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    Meu querido Myke, quando você chegou em casa eu ainda estava fora do país. A minha casa ainda estava em construção, e a minha mãe precisou de você para expulsar os bandidos que promoviam vandalismo na construção, e com muita competência você resolveu este problema. Você não tinha raça definida, mas era grande e forte, temperamento forte e dominador e apesar da idade, tinha jeito de moleque.

    Dois anos depois de sua chegada, eu retornei do Japão, você estava com sete anos aproximadamente, era terrivelmente bravo com estranhos e estava claro que eu era um estranho para você, precisei de uns dois meses e um fato inusitado para ganhar a sua confiança, mas enfim consegui.

    Porém o seu temperamento forte aos pouco foi se conflitando com as minhas tentativas de autoridade no lar.   O tempo foi passando e o clima ia ficando cada vez mais ruim entre nós, até que um dia eu resolvi pôr você para fora de casa. Foi aí que começou o nosso verdadeiro drama e a pior parte ficou para você.  Eu forcei você a ir até a cidade e lá eu te abandonei. No dia seguinte já arrependido, eu saí a sua procura mas não te achei, e nos dias subseqüentes, perguntava a todos sobre o meu cachorrinho preto, mas ninguém sabia de nada, e eu estava ficando desesperado…

    Passaram-se oito meses… estava com saudades e com muito remorso, afinal você estava cheio de razão quando questionava a minha autoridade, porque você era de fato o verdadeiro dono do lugar que guardou e que defendeu com bravura quando nem imaginava que eu existia, até que um dia eu apareci e quis despojá-lo de tudo que representava a sua vida. Oito meses… e eu, ao volante do meu carro, em todo cachorro preto, eu via você, até que um dia você apareceu andando lentamente pela calçada num sentido contrário ao meu, eu fiquei pasmo e meu coração parecia que ia explodir de emoção, manobrei o carro como um louco e subi rua acima para te alcançar, te chamei pelo seu nome… e você atendeu, pareceu-me que você sentiu um alivio misturado com alegria e quando você emitiu um grunhido eu percebi que estava chorando. Você não podia saltitar porque suas condições físicas não lhe permitiam mais, então eu percebi o quanto você estava doente. Você não era um vira-lata, portanto não sabia pedir comida nas ruas, e a bicheira te devorando e comprometendo a sua integridade física… meu Myke, você estava morrendo, enquanto seus olhos me pediam carinho. Desesperado eu fiz tudo para te salvar mesmo sabendo que seria inútil, cheguei a parar o trânsito sem me importar com os olhares ou opiniões públicas, e estas mesmas pessoas que passavam pela rua, ao verem o meu sofrimento, o meu desespero… me ajudaram e conseguimos levar você a uma clinica veterinária. A Dra. te examinou e só havia uma saída para você… A eutanásia.

    Deitado sobre a mesa da veterinária você me olhava com ternura, e eu te fiz o último carinho, você se aconchegou em meus braços e eu senti no seu gesto… o perdão., Mas eu Myke, jamais me perdoarei, e viverei o resto da minha vida homenageando você, falando de você, pensando em você…

    Myke, você foi grande… bem maior do que eu.

    Descanse em paz…

    Akiya.

Fonte:  SITE CANIL HIKARU TSUKI