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Sou o Fred, ou melhor, passei a ser de uns tempos pra cá. Fui atropelado e deixado em um abrigo de animais, pra morrer. Nessa época, eu era só um filhote e não devia ter mais que 4 meses.

Minha perna não tinha um só osso inteiro e toda a carne já havia apodrecido. Nem me lembro quanto tempo fiquei sem socorro. Eu fui deixado em uma jaulinha, esperando por uma amputação marcada para daí uns 4 dias.

Eu não teria esse tempo. Eu urrava pedindo que me arrancassem a perna. Eu não suportava mais a dor. Eu tinha febre e as bactérias já se espalhavam pelo meu corpo.

Alguém me viu e fui resgatado. Naquele dia, ganhei três madrinhas muito especiais, Christina e Cleusa, da UFMG, e a Giovana, que me deu uma família, ainda que provisória. E é a elas que quero me dirigir agora.

Eu fiz amigos. Muita gente se importou comigo, me visitavam no hospital, me davam petiscos, me levavam pra cá e pra lá. No hospital, que passou a ser minha segunda casa, às vezes até a primeira, recebi cuidados e muita atenção. Todos queriam me conhecer.

Por isso, queria que cada médico que me atendeu, cada estagiário que acompanhou o meu caso, cada enfermeira e cada faxineira que cruzou comigo pelos corredores, sintam-se também homenageados com a minha história.

Não preciso descrever os detalhes do que foi a minha recuperação. Vocês sabem melhor do que eu o que fizeram por mim. Quero apenas que recebam essa matéria como uma mensagem de agradecimento, a qual espero que chegue a cada um que me conheceu enquanto eu lutava pra viver.

Desde o atropelamento, já se passaram mais de 5 meses. Eu continuo sendo filhote e mais da metade da minha vida eu passei em tratamento. Nesse tempo, aprendi muitas coisas, algumas felizes, outras muito tristes.

Aprendi que humanos são capazes de tudo, tudo mesmo, de bom e de ruim. Descobri que a vida é feita de extremos. Que pessoas são capazes de se unir e se desdobrar pra salvar vidas, mas também são capazes de banalizar a morte e o sofrimento de um animal.

Aprendi a conhecer os sentimentos humanos, que são também contraditórios. Enquanto alguns sentem compaixão, amor e afeto, que são capazes de sacrifícios pessoais para salvar a vida de um cachorro que acabaram de conhecer, outros colocam o orgulho e o egoísmo acima de tudo.

Aprendi que a vida nem sempre é justa, que as pessoas nem sempre estão onde deveriam estar.

Aprendi que cães também têm anjos da guarda, e que eles têm forma humana. Eu os vi pela primeira vez no dia em que fui colocado naquela enfermaria escura, e os reconheci depois em várias outras ocasiões. Estavam sempre comigo, ao meu lado, nas várias cirurgias e até nas trocas de curativos. Esses anjos conversavam comigo e me acalmavam. Eu me sentia amparado e protegido, apesar da dor.

Houve um tempo em que eu fui apenas mais um, e teria sido menos um se não tivesse sido resgatado. Só pra não esquecer, assim como eu, muitos outros continuam sendo números, esperando a morte esquecidos nos abrigos.

Hoje eu me chamo Fred. Tenho nome, tenho identidade, sou único e insubstituível. Queria a mesma sorte pra cada cachorro.

Os meus anjos da guarda me contaram que isso ainda vai acontecer, que os humanos estão evoluindo.

A vida seguiu seu curso. Quando minha carne começou a se regenerar e cobrir meus ossos já reconstituídos, a dor começou a passar. E aí, comecei a aprender a brincar. Nos últimos tempos, até ao hospital eu chego com festa. É que os procedimentos já não doem mais e eu recebo tanto carinho que, pra mim, Hospital Veterinário da UFMG é igual parque.

A vocês, minhas madrinhas, quero agradecer. Queria poder retribuir, mas sei que, pra pessoas como vocês, não há melhor retribuição do que saber que eu sou um cachorro feliz. Peço-lhes que estendam esse agradecimento a toda a equipe do hospital. Por favor, não esqueçam de ninguém, pois sei que eles são como vocês.

Agora eu estou bem. Na casa da Giovana, tem uma turma bem grande, mas eu sou o mais festeiro. Aqui, todos nós esperamos por adoção, mas somos felizes e a espera não dói.

Mais de 5 meses se passaram desde o meu resgate e eu ainda tenho curativos, mas minha ferida está quase se fechando. O curativo é apenas pra que eu não interfira e não atrase a cicatrização.

Já não sinto mais dores e gosto de correr pelo jardim, sentindo o vento nas orelhas.

Mas também sei fazer cara de coitadinhio, quando não ganho a atenção que mereço. A Giovanna chama isso de “chantagem”. O nome não importa, mas funciona que é uma beleza.

Esqueci de contar sobre a Pitucha e a Pretinha. São filhotes como eu e também mestiças de Poodle. Elas têm alegrado os meus dias.

Queria também contar um secredo. Eu sou um cachorro muito inteligente, daquele tipo que “só falta falar”.

Existe um lugar onde os cães aprendem a fala: o verdadeiro elo perdido. E é pra lá que eu vou em breve. Mas antes, eu preciso de mais um tempo aqui pra evoluir como cachorro humanizado. Preciso de contato estreito com humanos, de uma família que interaja comigo, que retribua afeto, preciso de convívio dentro de casa, de dividir a cama e o travesseiro, ou o sofá, que seja.

E se eu vou ter isso um dia, foi porque alguém percebeu que eu não era só mais um.

Muitos humanos não sabem que são responsáveis por nossa evolução e crescimento, que o vínculo afetivo que criamos com nossos donos faz toda a diferença em nossa caminhada. E, graças a vocês, ao final desse ciclo, eu vou estar “quase lá”.

Mas, neste momento, quero apenas agradecer e mostrar que estou bem, que sou feliz, que vocês me salvaram e que eu sei de tudo isso. Meus anjos da guarda têm me contado muitas coisas que vocês ainda não sabem, mas já fazem parte delas.

Obrigado, Madrinhas. Queria dizer mais, mas não sei nem o que desejar pra vocês…

Já sei. Acabaram de soprar no meu ouvido: Feliz Natal!

Fred 15

 

Fred sempre foi um cãozinho dócil e sociável, e precisaria da companhia de pessoas e outros cães. A adoção aconteceu.

Fred adotado

 

E pra quem não está reconhecendo, a garota que aparece junto com ele é a Terra, uma moça especial que um dia foi resgatada e teve seus filhotes lá na Cão Viver. http://oloboalfa.com.br/terra-nao-por-acaso/

Marília e Estevão se candidataram à adoção do Fred, para ser o companheiro da Terra. Nem podemos falar em adaptação, porque eles pareciam já se conhecer. De outras vidas, talvez.

Felicidades amiguinho. Nunca vou esquecer o dia que te vi naquela enfermaria, com um curativo na perna. Ninguém podia imaginar o que você escondia.