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Durante uma avalanche, duas pedrinhas que desceram juntas a montanha se apaixonaram e, dessa união, nasceu o fogo. Aquele filho tão especial cresceu e se tornou grande e poderoso.

Apaixonou-se pela chuva, mas logo entendeu que aquele seria um amor impossível. Sua amada lhe apagava.

Apaixonou-se então por uma árvore, mas percebeu que ele era o perigo para ela.

Um dia, já desanimado e sem esperanças, conheceu uma pedrinha da montanha, como sua mãe. Apaixonaram-se e decidiram se casar.

A felicidade estaria completa, mas acreditavam que não poderiam ter filhos, até que um dia, descobriram que, se permanecessem sempre juntos, teriam uma linda filha.

A ela decidiram chamar de Sombra.

(do espetáculo A dança dos signos – Oswaldo Montenegro)

Luquinhas 1

Esta história fala de diversidade, de famílias que surgem pela força do amor, ainda que formadas por indivíduos tão diferentes, mas também alerta para as consequências da inconsequência humana.

Não temos o direito de manipular vidas. Isso vale para todo e qualquer tipo de manipulação, genética ou não, ou mesmo desenvolvimento de raças.

O tico-tico é conhecido por ser capaz de chocar ovos de outras aves. A espécie conhecida por saquear ninhos de tico-ticos é o Chupim, um pássaro negro, bem maior que o tico-tico.

Luquinhas 2

Na natureza, tudo é equilíbrio. As duas espécies evoluíram e sobreviveram assim ao longo dos anos. E assim continuarão coexistindo e dividindo nosso planeta.

Uma espécie depende da outra. Sem os tico-ticos, os chupins estariam extintos e, sem os chupins, a superpopulação dos tico-ticos seguramente já teria provocado seus estragos.

Mas a nossa história envolve duas espécies que, geralmente, não têm muito em comum.

Contamos a história de Luidi e Rosinha, um casal de tico-ticos que se conheceram em lados opostos das telas. Luidi ganhou a liberdade em janeiro de 2014 e a Rosinha, um ano e meio depois.

http://oloboalfa.com.br/luidi-e-rosinha-o-valor-de-uma-vida/

Luquinhas 3

Contamos também a história da Chimbinha, uma sanhacinha que, a julgar pela facilidade com que se aproxima das pessoas, viveu tempo demais como prisioneira.

http://oloboalfa.com.br/chimbinha-a-sanhacinha-cinzenta/

Luquinhas 4

Sempre que uma grande soltura acontece no santuário, é nossa tarefa, após a soltura, monitorar os pássaros em liberdade por até 3 meses.

Temos muitos relatórios e informações a passar aos órgãos ambientais. As aves são acompanhadas e monitoras, fotografadas e observadas. Tudo precisa constar do relatório pós soltura: Distância em que foram vistos do local da soltura, se acasalaram, se se uniram a pássaros nativos, se nidificaram, se perderam a vida, e por aí vai.

Dessa vez, algo bem inusitado aconteceu. Dentre os sete sanhaços que nos foram entregues, e de cujas fotos compunham a história da Chimbinha, um deles, que passaremos a chamar de Lucas, tornou-se a prova viva de quão longe pode chegar a covardia humana.

Luquinhas 5

Ele se aclimatou muito bem, aprendeu a voar e tudo indicava que seria uma reintrodução bem sucedida, mas algo estava pra acontecer e não seria possível percebermos enquanto estivessem dentro do viveiro de aclimatação. A soltura aconteceu em uma manhã de domingo e tudo parecia bem.

Quinze dias após a soltura, avistamos o Lucas colhendo palha nos arredores da casa sede da fazenda. Estranhamos o fato dele estar sozinho, mas tudo indicava que ele havia se acasalado e buscava um lugar seguro para fazer o ninho.

Não seria o primeiro e nem o último sanhaço reintroduzido que construiria ninhos nos caibros dos telhados de nossas varandas.

Luquinhas 6

Rondando o mesmo arbusto e os mesmos vasos de flores, um casal já conhecido: Luidi e Rosinha estavam mesmo com pressa de cumprir a profecia.

Registrar momentos em que Lucas, Luidi e Rosinha dividiam o mesmo espaço não era exatamente algo estranho. Chegamos a pensar que ambos tivessem elegido o mesmo arbusto denso para a construção do ninho.

Com tantas árvores no santuário, não havia necessidade de se construir dois ninhos em um mesmo arbusto, mas isso somente facilitaria o nosso trabalho de monitoramento.

Luquinhas 7

Duas semanas depois, lá estavam Luquinhas, Luide e Rosinha, sempre juntos.

Observamos que os dois tico-ticos estavam mesmo nidificando, e que o sanhaço solitário os acompanhava por todo lado.

Pra onde voavam Luidi e Rosinha, lá estava o Luquinhas, como uma sombra. Chegamos a flagrar o menino oferecendo um raminho para a Rosinha, como se quisesse dar a sua contribuição para o ninho que ela preparava.

Luquinhas 8

Havia algo estranho ali e precisaríamos prestar mais atenção.

E quanto mais atenção prestávamos, mais estranho parecia aquela proximidade. Outros sanhaços se aproximavam e o Lucas se mantinha indiferente aos de sua espécie.

Ele passava o dia inteiro seguindo Luidi e Rosinha.

Luquinhas 9

Foi ele quem nos apontou onde estava o ninho que esperávamos encontrar e monitorar.

O local escolhido foi um vaso de flores silvestres, posicionado bem na entrada da varanda. Dois ovos já estavam ali, sendo chocados pela Rosinha, que não demonstrava qualquer receio com o sanhaço que insistia em se manter por perto.

Luquinhas 10

Claro que aquela aproximação era inusitada. O casal não entendia o porquê daquela situação e tocava a vida sem maiores preocupações.

Luquinhas 11

O Luquinhas ignorava outros sanhaços e se espelhava no casal de tico-ticos. Ele não se via como sanhaço, mas identificava os tico-ticos como de sua espécie. E só havia uma explicação possível para aquele comportamento tão inusitado.

Acreditamos que um dia, o ninho de sua mãe foi saqueado por mãos humanas (sanhaços não saqueiam ninhos de tico-ticos, como os chupins), sendo o ovinho onde ele se desenvolvia colocado para ser chocado por uma fêmea de tico-tico.

Restava agora entender como ele foi parar em uma gaiola. É que o Lucas nos foi entregue por uma equipe de veterinários e biólogos do IBAMA e IEF, para aclimatação e soltura. Isso significava que ele foi apreendido, possivelmente de algum criador clandestino ou passarinheiro.

Não sabemos se a “experiência” aconteceu em cativeiro ou se o ninho foi monitorado e ele capturado assim que emplumou e saiu do ninho.

Luquinhas 12

E a consequência dessa covardia, é que temos agora em liberdade um sanhaço chamado Lucas, que nunca saberá o que é ser um sanhaço.

Ele passará pela vida ignorando os de sua espécie, buscando companhia entre aqueles que, solenemente, o ignorarão.

Não sabemos se ele terá vida longa. Não sabemos se um dia será feliz. Sequer sabemos ao certo se animais nesse estágio evolutivo são capazes de sentir felicidade.

Mas é angustiante ver aquele sanhaço sem conseguir se encontrar, sem reconhecer os seus, sem chances de um dia gerar filhotes férteis.

Só nos resta pedir aos nossos amigos que atuam no outro plano que acompanhem o nosso Lucas, que o guiem e, quem sabe, despertem sua atenção para uma linda moça de sua espécie.

E que covardias assim não aconteçam mais. Não temos esse direito.

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Animais não processam pensamentos lineares. Vivem o presente e são movidos por uma força chamada instinto.

Mas quando se tem como objetivo “despertar e sensibilizar”, nada é mais eficiente que atribuir a eles características e sentimentos humanos. Isso os aproxima de nós, cria a empatia e leva as pessoas a tentarem sentir como eles.

E é assim que, de grão em grão, vamos despertando e sensibilizando, preparando as pessoas para o que se espera delas, no novo mundo que está nascendo.

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