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Ele foi salvo três vezes. A primeira, apenas mais um resgate de um cão abandonado. Vivia nas ruas e recebia comida e água de uma protetora. Um dia, como já se podia prever, foi atropelado.

Foi resgatado, passou pelos procedimentos necessários e se recuperou. Como o adotante não apareceu, foi deixado em um lar temporário.

Esta sua segunda chance foi ainda pior que a primeira. Infelizmente, alguns lares temporários são ainda piores que as ruas. Ele foi mantido em uma corrente apertada, abrindo-lhe uma fenda no pescoço.

Foi resgatado pela segunda vez, novamente internado e atendido, até surgir um novo lar temporário, com prazo de validade pra terminar em mais alguns dias.

O prazo venceu e ele acabou sendo transferido para um abrigo de animais. Lá na Cão Viver, se recuperou, foi tratado com respeito e dignidade.

Apesar disso, ele se mostrava triste e abatido. Às vezes, nos parece que alguns lobos têm uma sensibilidade a mais e conseguem prever o próprio destino.

O Rafael tocava a vida. Chegou a fazer pose para algumas fotos do catálogo da ONG. Claro que ele estava sendo estimulado para que as lentes pudessem pegar o melhor ângulo.

É muito fácil ser profeta de fatos passados. Mas o semblante do Rafael fitando a protetora que o estimulava sugere que ele estivesse apenas rezando, como se dissesse: ___Seja feita a Vossa vontade!

O Rafael foi adotado. Todos ficaram felizes com a adoção, mas o retraído Rafael mostrava-se apenas resignado. Parecia apenas aceitar seu destino.

Vez ou outra, um lobo assim nos cruza o caminho. Muitas vezes, a reabilitação de cães arredios ocorre imediatamente após a adoção. Assim que se sentem amados e protegidos, eles se transformam.

Mas neste caso, ele parecia saber o que estava por vir. Poucas semanas depois da adoção, este foi o Rafael que a Cão Viver recebeu de volta.

Os levantamentos confirmaram que ele passou 30 dias comendo jornal e bebendo a própria saliva.

Ele já havia passado por muita coisa e aquele golpe foi duro demais.

Chegamos a preparar um novo anúncio, sugerindo que pra ele, talvez fosse menos arriscado terminar os dias no abrigo. Alertamos que, de agora pra frente, adoção, só se aparecesse alguém verdadeiramente especial na vida dele. Do contrário, que ficasse onde estava.

Enviamos também um recado aos adotantes: __Por favor, não nos procurem mais. Fiquem longe de nossos protegidos. Vocês precisam evoluir, antes de se sentirem aptos a receber um anjo em casa.

Apesar de tudo, achávamos que ele teria uma nova chance. A adotante especial que esperávamos até que apareceu, mas ele não viveu pra usufruir. Ele chegou a ser adotado e viveu 21 dias em companhia da Cíntia, que chegou a quase abandonar a faculdade pra se dedicar 24 horas por dia ao Rafael. Ela o carregava pela casa, mostrando tudo, apresentando-o aos outros amigos de 4 patas, conversando com ele e pedindo que ele reagisse. Em 21 dias, o Rafael teve mais colo que em toda a sua vida.

Ele retribuía da forma que podia, com os olhos. Mostrava que estava agradecido, que já a amava, mas estava fraco demais. Nesses 21 dias, ele percorreu clínicas, passou por internações, transfusões de sangue, muitos medicamentos, soro e tudo o que um cão não poderia gostar.

Tudo foi tentado. Não era só uma questão de honra salvá-lo. Ele foi amado verdadeiramente nestes últimos 21 dias de vida, como ainda não havia sido.

Mas não deu. Este último golpe foi duro demais. Nos últimos dias, ele deixava claro que não queria mais tentar, não tinha mais forças. Na verdade, o mundo não o merecia mais.

O que ficou foi um nó na garganta e um monte de perguntas sem respostas. Se eles não têm dívidas cármicas, por que? A quem a vida quis ensinar?

Só podemos pensar que somos nós é que precisávamos desta história. O Rafael foi mais um a dar a vida pra nos ENSINAR. (Preferi não usar o verbo SALVAR pra não gerar polêmica, embora tenha a mais absoluta convicção da divindade dessas criaturas).

Segue em paz amigo. E, por favor, nos perdoe. Precisamos ainda evoluir muito pra merecer um anjo como você.

Um resgate de Val Consolação: valbhmg@hotmail.com