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Júlia foi encontrada caminhando em uma avenida movimentada, próximo do cruzamento entre Av. Pedro II e Anel Rodoviário.

Andava vagarosamente, quase se arrastando. A aproximação foi cuidadosa, por medo que ela corresse para a avenida.

Assim que me abaixei rente à calçada e chamei por ela, ela veio no mesmo passo em minha direção e aceitou os primeiros afagos.

Julia 1

Naquele momento já foi possível notar que tratava-se de uma senhorinha que passou pela vida sem ter o básico. Estava cansada e faminta.

Apesar do pelo muito embolado e dos sinais de feridas na pele, era possível notar um tumor pendente de suas tetas, do tamanho de uma bola de sinuca.

Julia 2

Ainda assim, permitiu o resgate sem nenhuma reação. Na clínica, se mostrou a mais humilde cadelinha do mundo. Aceitou o manejo sem reclamar.

Olhos infeccionados, otite em grau muito avançado, que a fazia manter a cabeça pendente, tamanha a dor que sentia.

Carrapatos caíam de seu corpo, porque não tinham mais onde segurar. Havia ainda falhas nos dentes, alguns já muito estragados e necessitando de remoção.

Julia 3

Naquele mesmo dia, durante o atendimento, ela ganhou um nome. Julinha já era velhinha. Não sabíamos ainda a cor dela, mas acreditamos que talvez fosse branca. Tinha o pelo frisado, o que nos levava a suspeitar de que ela fosse uma Bichon, talvez misturada.

Julia 4

A primeira providência era um banho e tosa, até mesmo para que pudesse ser melhor examinada.

E a remoção do pelo mostrou o que preferíamos não ver. Muitas feridas e, a essa altura, torcíamos para que fossem provocadas pelos carrapatos.

Julia 5

Não teria chegado àquele estado vivendo nas ruas. Ela nasceu para dividir o ninho com os donos, mas tudo indica que não teve sequer cuidados.

Era mais um caso de “abandono por detrás dos muros”. Foi abandonada há muito tempo, esquecida nos fundos de um quintal.

E, ao perceberem, os donos, que ela estava morrendo, decidiram soltá-la para que morresse bem longe de seus olhos.

Infelizmente, histórias assim são mais comuns do que as pessoas imaginam. Acontecem todos os dias.

Julia 6

Depois do banho e da tosa, e de um badulaque brilhoso na testa, foi possível completar os exames. O hemograma não poderia ter sido pior. A anemia avançada, associada aos carrapatos, levantava a suspeita de algo mais grave, e que os exames mais aprofundados confirmaram.

Babésia era o nome da doença que a consumia. Também conhecida como tristeza canina, leva o animal à morte, tomado pela depressão profunda.

Julia 7

Abortamos o exame de leishmaniose, que nada adiantaria ser feito naquele momento. A cirurgia para a remoção dos tumores, embora urgente, também precisou esperar.

A anemia tornava excessivo o risco dela não voltar da anestesia, mesmo que fosse a inalatória.

A primeira providência seria iniciar o tratamento da babésia e repetir os exames de sangue. Só depois da anemia vencida ela poderia se submeter a qualquer procedimento cirúrgico.

Julia 8

E teve início então uma longa espera. Foi acomodada em um corredor, onde iniciou o tratamento para a otite, e também os antibióticos para a Babésia.

Não foi uma espera fácil, e nem prazerosa pra ela, mas a Julinha já começava a demonstrar uma mudança no humor. Estava melhor e mais alegrinha.

Julia 9

Divulgamos a história dela e pedidos às pessoas que a visitassem na clínica. Ela precisaria de visitas, de afagos, de petiscos e de qualquer coisa que desse a ela a certeza de que algo havia mudado e que ela teria motivos pra viver.

Julia 10

Os passeios pelo jardim da clínica não eram constantes, mas ela demonstrava gostar bastante.

Os ossinhos ainda estavam aparentes e os sinais da desnutrição ainda se faziam notar.

Julia 11

A tristeza, sintoma do mal que a atingia, estava estampada em seus olhos, e também em sua postura submissa. Ela tinha medo, muito medo.

Além de negligenciada e abandonada, tudo indica que ela experimentava, com alguma frequência, o peso das mãos humanas.

Julia 12

Os afagos dos visitantes eram recebidos com gosto e com desconfiança. Ela parecia não conhecer carinho, ou não os recebia havia muitos anos.

Julia 13

Chegava a olhar com admiração e gratidão para quem lhe afagava o pelo, como se não acreditasse que ainda merecia da vida alguma coisa de bom.

_Claro que você merece, Julinha. Não sabemos o que te ensinaram, mas você vai aprender coisas novas, e precisa se esforçar para esquecer o passado.

Julia 14

O tratamento ainda iria longe, mas esperávamos que ela encontrasse novos donos dispostos a recebe-la mesmo durante o tratamento, para que ela ganhasse uma família e tivesse mais motivos pra ficar por aqui mais algum tempo. O tratamento do corpo já tinha sido iniciado, mas precisávamos iniciar o tratamento da alma.

O tempo que lhe resta não será longo e precisamos dele, pra apagar o passado, e pra ensinar a ela coisas importantes e que ela precisa aprender antes de partir.

Em uma de nossas visitas, levamos a Hanna. Assim que você tiver alta, Júlia, se sua família ainda não tiver chegado, nós lhe emprestaremos a nossa, e Hanna será uma de suas irmãzinhas.

Julia 15

O tratamento seguiu. Ela ficou na clínica por 40 dias, recebendo vitaminas, suplementos, muitos medicamentos e banhos.

Julia 16

A cada visita, prometíamos a ela um mundo diferente. Não sabíamos todos os segredos que ela trazia, principalmente porque não tínhamos ainda feito todos os exames.

Algumas feridinhas insistiam em continuar ali, e isso nos preocupava. Foi impossível não nos lembrar da Aninha. Sabemos que não foi em vão, mas até hoje nos entristece por não termos conseguido dar a ela a segunda chance que merecia.

Julia 17

Com a Júlia, queremos que seja diferente. Que o tratamento demore, mas que seja eficaz. Que ela esqueça o passado, que sobreviva à difícil cirurgia que se aproxima, e que se transforme em uma mocinha pra dividir a cama com os donos.

Ela já é velhinha e não correrá atrás de bolinhas. Talvez seja a companheira ideal para uma senhora idosa, que fique em casa em tempo integral.

O tempo ainda nos revelaria os desafios que teríamos pela frente, mas a essa altura, não importava mais o tamanho das pedras que viessem. Lutaríamos juntos pra vencer todas elas.

Julia 18

Um dia, uma caminha bem macia que tínhamos aqui, e que estava ocupada por um sujeitinho que, quando lhe convinha, atendia pelo nome de Zezinho, acabou ficando vazia. O Zezinho foi adotado e partiu para uma segunda chance.

Daí, decidimos trazer a Julia para passar uma temporada em nosso território. E no dia de busca-la na clínica, levamos a Estopinha. Afinal, as boas vindas são sempre dadas por eles, os verdadeiros donos do território.

Julia 19

Claro que a Estopa não estava totalmente à vontade. Nenhum deles gosta de visitar clínicas veterinárias.

Mesmo assim, a Júlia precisava ser resgatada da clínica por uma de suas futuras irmãzinhas.

Julia 20

Chegamos em casa e ela conheceu Pintada e Duda. Foi muito bem recebida e pareceu à vontade em nossas terras.

Julia 21

Pintada, como sempre, é nossa melhor anfitriã. Será dela a tarefa de socializar a Julinha, muito embora ela já estivesse pra lá de socializada.

Julia 22

Com a Hanna, o reencontro foi também tranquilo. A Julia parecia já conhecer todas elas. E quem pode dizer que não?

Julia 23

O tratamento da Babésia durou ainda alguns dias e os exames foram repetidos. Finalmente, ela estava em condições de passar por uma cirurgia.

Fez também exame de leishmaniose, que deu negativo. Recebeu a vacina óctupla e se preparou para a cirurgia.

E aí teve início mais uma triste maratona. Foram duas cirurgias em 10 dias, onde ela foi castrada, retirou uma cadeia inteira das mamas e aproveitou para limpar também os dentes, muito infeccionados. Precisou remover mais 3 dentinhos, deixando sua boquinha ainda mais desfalcada do que já estava.

Ao final de toda essa maratona, ela repetiu o exame de Leishmaniose, que já estava vencido, e iniciou a vacinação com a Leishtec.

Voltou para nossa casa e reencontrou suas irmãzinhas. Acabou levando junto o Bob, que ela conheceu na clínica, e que também espera por adoção.

Julia 24

Faltava agora passar por uma consulta especializada com um ortopedista, pois ela mancava um pouco e demonstrava sentir dor nas pernas. Tudo indicava que era mesmo limitação da idade, mas nós precisávamos de um diagnóstico fechado pra repassar os cuidados aos futuros donos.

Fizemos então um check-up completo, com ultrassonografia e radiografia de todos os membros. Para nossa alegria, a ultrassonografia estava ótima, com indicação de acompanhamento, natural para a idade dela.

As radiografias revelaram coisas tristes. Havia sinais de traumas, na bacia, nas pernas, nos ombros. Alguns antigos e já cicatrizados, outros mais recentes, que exigiriam ainda a intervenção mais cuidadosa de um ortopedista.

Julia 25

Não sabemos ao certo se a Julia apanhava muito, ou se vivia como semidomiciliada e sofreu vários atropelamentos.

Seja o que for, não vamos investigar. Queremos apenas que ela se recupere. Daqui pra frente, será uma cadelinha de dentro de casa. Não precisa dividir a cama com os donos, mesmo porque subir e descer em camas, pra ela, não é mais possível sem ajuda.

Mas uma caminha macia ao lado da cama dos donos já será muito bom.

Julia 26

Mas sua luta está ainda longe do fim. Em uma das radiografias, foi constatada uma grave luxação no ombro esquerdo. Ela mancava da perna direita e tinha o pezinho “achinelado”, indicando que, por muito tempo, ela forçou muito a perna direita para poupar a esquerda.

A indicação era cirúrgica. Como ela já estava bem de saúde, decidimos então agendar a cirurgia. Mas aí, algo ainda mais triste ocorreu. Ela já estava na mesa de cirurgia e uma avaliação mais aprofundada mostrou que aquela luxação era muito antiga.

A cirurgia traria a ela muitos riscos, que não valiam em razão da idade. Ela poderia parar de andar, poderia num futuro perder a perna se um tendão fosse atingido, poderia nunca mais se levantar.

Julia 27

Então, a recomendação foi de que ela fizesse um tratamento com acupuntura e fisioterapia, que lhe livrariam das dores e dariam a ela maior independência e mobilidade.

Decidimos também fazer uma seção de fotos com ela, deixando-a linda como deveria ter sido toda a vida. Essas fotos não farão diferença pra ela, mas talvez sirvam de consolo pra nós, pra sentirmos que, de alguma forma, estamos conseguindo mudar a vida dela.

Julia 28

Quando resgatamos um animal, não sabemos quais as surpresas os exames vão revelar. E venha o que vier, temos que estar preparados pra enfrentar tudo.

E assim será, Julinha. Vamos enfrentar o que vier. Vê-la enfeitada e bonitinha só serviria de consolo se você demonstrasse estar também feliz.

Infelizmente, essa não é você. Depois de 70 dias de resgate, 60 deles vividos em um hospital, não era pra se esperar que você estivesse feliz. E isso nos enche de angústia.

Julia 29

Mas as coisas vão mudar. Faremos tudo mais que você precisar e não descansaremos até encontrar pra você os melhores donos do mundo. Queremos vê-la feliz, livre das dores e com disposição para pedir colo. Claro que ajudaria muito se você pudesse terminar essa preparação já na nova casa, com uma nova mãe, sentindo-se estimada, verdadeiramente.

Não sabemos por quanto tempo mas, enquanto você estiver por aqui e fará parte de nossa família.

Vê-la brincando seria um sonho, mas tomaremos de exemplo o antes e o depois da nossa Dudinha. Com você também será assim, Júlia.

Julia 30

Não podemos dizer que Julinha estava pronta para adoção. Tínhamos feito o grosso, mas ela precisaria de cuidados pelo resto da vida. Então, tecnicamente, não era exatamente uma adoção que ela precisava, mas de um resgate.

Ela estava castrada, com vacinação iniciada (Inclusive com a Leishtec) e com todos os exames em dia.

Precisará ser acompanhada e fazer acupuntura, uma vez a cada 45 ou 60 dias, o que fazia dela uma adoção especial. Mas tínhamos que acreditar que tudo vai dar certo e que o futuro que planejamos pra ela naquele dia em que a encontramos, está a caminho.

Julia 31

Ela é cadelinha de dentro de casa. É perfeita para companhia de pessoas mais idosas, pois é quietinha, não late, passa boa parte do tempo deitada em sua caminha.

Não precisa de passeios e não pode com escadas. Por isso, a considerávamos perfeita para apartamentos. Tem apenas 7 quilos, pelo bem macio e adora companhia humana.

Julia 32

Adora um carinho e fica horas na mesma posição se encontrar quem lhe afague as orelhas.

Julia 33

Tínhamos, enfim, uma menina pronta para adoção (Quase isso). Mas era uma adoção especial, pois ela dependeria de cuidados pelo resto da vida. Precisaria ainda de fisioterapia por um tempo e acupuntura pelo resto da vida, além das vacinas que tínhamos apenas iniciado mas faltava algumas.

E foi aí que a adoção chegou por um telefonema de alguém que nos contou que havia perdido um amigo velhinho, muito parecido com a Júlia, chamado Dudu (Versão preta e amarela), adotado também velhinho e positivo para Leishmaniose, mas que teve qualidade e cuidados até o último dia de vida.

Claro que notamos imediatamente que a Jaqueline era exatamente a adotante que procurávamos para a Julinha.

E ela chegou na nova casa, reconhecendo o ambiente e descobrindo onde ficaria suas vasilhas de água e ração. Naquele momento, passou a ser chamada de Belinha.

Julia adotada 1

Também descobriu um paninho, deixado ali de propósito, que pertenceu a um menino chamado Dudu, que foi muito feliz naquela casa, antes dela.

Julia adotada 2

E, por fim, era hora de experimentar o colo que seria só dela daquele dia em diante. Na verdade, naquela casa tem outros colos e a Julia será disputada e paparicada, como infelizmente, nunca foi.

Quando resgatamos um cãozinho jovem e em condições de maus-tratos, a sensação é sempre muito boa, pois percebemos que há tempo de transformar a vida dele e que o triste começo foi curto e será logo esquecido.

Mas quando se trata de um cãozinho que já viveu muito, a angústia é grande, de pensar no que ela perdeu, no que nunca teve, e que o triste começo durou tempo demais pra ser esquecido. Claro que viabilizar um resto de vida digno e feliz é muito bom, mas a expressão “resto de vida” dói fundo.

Julia adotada 3

Não sabemos quantos anos durarão esse resto de vida. Desejamos que seja longo, mas o tempo é uma grande ilusão. Sabemos, por orientação de nossos amigos de outro plano, que muitas vezes alguns poucos dias de afeto podem apagar uma vida inteira de abandono e recolocar um espírito no caminho evolutivo do qual foi desviado.

E é este o nosso consolo, Julinha. Que você seja feliz, que consiga esquecer, que recupere alguma qualidade de vida e que, ao final, possa partir levando uma doce lembrança da família que a vida te deu.

Julia adotada 4

Fica registrado nosso muito obrigado à Jaqueline, pela perfeita acolhida da nossa vovozinha mais especial.

Julia