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Não sei se esta história se enquadra melhor em “Finais Felizes” ou em “Recado aos ex-donos”. Isso porque, apesar do sucesso absoluto deste resgate, não podemos dizer que o Guga é feliz. Ele parece já ter se conformado que felicidade não é pra todos. E não é mesmo. Pra ele, nunca foi.

Guga 2

Quando recebi a tarefa de fazer um trabalho de divulgação para dar melhores chances aos animais que estavam na SMPA, fui orientado a não deixar um único canil sem ser visitado. Os casos mais tristes poderiam estar escondidos em qualquer um deles. E não bastava buscar os mais bonitinhos, os mais sociáveis, os que nos recebem com festa e abanos de rabo.

Nossos objetivos, desde que o Projeto foi idealizado, sempre foram de ajudar a sensibilizar as pessoas e esvaziar todos os abrigos, abolir o abandono e a crueldade contra animais. Em um mundo de regeneração, não se pode aceitar o sofrimento como algo natural. Estamos todos aqui, homens e animais, pra sermos felizes.

Quando o fotografei pela primeira vez, ele não tinha nome. Na verdade, sequer sabia se era macho ou fêmea. Tratava-se de mais um cãozinho bravo, que mordia a qualquer um ousasse tocá-lo. Passava os dias e as noites deitado em uma caixa plástica, nos fundos de um dos canis dos fundos. Não sabíamos sua idade, de seu estado de saúde, de sua verdadeira índole.

Nunca foi sequer visto por um visitante. Ainda que fosse, não chamaria atenção, não despertaria interesse, talvez nem sequer despertasse compaixão.

Guga 3

Ele foi fotografado pela primeira vez no mutirão de vacinação, em 16 de fevereiro de 2013. Dias depois do mutirão de vacinação, a SMPA recebeu a visita do grupo SOS Bichos, para um novo mutirão, desta vez para tosa dos Poodles que estavam mais embolados.

Enquanto as meninas tosavam, os funcionários da SMPA ficaram encarregados de ir pegando nos canis os mais embolados. E a cada hora, um novo cão era trazido, mas nenhum deles era o cãozinho da foto principal da matéria anterior.

Perguntaram por ele, mas ninguém sabia dar informações. Afinal, sem um nome, como identificar? O fato é que o mutirão de tosa chegou ao fim, sem que aquele cãozinho fosse descoberto. Foi dado como morto. Afinal, animais morrem mesmo.

Na verdade, ele continuava lá, no mesmo lugar, sem se mover. Continuava deitado, esquecido, escondido, deitado em uma caixa, nos fundos de um dos canis do fundo.

Algumas semanas mais tarde, o grupo SOS Bichos decidiu buscar mais dois cãezinhos, daqueles que haviam sido tosados. A mim foi oferecido o privilégio de encontrá-los e ajudar a identificá-los.

Estive na SMPA com o propósito de percorrer os canis e encontrar o tal cãozinho desaparecido. Se ele ainda estivesse vivo, teria que ser localizado.

E lá estava ele, deitado em outra caixa. Continuava escondido, esquecido, nos fundos de outro canil dos fundos. Enfim, seu dia havia chegado. Daquele dia em diante, ele estaria sob os cuidados do grupo SOS Bichos.

Ele foi pego pelos funcionários e colocado em uma caixa de transporte. Dali, seguiria para a Clínica Veterinária de Urgência, do Dr. Marcelo Lobão. Naquela ocasião, descobrimos que ele era um macho, com aproximadamente 10 anos de idade, e que estava na SMPA há pelo menos 7 anos.

Guga 4

Além da idade avançada, descobrimos também que ele tinha apenas 2 dentes na boca. É certo que passava fome. Se não morreu, foi porque engolia grãos inteiros de ração. Ninguém sabia que ele não tinha dentes.

Não esboçou qualquer reação com o transporte. Estando há tanto tempo na SMPA, é certo que já passou por algumas tosas. Parecia conhecer e se conformar com a rotina de ser pego, transportado, tosado e devolvido ao abrigo.

Assim que foi recebido pelas meninas do SOSBichos, ganhou um nome e passou a ser chamado de Guga.

Mas, dessa vez, foi diferente. Ele não voltaria mais para o abrigo. Ele recebeu um tratamento vip e, em poucos dias, nem parecia mais o mesmo cãozinho. Mesmo assim, ele precisaria de alguém especial, que se dispusesse a ajudá-lo. E claro que ele encontrou. Thaís é o nome do anjo que lhe foi enviado.

Ele já está na casa nova e já começa a se adaptar, mesmo que lentamente. Ele ainda não abana o rabinho, não faz festa como os outros, não demonstra alegria. Continua triste. Ele não teve vida e não conhece outra realidade que não seja sofrimento e dor.

Acreditamos que isso vai mudar. Ele está em ótimas mãos. Na foto abaixo, o novo Guga. Depois, o depoimento enviado pela Thaís, contando como tem sido a adaptação do menino.

Resta-nos agradecê-la por tão especial acolhida. Ficaremos na torcida e na espera de novas notícias e fotos, que nos contem que ele está feliz.

Apenas pra não perder a oportunidade, que esta matéria nos ajude a angariar mais alguns adotantes, para outras criaturas tão especiais quanto o Guga, que continuam lá, esquecidos, escondidos, deitados em caixas plásticas nos fundos dos canis. Esses anjos continuam chegando aos abrigos, porque continuam sendo abandonados.

http://oloboalfa.com.br/smpa/

http://oloboalfa.com.br/smpa-parte-ii-vacinacao/

http://oloboalfa.com.br/smpa-parte-iv-feira-permanente/

Depoimento da Thaís, sobre os primeiros dias do Guga.

Parece Belinha, mas é o Guga, meu mais novo amigo de vida. Ao contrário da Belinha que teve (e tem) uma vida cheia de carinhos e mimos, da vida dele pouco se sabe. Guga viveu por anos (não se sabe quantos) na Sociedade Mineira de Proteção aos Animais – SMPA instituição hoje investigada pelo Ministério Público por maus tratos, um lugar em que alguns cachorros e gatos já praticavam canibalismo. Guga teve que sobreviver e sobreviveu!

Guga tem medo do mundo, 4 semanas se completaram desde que ele chegou aqui e talvez ele nunca perca esse medo, talvez ele nunca pare de tremer, talvez seu rabinho nunca pare de ficar insistentemente pra baixo, talvez ele nunca perca esse olhar triste e talvez ele nunca confie em mim totalmente. Se me importo? Não.

Belinha foi minha companheira no pior momento da minha vida, a adolescência, e aquela relação de dependência foi um ótimo escape, eu era tudo pra ela e ela tudo pra mim. Anos depois não tenho mais essa necessidade, Guga mostrou que a Thaís cresceu.

Muitos se incomodariam com seu rabinho que não balança, com a falta de lambidas, das festas, dos pedidos de carinho, mas eu não. Outros te rejeitariam pela sua idade avançada, catarata, falta de dentes e outras imperfeições, mas eu não. A adoção de um cachorro era um sonho de infância, sonho realizado! Aquela frase clichê de que os cachorros é que nos adotam não serve pra nós, EU te adotei, EU te escolhi, e por telefone quando havia sido me dado 3 opções, acho que nem mesmo a Helena achou que fosse você o meu escolhido e a alegria dela foi contagiante.

Guga não me deve nada por ter sido adotado e ser tirado daquele inferno. Fui eu que me comprometi a cuidar dele, por amor, e ver seu progresso diário tem sido mais do que suficiente. E Guga tem melhorado a olhos vistos. As feridas estão quase todas cicatrizadas, seu pelo cresce numa velocidade impressionante, está gordinho e sua disposição é outra, é cada vez mais comum umas corridinhas pela casa, semana que vem ele repetirá o hemograma, mas o resultado eu já sei sua anemia e todos aqueles números horrorosos que, segundo sua veterinária, o teriam feito sangrar sem parar se tivesse qualquer ferimento, não estarão mais lá.

Não acredito em coincidências e não foi por acaso que, exatos 10 anos depois, surge um novo poodle com a mesma idade da Belinha na minha vida.

Seja muito bem-vindo.

E muito obrigada Helena, pela dedicação e amor, seu empenho tirará os 200 cachorros que permanecem na SMPA.

E obrigada SOS Bichos por seu trabalho incrível.