, elas descem do carro correndo e fazendo festa. Sempre que tem um convidado conosco, ele acaba entrando na onda quase instantaneamente.

Mas com a Drica aconteceu diferente. Eu esperava que ela corresse na frente com a turma e me deixasse pra trás. Mas não foi assim.

Ela estava feliz, mas visivelmente agitada e nervosa. Acompanhava os outros cães, mas sempre parando e olhando pra trás, pra ver se eu estava por perto. Não queria me perder de vista.

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Aquilo me doeu. Sei que a Drica cresceu confinada, sendo obrigada a comer, dormir e fazer suas necessidades no mesmo lugar. Sei também que a primeira experiência dela com grandes espaços foi exatamente no dia em que foi jogada na rua, ainda cega pela grave infecção nos olhos.

Fiquei imaginando se toda aquela insegurança não seria medo de ser novamente abandonada. Segurei-a no colo e caminhei com ela algum tempo, tentando me manter perto da matilha. Depois de alguns minutos, senti que ela queria descer e participar da algazarra.

Nada pode ser melhor para um cãozinho abandonado que ser integrado a uma matilha equilibrada. O poder da matilha opera milagres, cura o corpo e a alma. E a vida já me deu o presente de assistir grandes transformações.

Lembrei-me de alguns dos nossos resgatados que estiveram no santuário. Lembrei-me do Pingo, um Poodle pequenino como a Drica. Com apenas 3 pernas, ele corria, latia e demarcava o território como qualquer lobo inteiro.

Sempre temos um convidado em nossas expedições. A Drica precisava disso. Ela precisava entender que abandono é uma palavra que não faz mais parte de sua vida. Espaço agora significa passeio e diversão.

E, como esperávamos, alguns minutos depois, ela já estava no meio da bagunça, correndo o risco de ser atropelada pela Pintada.

Das correrias ela participava normalmente. Mas na hora de nadar e se sujar, ela se mostrou mais reservada.

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Acompanhava a Hanna bem de perto, como se quisesse ver como é. Mas não teve coragem sequer de molhar as patinhas.

Talvez pressentisse que aquela confusão teria um preço alto a ser pago: um banho bem mais demorado.

Não precisou de muito tempo e a Drica já estava correndo livre, sem nem mesmo olhar pra trás.

Descobrimos também que ela é ótima rastreadora. Não sabemos o que foi que ela encontrou de tão interessante, a ponto de ficar se esfregando no chão, mas este é um comportamento dos lobos, quando encontram o rastro de uma de suas presas.

Seja lá o que for que ela encontrou, é certo que era mesmo algo bem interessante. Afinal, o resto da matilha endossou sua descoberta.

No enfrentamento das grandes presas ela também se mostrou corajosa.

Menos né Drica? Na verdade, uma fungada do Casco foi suficiente pra ela descer o barranco em disparada, mas isso a câmera não conseguiu flagrar.

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Cavar buraco pra procurar sei lá o que também é especialidade dela.

No final do dia, já nem lembrava mais que eu existia. Ou melhor…

_Ei! Me sobe aqui? Eu também quero ir lá.

__ Expedição cansa viu? Não sei como elas ainda aguentam. Pra mim já deu.

“Fim da tarde, a terra cora e a gente chora porque finda a tarde.”

É em ocasiões assim que aproveitamos pra testar todas as habilidades de um cão resgatado. Afinal, precisamos conhecê-lo bem pra poder direcioná-lo ao melhor adotante. Precisamos saber de suas virtudes e defeitos.

E a conclusão que chegamos a respeito da Drica é de que ela não serve pra muita coisa não. É só pra ficar no colo mesmo.

Assim que foi anunciada para adoção, alguns pretendentes se manifestaram. Mas sempre nos comove quando duas ou mais histórias de nossos resgatados se encontram.

Então, a preferência pela adoção era da Rejane, que havia adotado conosco o Max, um Poodle toy muito parecido com a Drica, resgatado em uma situação tão triste quanto.

O dia marcado foi uma tarde de sábado. Tão bom quanto entregar a Drica a pessoas tão especiais, foi rever o Max, que nem parecia ser o mesmo cãozinho. Tão mimado e bem tratado quanto merecia.

Assim que chegamos com a Drica, ela foi logo pro colo, sob o olhar desconfiado e enciumado dos Lobinhos.

__ Ei! Alguém avisa pra ela que essa mãe é minha?

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__ Agora tá bom. Esse colo é meu viu?

Lilica também apareceu e decidiu reivindicar atenção.

Depois foi hora da Drica conhecer um pouco do território. Pra começar, um xixizinho básico. Foi acompanhada de perto pelo dois miudos e pela Lilica. Eles estavam apenas curiosos. A recepção, apesar do ciúme inicial, foi das melhores.

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Depois do primeiro passeio pelo território, D. Dalva resolveu reivindicar o direito de tê-la no colo. Afinal, é ela quem fica com a matilha durante o dia. É no colo dela que eles dormem o soninho da tarde.

E aí…

__Ei! Alguém pode avisar pra ela que essa vó é nossa?

__Agora tá bom.

Calma meninos. Ela não vai tomar o colo de vocês. Tem pra todo mundo. O Eduardo e a Renata não estavam em casa.

E assim terminamos de contar o final feliz da Drica. Obrigado Rejane, Eduardo e D. Dalva. Foi doído nos despedir da Drica, mas foi mais um resgate de sucesso. Outros virão ocupar o lugar dela em nossas vidas.

E quem quiser conhecer a história do Max, segue o link: http://oloboalfa.com.br/max/

Vale a pena conhecer. Um “antes e depois” inesquecível.

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E que fique aqui registrado nosso muito obrigado à Dra. Cíntia e sua equipe, pelos cuidados que dispensaram à Drica.