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Meu nome é Neguinho. Este aí do lado é o meu inseparável irmão Lourinho.

Vou repetir: I-N-S-E-P-A-R-Á-V-E-L. Segundo o dicionário, intimamente unido, que não se pode separar.

Ainda somos jovens demais e teremos o nome que nossos adotantes quiserem. Poderemos ser chamados de “Faísca e Fumaça”, “Café com leite”, “Goiabada e Queijo”, “Piu Piu e Frajola” ou quaisquer nomes que dêem a noção da dupla perfeita que somos.

“Serginho e Lacraia” já é sacanagem.

Não sabemos o que aconteceu, como nascemos ou onde está nossa mãe. Sentimos muito a falta dela. Fomos encontrados dentro de uma caixa de sapatos, em um ponto de ônibus, na beira da rodovia, lá pelos lados de Sabará.

Ainda não andávamos e tínhamos acabado de abrir os olhos. Não tínhamos mais que 30 dias de vida e ainda mamávamos quando fomos separados de nossa mãe. Fomos levados para um território de lobos (assim se chama casa de protetor). Eram muitos lobos, de muitos tamanhos. Percebemos que teríamos que ter força e valentia pra nos impor e assumirmos o comando daquele território. Estávamos dispostos a tudo. Tínhamos a força, a coragem e nenhum juízo.

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Mas aí, decidiram os humanos que éramos jovens demais pra ficar no olho do furacão e resolveram nos colocar dentro de casa. Descobrimos o outro lado da vida. Somos lobos selvagens e independentes, mas cama quente, sofá, pé de cadeira, chinelos, panos, caixas de papelão e outras coisinhas mais nos agradaram muito. Descobrimos que a vida de cãozinho de colo é bem melhor. Nascemos pra isso.

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Mas somos especiais. Saudáveis, alegres, brincalhões, agitados e comilões. Ficaremos de porte pequeno e temos a estirpe de cãezinhos de colo. Sem muita frescura, mas de colo e pra viver dentro de casa.

Passamos muitas horas do dia dormindo, mas a noite as coisas acontecem. Passamos a madrugada correndo pela casa, rasgando papelão, latindo, pulando um sobre o outro e brincando. De dia, claro que precisamos descansar um pouco. Dizem os humanos que isso é comum em crianças, a troca do dia pela noite. É que, como estamos em avançado estágio de humanização, começamos a adquirir algumas manias de filhotes humanos.

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Então, precisamos de novos donos, mas estamos dispensando uma penca de gente aí. Queremos donos tão especiais quanto nós. Pra começo de conversa, se alguém tiver a infeliz ideia de nos separar, por favor, não nos procure.

Somos obedientes e estamos dispostos a nos adaptar. Se alguém quiser cãezinhos de hábitos diurnos, é só nos cansar durante o dia que prometemos dormir a noite toda. Se tiver crianças na casa, melhor ainda.

Prometemos, em troca, alegria em dobro. Estamos prontos pra cumprir a missão para a qual viemos ao mundo, mas queremos a garantia de uma casa feliz e donos amorosos. Sabemos de nosso potencial. Estamos com a bola toda e podemos exigir o melhor.

Esqueci de contar que também gostamos muito de biscoitos. De gente né?

Dormimos juntos, comemos juntos, brincamos juntos, marcamos o território juntos, mastigamos chinelos juntos, rasgamos papelão também juntos, dividimos os brinquedos, os biscoitos e até o colo. Mas se na casa tiver mais colo que cachorro será melhor. Cama não precisa ser muito grande, já que dormimos amontoados, geralmente, um sobre o outro.

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Já ia me esquecendo. Cachorro preto ao lado de cachorro branco não aparece bem nas fotos. Então, vão aí algumas fotos clareadas, para que eu também fique bem na fita. Se o Lourinho ficou parecido com um fantasminha, pouco importa. Não era justo só ele ficar bonitinho e eu ir na carona. Minha autoestima é muito bem resolvida pra me sujeitar a isso. Afinal, eu sou o cara.

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Depois dessa história, esperamos mais alguns dias e fomos adotados, JUNTOS como queríamos. Nossa nova dona é uma menina de 13 anos, que nos recebeu com o coração em festa. Não era pra menos né? De agora pra frente, só teremos alegrias pra viver.

Um resgate de Eliana Malta.