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O pedido de socorro para um bezerro dava notícia de que ele foi abandonado, entrou no pátio de uma empresa, deitou e não mais se levantou.

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Os primeiros exames mostraram que seu maior mal era a fome. Tudo indicava que ele foi mantido confinado em algum terreno seco, sem comida. Seu estado de fraqueza já era intenso quando escapou ou foi solto. Caminhou sem rumo até cair de fome.

Como ele já apresentava quadro neurológico, havia ainda a suspeita de raiva.

O pequeno estava em uma região de vilas e os abutres já o circulavam, querendo retirar dele a pouca carne que restava, para o churrasco do fim de semana.

O pedido de ajuda ecoou no fim da tarde e esperar até a manhã seguinte seria condená-lo ao abate clandestino, ali mesmo.

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O resgate não foi fácil, pois mesmo em pele e osso, ele não era tão leve.

Seu estado de fraqueza era tamanho que nem sequer conseguia se segurar de pé.

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Foi levado para um hospital veterinário, onde recebeu muita comida, água e cuidados médicos. Precisou de alguns exames para descartar a hidrofobia.

Ali, ele ganhou também um nome e passou a ser chamado de Mingau.

Em dois ou três dias, já estava conseguindo se levantar. Ainda estava fraquinho e trêmulo, mas os sinais clínicos eram promissores.

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Recebeu alta em uma manhã de sexta-feira. Precisaria agora de um lugar pra ficar, em segurança.

Deixou o Hospital Veterinário da UFMG, com destino a um lar temporário, onde ficaria por alguns meses, até se recuperar totalmente e estar mais forte para enfrentar os perigos de uma vida livre, em território hostil.

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Seu sangue Nelore já se apresentava. Não tinha músculos, mas já se atrevia a resistir ao manejo.

Para a sorte do garoto, onde vai morar, quase não há manejo. Ele terá vida livre e pouco contato com humanos. As exceções são os banhos de carrapaticida, as vacinas e medicações.

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Embarcou resistindo e desembarcou ensaiando os primeiros pinotes.

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Mingau não será um boizinho de colo. Não ficará dócil e afável, como se esperaria de um animal de santuário. O passado de maus-tratos cobrará seu preço.

Mas não será o primeiro e nem o último a chegar por aqui distribuindo coices e deixando claro que não quer a amizade de ninguém.

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Nos primeiros meses, ele será cuidado bem de perto pelo Sr. Irineu, o mesmo homem responsável por cuidar dos animais do Santuário.

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No dia da chegada ao lar temporário, suas costelas ainda estavam bem salientes. O tempo e o pasto bem verde e denso cuidariam de cobrir as marcas da desnutrição extrema.

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Logo na chegada, teve contato inicial com outros de sua espécie. Ele talvez sentisse falta do rebanho, ou mesmo da mãe.

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A primeira refeição aconteceu ali mesmo, assim que deixou o caminhão.

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Estava assustado demais, mas até aquele momento, suas experiências não permitiam qualquer reação positiva diante de pessoas.

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Mas, de agora em diante, ele precisaria de pouco manejo. Comida no coxo era só o que ele teria, por um bom tempo.

Esse afastamento e tempo de descanso seriam importantes pra apagar pelo menos um pouco de suas lembranças.

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Alguns dias mais tarde, as costelas ainda estavam aparentes e seu pelo já crescido mostrava os sinais da desnutrição, com falhas bem características.

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Mingau já estava mais forte, mas não o suficiente para ser levado para sua casa definitiva. No território em que vai morar, ele enfrentará perigos naturais e precisa estar bem forte.

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Não estará totalmente a salvo. Terá que aprender a evitar as cobras, usar a união do rebanho para não virar presa das suçuaranas e evitar ainda as ervas que podem lhe fazer mal.

Não sabemos se o Mingau terá vida longa, mas sabemos que ele jamais será abatido para alimentação humana. Não é exatamente um hotel 5 estrelas que estamos oferecendo a ele, mas a chance de uma vida livre, sem maus-tratos, sem a sina dos bovinos.

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Mas sua história viria a se cruzar com outras, tão doídas quanto a dele.

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Dias depois, mais um coitado chegaria por ali, depois de um longo período de sofrimento.

O Chuvisco é um cavalinho ainda filhote, que sofreu até não poder mais, nas mãos de gente ignorante.

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Seu destino seria a montaria para cavalgadas curtas, ou mesmo as carroças. Sem cuidados, ele se encheu de carrapatos que lhe cobriram a couro, deixando-o fraco e desnutrido.

Os carrapatos se amontoaram dentro das orelhas, provocando feridas que atraíram moscas e resultaram em uma bem criada miíase. Seus donos tentaram trata-lo, mas como ele não permitia o manejo, a solução que encontraram foi surrá-lo até que não aguentasse mais.

E assim, ele passou a apanhar diariamente. Foram semanas de surra, sem nenhum resultado prático, e nem assim seus tutores percebiam que aquele não era o caminho.

Sua orelha, já comida pela miíase, acabou caindo, porque os tendões que a mantinham de pé foram comidos pelos bichos.

Foi finalmente retirado dos agressores, quando então começou a ser tratado de forma mais racional. Ele tremia de medo diante de qualquer tentativa de aproximação humana.

Chuvisco e Mingau chegaram a dividir o coxo durante algum tempo, no mesmo lar temporário.

Depois de um tempo, tiveram que se separar. O Chuvisco estava mais forte e pôde seguir primeiro para o santuário.

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Chegou na nova casa fazendo amizades. Hitachi tornou-se uma espécie de pai do Chuvisco, ou talvez apenas um exemplo pra ele.

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Além dele, outras três eguinhas completariam o bando dos cavalos “selvagens”.

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Algumas semanas mais tarde, era a vez do Mingau chegar ao lar definitivo. E ali chegou já forte e sem as marcas do passado.

Mingau e Chuvisco não são mais tão amigos como antes. Hoje, cada um tem a sua própria turma.

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Eles dividem o mesmo território, o mesmo curral e até o mesmo coxo, mas entre um cavalinho de orelha caída e um touro de quase uma tonelada, ele prefere a companhia e a proteção do Alvim.

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Bovinos e equinos convivem em paz nessas terras.

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Não se vê entre eles qualquer sinal de agressividade ou de disputa.

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O Chuvisco, por sua vez, também se sente mais seguro entre os seus.

Eles serão felizes por aqui. Que tenham vida longa, e que possam um dia esquecer o passado e nos perdoar.

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Mingau e Chuvisco

Rei 9

Resgate do Mingau: Cãopartilhe e Vera Macedo