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Meu nome é Giane, mas podem me chamar de Gianecchini. Qualquer semelhança será mera coincidência. Dizem que já tive um dono, mas, na verdade, acho que apenas conheci alguns humanos que toleravam a minha presença em seu território.

Não me lembro de ter tomado banho, vacinas, nem de ter comido petiscos para cães. Acho que cresci sem saber o que é ser um animal de estimação, embora eu tenha nascido pra isso.

Talvez o sofrimento dos últimos tempos tenha feito eu me esquecer de um passado não tão triste. Mesmo porque, se não tivesse sido, em algum momento, bem cuidado, não teria chegado tão longe.

É isso mesmo. Eu não sou um cão jovem. Acho que já vivi algumas primaveras, talvez umas sete ou oito.

O fato é que eu me feri, e esta ferida infeccionou e atraiu alguns insetos. A evolução deste quadro já é conhecida das pessoas que costumam recolher animais. Para alguns humanos, é mais fácil jogar um cão nas ruas que tratar suas feridas.

Eu me vi nas ruas, sem nenhuma experiência com a vida livre, sem saber onde procurar comida, e com uma ferida enorme, repleta de larvas, que me devoravam por dentro.

Na verdade, nem sentia fome, sede ou frio. A dor era tão intensa que não dava pra pensar em supérfluos.

Essa ferida tinha um cheiro de carne estragada que podia ser sentido de longe. As pessoas se afastavam. Evitavam ficar perto ou, às vezes, me enxotavam, mesmo que eu não estivesse fazendo nada.

Minhas chances eram poucas. Estava mesmo condenado a terminar minha história da pior maneira possível, apodrecendo vivo. E eu não era o único. Tantos de minha espécie terminam assim.

Que sina era essa ? Não sei porque nossos antepassados se aproximaram dos humanos. Antes tivessem continuado a vida livre. Talvez eu não estivesse assim, dependente de humanos, sem encontrar ninguém que me amparasse.  

A tristeza me consumia, tanto quanto as larvas. Eu era o retrato da depressão.

Já não tinha mais esperanças, quando alguém chegou perto de mim e me laçou com um cinto de couro. Pensei que fosse o fim da linha.

Fui levado a uma clínica veterinária, coisa que ainda não conhecia. Lá, tomei banho, muitas vacinas e iniciei um tratamento para curar minhas feridas.

Fiquei internado por uma semana, vivendo dentro de uma grade que mal me permitia espreguiçar. Não quero ser mal agradecido e reclamar da hospitalidade, mas foi difícil suportar aquilo.

Claro que, àquela altura eu já sabia que estava amparado. Aquelas pessoas estavam fazendo o melhor por mim. Minhas feridas já não mais doíam e estavam melhorando rapidamente.

No dia que recebi alta médica, estava um pouco nervoso, mas, quando percebi que iria embora, me animei.

     

Meu cheiro não era o mesmo. Acho que agora começo a fazer jus ao nome que me deram.

Da clínica, fui levado a um abrigo, ou melhor, a um hotel para cães. Ali, eu passei a me relacionar mais intensamente, tanto com pessoas quanto com crianças e outros cães. Continuei tomando remédios e fazendo curativos, mas minhas feridas não mais doíam.

O mais importante, experimentei uma coisa que não conhecia, mas que era a melhor coisa do mundo: carinho e afeto. Comecei a entender porque meus antepassados se aproximaram dos humanos.

Depois desta estadia, cheguei a ser adotado por uma família, mas depois de algum tempo, fui novamente doado, desta vez em definitivo. Fui morar em um Haras, no interior, tendo companhia humana, de outros animais e muito, mas muito espaço.

Finalmente, um final feliz definitivo para a minha história.

 

Após o resgate, o Gianecchini ficou internado por 10 dias, em tratamento intensivo, aos cuidados da Dra. Lourdes, recebendo a atenção e o carinho de todos os funcionários.

Após a alta médica, teve como lar temporário a casa da Giovanna. Aquele hotelzinho na verdade é um Spa pra cachorro. Mais que hospedá-lo, a Giovanna deu a ele a alegria de um lar, enquanto se recuperava dos ferimentos e aguardava pela adoção.

Agradecemos à Dra Lourdes e sua equipe, e também a Giovanna e sua família. O Gianecchini teve o melhor.

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