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Elas são abundantes. Em algumas cidades do interior, são conhecidas como as Galinhas de Nossa Senhora, talvez uma forma de desestimular a predação humana, que já foi grande numa época em que as brincadeiras de crianças repetiam práticas predatórias dos adultos.

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Elas se adaptaram muito bem às áreas urbanas e trocaram os galhos das árvores pelos caibros dos telhados.

É considerada uma ave das mais preguiçosas, quando o assunto é a construção do ninho. Ela economiza tempo e trabalho e constrói um dos ninhos mais precários, dentre as pequenas aves.

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A prática humana de alimentá-las em áreas urbanas tem favorecido o aumento de seus números. Enfim, elas são muitas e continuam se espalhando.

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Mas isso as coloca em rota de colisão com animais domésticos. Gatos são seus maiores predadores, muito embora algumas aves de rapina também se adaptaram bem às grandes cidades, atraídas pela oferta fácil de alimento.

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Além dos predadores naturais, muitos outros perigos espreitam as pequenas rolinhas. Atropelamentos, envenenamento e até mesmo os encontros com lobos.

Foi o que aconteceu com a personagem dessa história. Ela foi retirada dentre os dentes de um lobo. O estrago foi grande mas, mesmo assim, quis a vida que ela sobrevivesse.

Estava muito machucada e sem nenhuma condição de sobreviver em liberdade. Foi então colocada em uma gaiola, onde recebeu medicação e o que deveria se chamar “uma segunda chance”.

Durante 4 longos meses (De dezembro a abril) ela viveu em uma gaiola, se recuperando dos ferimentos que pareciam profundos. Sobreviveu, os ferimentos cicatrizaram e uma soltura foi tentada.

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Nesse período, ela estava sendo chamada de Passarinha, talvez numa tentativa de sua salvadora de não se afeiçoar.

Aquela frustrada tentativa de soltura deixou claro que ela precisaria de mais. Em termos médicos, não havia mais o que fazer por ela. Seria necessário dar a ela tempo para que todas as penas fossem substituídas, e espaço para que ela pudesse fortalecer as asas e treinar o voo, numa espécie de fisioterapia.

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Sua salvadora é protetora e voluntária de uma ONG Parceira (Rockbicho.org) e nos pediu ajuda pra tentar mais uma vez, de forma diferente.

Recebemos a menina em uma caixinha de sapatos e, dali, ela foi colocada em um viveiro, passando a noite dentro de casa, para evitar os predadores noturnos.

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Ficou dois dias em nossa casa, período em que pudemos observar coisas tristes. Ela não usava os poleiros do viveiro e ficava somente no chão. Isso era um sinal claro de que suas asas não serviam nem mesmo para estabilizar o pulo.

Ficava muito agitada diante de qualquer aproximação e se debatia contra as grades, o que servia para danificar ainda mais as poucas penas que insistiam em crescer.

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Procuramos orientação de um veterinário especializado em aves, quando recebemos um triste prognóstico: Em traumas assim, é comum que os ferimentos tenham comprometido os folículos de onde nascem as penas e, se assim ocorreu, as penas nunca mais nascerão intactas e adequadas ao voo.

Mesmo assim, foi sugerida uma tentativa, dando a ela um bom espaço, à prova de predadores. Só assim ela teria tempo pra substituir todas as penas e poderia, ainda, tentar recuperar os movimentos das asas, através de sucessivas tentativas.

Nosso viveiro do santuário estava fechado e vazio, esperando o próximo lote de pássaros apreendidos do tráfico. Seria o lugar perfeito para uma “derradeira tentativa”.

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Nós a deixamos alguns minutos no chão, com as portas abertas.

Depois, posicionamos comedouros e uma pequena vasilha de água logo à frente da portinha da gaiola. Em casos assim, é sempre bom deixar que a saída seja espontânea.

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Naquele momento, demos a ela o nome de Patinha. Se é pelo nome que as pessoas se afeiçoam, é pela afeição que aprenderemos a respeitar e proteger.

E foi caminhando tranquilamente que ela deixou a gaiola, pisando a terra pela primeira vez depois do fatídico encontro com o lobo.

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Somente com a ampliação das fotos foi possível ver o tamanho do estrago.

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Penas fraturadas, desalinhadas, cheias de falhas e com claros sinais de deformação nas asas.

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E, pra nos mostrar que ainda se lembrava da vida livre, ela tentou o que deveria ser um voo. Infelizmente, não podíamos classificar aquilo sequer como um pulo.

Não havia equilíbrio e ela acabou caindo feio. Se ela continuasse tentando voar daquela forma, acabaria sendo condicionada a entender que bater as asas era sinal de dor e desconforto e isso retiraria dela qualquer estímulo pra tentar.

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Sem poder usar as asas, ela passou a explorar o ambiente da única forma possível: usando as pernas. Caminhou o viveiro inteiro.

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Percorreu o gramado, ciscou o chão, recolheu alguma coisa que nem as potentes lentes da câmera seriam capazes de identificar e tentou, como foi possível, se sentir em casa ali.

Não queremos ser pessimistas, mas é possível que nosso viveiro seja o máximo de liberdade que ela poderá experimentar, pelo menos até fecharmos este ciclo.

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Patinha parecia uma codorna, sem o rabinho e com bastante desenvoltura nas perninhas finas. Parecia bem ali e, por mais de uma hora ela se dedicou a conhecer a nova casa.

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Vê-la caminhando já foi um presente, pelo menos para aquele momento. Era o máximo que podíamos fazer por ela.

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Ouviu o barulho da água corrente e quis investigar a fonte e o laguinho. Espalhamos bebedouros, mas o que esperamos é que ela logo aprenda a usar a fonte para beber e se banhar.

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Conheceu também o banco de areia, que eles tanto apreciam.

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Depois caminhou até debaixo de uma amoreira, parou junto ao tronco e ficou ali, como se avaliasse suas possibilidades.

Na tentativa de voo que flagramos, ela não conseguiu saltar nem 20 cm do chão, o que tornava os galhos da amoreira inatingíveis pra ela.

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Mas aí notamos algo especial. Alguns galhos debruçavam-se até tocar o chão, como se ali houvesse mãos estendidas.

Pareciam dizer: _Venha amiga. Apoie-se em mim que eu te ajudo.

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Sabemos, por experiências anteriores, que aves muito debilitadas não têm vida longa em nosso viveiro. Nosso espaço foi projetado para receber e preparar animais para soltura. É um espaço rústico, que cobra de seus hóspedes força e vigor físico.

Ali ela não terá a proteção contra o vento, contra a chuva e nem mesmo contra alguns predadores que têm tamanho para invadir as telas, como pequenas cobras e até mesmo formigas de correição. Mas entendemos que qualquer tentativa é melhor que uma vida na gaiola.

E a natureza já mostrava, no primeiro dia da Patinha em nossas terras, que a vida pra ela não seria facilitada.

Embora estivéssemos em meados de abril, as águas de março, aquelas que fecham o verão, ainda não haviam caído e o céu carrancudo parecia sinalizar que estavam prestes a se derramarem.

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Mas, o que pra nós é um tempo fechado, para animais silvestres é um presente da natureza. A Patinha está livre agora. Não é a mesma liberdade que ela teve, mas talvez seja a única que poderá ter.

As últimas fotos foram feitas já de fora do viveiro, e mostravam que a nossa “codorninha” estava bem.

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Talvez não tenha vida longa, e nem desejamos isso. Na verdade, ela precisa de um tempo pra retomar um caminho interrompido e fechar o ciclo, mantendo viva a chama da liberdade.

Se não der mais pra fortalecer as asas, que possa ela fortalecer o espírito e recuperar o sonho de liberdade. Isso permitirá a ela se despedir da vida e renascer, livre como foi um dia.

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FVS 3

FVS e POLA

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