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Era uma vez uma colônia de pulgas. Mais de 500 indivíduos, todos fortes e saudáveis. Escolheram pra viver o corpo de uma cadelinha ainda filhote, com pouco mais de dois quilos e meio.

O sangue era bom e a pele macia, mas aquela hospedeira não tinha resistência para abrigar e alimentar tantas pulgas. Em poucos dias, o desequilíbrio já se fazia notar.

A lobinha perdeu quase todo o sangue do corpo, já estava com severa anemia e com sinais da infestação por todo o corpo. Já não tinha mais forças pra caminhar e seu corpo entrava em colapso, com febre alta e queda de pelo. Suas mucosas já estavam brancas, sem um único ponto rosado.

Ela foi encontrada, carregando no lombo toda a colônia, se arrastando com dificuldade no centro da pista, na orla da Lagoa da Pampulha. Os carros passavam muito próximos, colocando em risco a segurança de alguns dos membros da colônia, que acabavam caindo no asfalto quente em razão da superlotação na hospedeira.

A hospedeira precisaria passar com urgência por uma transfusão de sangue, ou a vida dos parasitas corria risco. Fizemos o resgate, mas a situação era tão grave que optamos por eutanasiar toda a colônia de pulgas e tentar salvar a hospedeira.

A moça foi internada e ficou 4 dias sob cuidado intenso. O tratamento precisava ser iniciado com a remoção completa dos parasitas e alimentação de qualidade, em abundância.

As primeiras horas seriam determinantes. Se ela se alimentasse bem e a febre cedesse, o tratamento seguiria com alguns medicamentos. Se ela estivesse muito fraca pra comer e a febre alta persistisse, a transfusão de sangue seria o caminho.

Os resultados do exame de sangue não poderiam ter sido piores. O caso era mesmo muito grave e ela não sobreviveria nem mais dois dias.

Irritações severas se espalhavam por todo o corpo. Sua pele era uma só massa inchada e vermelha. Não havia um só ponto onde as pulgas não tivessem picado.

Tratava-se de uma cadelinha, aparentemente mestiça de York com Pinscher, com 5 meses de vida e pesando apenas 2,5 quilos.

A fome era grande demais pra provocar qualquer dificuldade de alimentação. Comia de bocada qualquer coisa que fosse colocado na sua frente. De ração a esparadrapo, tudo ela engolia com pressa.

A febre cedeu na exata proporção em que as pulgas foram caindo.

Outros sinais nos davam uma boa noção de sua história. Uma ferida em uma das patinhas traseiras sugeria um atropelamento. A escoriação era grande, mas já estava totalmente cicatrizada. Nossa menina foi, desde muito cedo, uma semi-domiciliada. Cresceu com livre acesso à rua e esse foi o motivo de seu ferimento.

Depois de 4 dias internada e alguns gramas mais pesada, teve alta médica. Ela precisaria de sete dias de antibióticos e muitas e muitas vitaminas e suplementos, além de ração de boa qualidade e em grande quantidade.

Decidimos então dar a ela o nome de Pulguinha. Antes que nos crucifiquem, explicamos que o nome é provisório e tem por objetivos registrar sua história e despertar compaixão.

Outros sinais podiam ser também interpretados. Assim que deixou a clínica, ela chegou em nossa casa pulando e fazendo festa com todos os cães que encontrou pela frente, não importava o tamanho. Ao menor sinal de reprovação de um dos adultos, ela assumia uma postura submissa.

Isso deixava claro que ela tinha crescido entre lobos e conhecia muito bem as regras de uma matilha.

Já das pessoas, ela se aproximava com cautela. Corria e pedia colo, chegando mesmo a fazer festa, mas sempre com o rabinho entre as pernas. Mais um sinal muito fácil de ser entendido. A vontade de ganhar carinho era maior que o medo (no caso dela, a certeza) de uma agressão.

Mas esse problema estava fácil de se resolver. Seria só uma questão de tempo. Ela era carente demais pra recusar colo. Em dias ela aprenderia o que é carinho e afeto.

Foi recebida por aqui por uma dupla preparada para receber e socializar lobinhos. Não chorou uma única vez sequer. Pra ela, a companhia de outros lobos bastava.

Pintada e Estopa foram preparadas pela vida para receber e socializar outros cães. Elas são as mais sociáveis anfitriãs que qualquer protetor de animais sonharia ter em casa.

Receberam a Pulguinha como parte da matilha. Se falassem, diriam: _Seja bem vinda. Vamos cuidar de você. Você vai gostar de viver aqui.

Elas sabem que vieram ao mundo a trabalho. Quando a noite caiu, elas se acomodaram e dormiram o sono dos justos. Cama macia, quente e seca. A Pulguinha andava sobre os cobertores como se pisasse em ovos. Não estava acostumada com chão macio.

Pulguinha 5

No dia seguinte, era hora de conhecer o restante da matilha. Hanna e Duda também receberam bem a pequena Pulga. Duda e Pulga pareciam mãe e filha, embora a Pulguinha tenha mais cara de vira-lata.

E nada pode ser melhor pra integrar um cão a um novo ambiente do que uma seção de latição na porta da rua, uma refeição de grama e uma manhã inteira de brincadeiras.

Se o que passa lá fora é só o vento, não faz mal. Late-se  assim mesmo. E descobrimos que ela sabe latir. Discretamente, mas sabe.

Pulguinha já se mostrava adaptada e pronta pra participar de todas as atividades. Nem precisava de convite.

Em poucos dias os remédios e vitaminas já tinham provocado grandes transformações. Ela estava alegre e confiante. Sua pele ainda descamava, mas já não estava mais vermelha e nem inchada.

Em menos de dois dias já tinha perdido a vergonha. Já disputava o colo com a Duda e não dava paz a ninguém que passasse perto dela.

Ainda tem muitas vitaminas pela frente, mas já podemos pensar em decidir seu destino.

A única exigência é que os futuros donos não tenham muita sensibilidade nos dedos dos pés. As brincadeiras dela não doem, ou melhor, só dói um pouco, quando ela pega com dente fino na beirada da unha.

Mas ela já está trocando os dentes e, em mais uns 30 dias, todos os dentes finos já terão caído.

Colo também é essencial. Ela precisa de muito, pra aprender de vez as delícias da vida de um lobinho de estimação.

Sabe ficar quietinha no colo, sem atrapalhar o serviço de quem trabalha.

A pulguinha era sociável demais pra ser filha única. Quando mais numerosa a matilha, mais a vontade ela ficaria. Havia sido socializada em grupo e sentia-se segura entre lobos.

Assim seria a família ideal para a Pulguinha. Claro que crianças aí cairiam muito bem. Com o tempo elas virão.

Do outro lado da cidade, uma família especial esperava por ela. Susie, Cherrye e Thor sempre foram muito sociáveis, como lobos que já experimentaram o abandono ou a vida em um abrigo.

Leonardo e Carla são seus novos pais. Claro que qualquer novidade peluda costuma provocar uma certa desconfiança, mas a Pulguinha já se mostrou muito a vontade desde os primeiros minutos. A Susie ficou meio desconfiada, enquanto Thor e Cherrye buscaram a proteção da Carla.

Pulguinha adotada 2

E nada melhor para mostrar um final verdadeiramente feliz que fotos em família.

Carla e Leonardo são pessoas também envolvidas na proteção animal. Mesmo com o gesso da Carla, não poderiam existir braços melhores a acolhê-la.

A estada da Pulguinha em nossa casa não precisa ser esquecida. Afinal, ela foi feliz aqui. Mas é claro que ela merecia um nome mais carinhoso. Das pulgas ela não vai querer se lembrar mais.

De agora em diante, ela será chamada de Jade. Nas fotos abaixo, a criança já crescida, cheia de regalias.

Pra completar tudo isso, um feriadão na praia. Oh vida mais ou menos!

Obrigado aos amigos Carla e Leonardo por tão especial acolhida. Que a pequena Jade seja feliz e traga ainda mais alegria para a casa e a vida de vocês.

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