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Há alguns dias, alguns protetores falavam do modismo, como uma das causas do abandono.

Foi citado o exemplo dos Pit Bulls. Há alguns anos, era muito comum encontrarmos grupos de jovens, sobretudo na periferia, cada um ostentando o seu Pit Bull. Eram animais belos, fortes, bem alimentados e com o pelo escovado.

A moda passou e o resultado podemos encontrar pelas ruas.

Os Poodles, em nossa opinião, são as maiores vítimas do modismo. A raça se popularizou e se tornou o “sonho de consumo” para pessoas que não têm sequer o que comer em casa.

Querem um cãozinho de raça pura, mas não imaginam que cães de pelo longo precisam de cuidados especiais. Banho e tosa regulares, limpeza permanente dos dentes e ouvidos, escovação diária, etc.

Ficamos imaginando o que leva alguém a deixar um cãozinho de estimação, se é que pode ser chamado assim, chegar neste ponto.

Pra quem ainda não conhece, este é o Max, um Poodle Toy macho, ainda filhote, com pouco mais de um ano de vida.

Ele não ficou assim porque fugiu e estava vivendo nas ruas. Quando encontrado, corria desnorteado na frente dos carros em plena via expressa, próximo à rotatória do Bairro Nacional.

Assustado, corria de qualquer um que lhe chamasse.

Estacionamos o carro mais à frente, descemos e paramos o trânsito, abrindo os braços no centro da pista, sinalizando para os carros que vinham para que parassem e aguardassem a tentativa de resgate.

Com a ajuda de uma pessoa que tinha um filhote nas mãos, conseguimos pegá-lo.

Para nossa surpresa, estava de barriguinha cheia. Não tinha fome nem sede.

Pra quem sabe ler, um pingo é letra. Os protetores de animais já são capazes de interpretar esses sinais. Não podemos afirmar que ele foi jogado na rua. Talvez tenha fugido no desespero.

Mas é certo que, até minutos antes de ser encontrado, ele ainda estava em casa, vivendo em companhia de seus donos, que o negligenciaram ao extremo, deixando que chegasse no estado mostrado nas fotos.

Nem as fotos nem as palavras serão capazes de relatar a situação, mas, ainda assim, vamos tentar. Ele respirava, mas era certo que pouco enxergava.

Não tinha mobilidade, pois os pelos entrelaçados se enrolavam nas pernas, na cauda e nas orelhas, formando uma só massa compacta.

Não encontrava posição para se deitar, porque a sujeira e os bolos de pelo, pedras e até pedaços de arame estavam por todos os lados.

Ficamos imaginando há quanto tempo ele não recebe carinho, já que um cãozinho daqueles, ninguém se disporia a acariciar, pelo menos na casa onde ele estava.

Não sabemos se foi adotado. É possível que tenha sido até comprado, já que é um Poodle Toy, sonho de consumo de pessoas que não têm sequer o que comer.

Me dando o direito de fantasiar um pouco mais, talvez tenha saído de uma fábrica de filhotes, já que em muitas delas os reprodutores chegam a ficar nesse estado.

Passada a fase das conjecturas, vamos aos fatos. O resgate ocorreu no final da tarde, no domingo de carnaval.

Não podíamos fazer muita coisa mas, ainda assim, precisávamos dar a ele, no mínimo, uma noite de sono. Ele estava arredio e com muito medo.

Ainda assim, a quatro braços, decidimos desbastar tudo aquilo na tesoura mesmo. Só de rabo ele tinha dois e não sabíamos qual era o certo.

Apesar do medo, ele demonstrava saber que estávamos tentando ajudar. Ficou quietinho, deixando que o manipulássemos, virando daqui e dali, no maior cuidado pra não ferí-lo.

Foram pelo menos duas horas de estica e puxa, até ele se irritar e não mais nos deixar continuar.

Foi como se dissesse: __Já chega. Tá bom assim.

Claro que não estava bom mas, pelo menos, ele dormiria melhor. A primeira coisa que tentamos desobstruir foram seus olhos e, depois, o rabinho, é claro. Afinal, precisávamos dar a ele a chance de sorrir pra nós.

Depois da primeira capina, já dava pra ver que, debaixo de tudo aquilo, havia um belo lobinho.

A essa altura, ele já estava abanando o rabinho e pulando em nosso colo. Também pedia carinho como um gato, se esfregando em nossas pernas. Afinal, há muito ele estava privado desses prazeres. Aninhou-se em um colo e ganhou carinho até dormir exausto.

No dia seguinte, bem cedo, iniciamos a maratona para encontrar um “Pet Shop” que estivesse funcionando e pudesse atender a uma tosa de emergência. Segunda-feira de carnaval, seria pouco provável que encontrássemos.

Mas, enfim, alguém decidiu atendê-lo.

Quatro horas de banho para que pudéssemos ver o estrago que tudo aquilo havia causado. Sua pele apresentava placas vermelhas, irritadas e até feridas. As orelhas, o focinho, as pernas, a barriga e as patinhas.

A ponta de sua cauda parecia estar em carne viva. As amofadas das patinhas estavam vermelhas, inchadas e feridas.

Depois que ele descansou um pouco, demo-lhe um banho de rifocina nos pontos mais críticos. Decidimos não usar remédios antipulgas, pois a pele estava ainda muito sensível.

Além do mais, ele não apresentava nem pulgas nem carrapatos. Nenhum parasita conseguiria penetrar naquela carapaça. O antipulgas poderia esperar mais uns dias.

E agora, com orgulho, apresentamos o Max. Este é o verdadeiro Max. Nascido pra viver dentro de casa, com conforto e assistência, podendo dividir a cama e até o travesseiro com os donos.

Ele ainda será examinado, vacinado, vermifugado e castrado, tudo em seu tempo.

É um ótimo cão de guarda. Pelo menos foi o que ele tentou nos mostrar assim que chegamos em casa. Alguns funcionários da Prefeitura faziam a capina da rua e ele logo mostrou que, daquele portão pra dentro, ninguém ousaria passar. Não só os latidos são ameaçadores. O rosnado e a postura também mostravam a fera que ali estava pra nos proteger.

Latia e nos olhava de soslaio, pra ter certeza de que estávamos prestando atenção em sua atuação.

Esqueci de dizer que ele deve pesar uns 3 kilos, depois do banho, medindo pouco mais de um palmo de altura.

Passados os momentos iniciais, pós-banho, ele relaxou e se aninhou em sua casinha, dormindo o sono dos justos, como há muito não dormia.

Além da casinha e um cobertor bem fofinho, ele ganhou também uma bolinha, um bichinho de pelúcia e, claro, uma roupa nova.

Afinal, ele nunca esteve pelado antes e poderia sentir frio à noite.

Também testamos a sua socialização com outros cães. Foi aprovado com nota 10. Ele topa qualquer coisa.

Por aqui, encontrou uma matilha só de fêmeas. Claro que ele pensou que estivesse no paraíso. Autocrítica passou longe. Não tinha cerimônia. Em pouco tempo já achava que podia dar ordens e organizar a bagunça.

Passou a marcar o território, tomando para si um espaço que julgava estar livre. Já se achava o lobo alfa do pedaço.

Ele seria disponibilizado para adoção, mas não aceitaríamos um final feliz qualquer. Dessa vez, tudo teria que ser diferente. Não poderia ser doado a alguém que desejasse um Poodle Toy. Sabíamos que a fila de pretendentes seria grande.

Precisaríamos garimpar entre os pretendentes e encontrar alguém que enxergasse o lobinho especial que ele era. Alguém que entendesse tudo o que ele havia passado e tivesse a vontade de escrever outra história.

Desejávamos pra ele uma matilha numerosa, convívio estreito com pessoas e o direito de viver e dormir dentro de casa. O estado de suas patinhas indicavam que ele deveria estar vivendo em um canil imundo, úmido, sem a mínima condição de higiene. A mudança precisava ser brusca, pra ele esquecer de vez o passado.

Por todo o corpo, já haviam sinais generalizados de dermatite, causada pela falta de ar. Por sorte, ele ainda não tinha feridas abertas e bastou a tosa e duas noites bem dormidas para que a maioria das irritações desaparecessem.

Ficaram apenas alguns poucos pontos, que seriam tratados com medicamento tópico.

Passou por exames que indicaram saúde perfeita. Foi vermifugado, vacinado e teve a castração agendada.

Seus adotantes foram escolhidos. Rejane e Eduardo, um casal apaixonado por lobos. Eles já tinham três adotados em casa e se comoveram com a história do Max. Em casa de cachorreiro é assim: sempre cabe mais um.

Quanto à nova turma do Max, não poderia ser melhor.

Pedrinho é um mestiço de York, miúdo, mesmo estilo do Max.

Além dele, duas fêmeas especiais: Serena e Vida.

Já conhecíamos estas duas moças. Elas também passaram pela Veterinária Alípio de Melo, onde foram castradas e receberam os cuidados necessários para serem disponibilizadas para adoção. Duas fêmeas muito carinhosas e sociáveis.

Restava agora testar a socialização do Max com a nova turma. Claro que qualquer território é pequeno demais para dois machos dominantes.

Mas ali não havia muito o que disputar. As fêmeas já estavam castradas. Havia mais colo do que cachorro e mais disposição humana de acariciá-los do que os próprios lobos precisariam. Eles logo mostraram que estavam mais interessados em fazer amizade e brincar do que em disputar a liderança da matilha.

Nos despedimos do Max, deixando-o em boas mãos, ou melhor, em bons colos.

Ele precisava saber que essa era a vida que merecia. Nasceu e evoluiu pra isso. O que aconteceu até aqui foi apenas acidente.

Há de vir o dia em que todos os humanos sobre a terra serão protetores de animais. Quando esse dia chegar, não teremos mais histórias assim pra contar.

Mas não faz mal. Afinal, o Projeto O LOBO ALFA terá atingido seus objetivos.

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Fica nosso muito obrigado ao casal, Rejane e Eduardo, pela acolhida do Max.

Agradecemos também à Dra. Cíntia e sua equipe, da Veterinária Alípio de Melo, onde foi o Max atendido com a dedicação e os cuidados de sempre.

Pra quem acredita em coincidência, a Rejane já é cliente da Veterinária Alípio de Melo, que já acompanha o Pedro, a Serena e a Vida e, agora, passará a acompanhar também o Max. Preferimos chamar isso de “Providência”.

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No dia seguinte à adoção, recebemos as primeiras notícias.

Rejane nos escreveu contando que o Max não teve nenhuma reação à vacina e que havia passado a tarde toda brincando com o Pedrinho e que, à noite, teria dormido feito um anjinho.

Depois de uma notícia dessa, ainda nos agradecem por termos confiado a eles a adoção do Max.

Não há do que agradecer, Rejane. Nossos métodos são outros. A escolha não coube a nós nem a vocês. Já estava escrito.