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Esta foi uma das histórias mais incríveis que já nos aconteceram.

Um dia, estive na SMPA para resgatar alguns animais para serem preparados e levados para uma feira de adoções. Deveria escolher animais “adotáveis”, que tivessem mais facilidade de saírem em uma feira pública. Claro que os pretos médios e pelo curto estavam descartados.

A prioridade inicial era reduzir os números. Mais adiante, quando o abrigo estivesse com um número sustentável de animais, podendo proporcionar a eles o mínimo de qualidade de vida e segurança, aí sim passaríamos a focar os indivíduos.

Naquele dia, enquanto percorria os canis, uma lobinha começou a pular em mim, pedindo pra ser escolhida.

Eu a escolhi, mesmo sabendo que ela não tinha o perfil ideal para uma feira. Deixei o canil e a incumbência aos funcionários de pegá-la e colocá-la na caixa de transporte.

Quando chegou à casa da Lucinédia, onde seria preparada para a feira, ganhou o nome de Julinha, fizemos novas fotos e preparamos a matéria.

Ela foi à feira e voltou, como já era esperado. Dias depois, quando revisava a matéria, notei que a lobinha que chegou à casa da Lucinédia e que recebeu o nome de Júlia, não era a mesma que eu havia escolhido.

O focinho branco me mostrava que os funcionários acabaram se confundindo e pegado a lobinha errada. Talvez a confusão tenha sido minha, que escolhi uma e apontei outra. Afinal, são todas muito parecidas e a Julinha que chegou à casa da Lucinédia era tão carente quanto a primeira.

Tudo bem. A solução seria buscar a Julinha número 1 na primeira oportunidade, que seria dentro de mais alguns poucos dias.

Segunda-feira, dia 20/05/2013, era dia de buscar mais 4 animais para uma feira que se realizaria no sábado (25), na qual foram disponibilizadas algumas vagas para os animais da SMPA.

Era a oportunidade perfeita para que eu pudesse pegar aquela lobinha que me pediu ajuda em minha visita anterior. Procurei por ela mas ela não estava no canil. Ela não tinha nome e não havia como identificá-la. Então, perguntei apenas se eles tinham feito remanejamento, mas a resposta foi negativa.

Era pouco provável que tivesse sido adotada. Então, foi inevitável perguntar se teria ocorrido alguma baixa no canil.

E aí, a angústia me consumiu. Nos dois dias anteriores, sábado e domingo, a cidade estava em festa, em razão da final do campeonato mineiro. Os malditos fogos, mais uma vez, fazendo vítimas.

Seis animais foram mortos durante a madrugada, em razão das brigas. Um em cada canil.

Um deles, no canil onde eu deveria pegar aquela lobinha que me pediu ajuda. Eu não teria como saber ao certo o que havia acontecido, mas a tristeza que senti não sei descrever. Fiquei imaginando se ela não havia me pedido socorro, pressentindo que seus dias ali estavam contados.

Não costumo ignorar os sinais dos lobos e não ignorei. Eu a escolhi, cheguei a tirar suas fotos pendurada em minhas pernas, exatamente pra mostrar na matéria o porquê ela tinha sido escolhida.

Não consegui definir nem encontrar a explicação que me convencesse. Desencontro, fatalidade, azar, destino. O fato é que ela pediu ajuda e eu não fui capaz de ajudá-la. Achei que guardaria para sempre a imagem daqueles olhos expressivos pedindo que a tirasse dali.

Claro que alguém foi salvo em seu lugar. A Julinha também era uma lobinha especial, assim como aquela que não chegou a ganhar um nome. Rezei para que um dia fosse capaz de entender esses caminhos. Quem sabe aceitá-los?

Mas aí, descobri que a vida tem suas normas. Por que não confiar nela? A resposta para todas as minhas perguntas viria no sábado seguinte, através de um telefonema de uma voluntária da SMPA:

__ Você se enganou. A cadelinha que você fotografou primeiro é uma das minhas preferidas do abrigo. Ela ainda está lá, mais viva que nunca. Estava em outro canil.

Que nome dar a isso? Sorte, providência. Não importa mais. Ela continuava bem e seria finalmente resgatada, com atraso de apenas algumas semanas. Assim que soube que a Julinha nº 01 estava viva, foi a Lucinédia, protetora que estava recebendo os animais da SMPA quem me enviou uma mensagem, pedindo que a buscasse o quanto antes. Afinal, não podíamos dar “sopa pro azar”.

Na terça-feira seguinte voltei à SMPA para o resgate da Julinha nº 02. Que receba ela o mesmo nome. A Primeira já foi adotada mesmo.

Julinha

Ela estava lá, em outro canil, no meio de um monte de outros cães, alguns peludinhos, bem mais atrativos. Ela se mostrou desconfiada quando foi pega por um funcionário da SMPA. Mais ainda quando foi colocada na caixa de transporte.

Assim que desembarcou na casa da Lucinédia, ela já saiu demarcando o território, cheirando tudo, sendo acompanhada de perto por Barbicha, Bimbo e Anakin, que já estavam lá há mais tempo. Eles queriam dar a ela as boas vindas, como se dissessem: ___ Aqui é legal. Você vai gostar.

A pergunta que ouvi da Lucinédia foi: __Como você conseguiu confundir? Nem preta ela é.

Isso não importa mais. Graças a essa confusão, duas cadelinhas com poucas chances foram salvas. Ela se mostrou uma cadelinha alegre, feliz, sociável, muito dócil e carinhosa. Aprovou o território que lhe foi oferecido. Estreitou laços com Barbicha, um menino que tinha saído do mesmo abrigo.

Julinha 3

Julinha 4

A nova Julinha foi preparada para adoção e, como não poderia ser diferente, doada. Foi escolhida em uma feira por um casal que intencionava adotar um filhote. Mas aí, conhecendo a Julinha, se encantaram.

Claro que ela usou o mesmo charme que nos ganhou quando a conhecemos.

Só pra ficar registrado, o transporte dos animais da SMPA tem sido feito gratuitamente pela Bruna Bueno, que trabalha com Taxi Dog.

Ela tem sacrificado parte de sua renda, combustível e tempo, pra ajudar animais que realmente precisam.

Fica registrado nosso agradecimento e a indicação de uma profissional comprometida. Protetores precisam prestigiar protetores.