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Sempre que recebemos um pedido de ajuda para casos extremos, precisamos nos preparar pro pior.

Mas nada é pior que ver animais tristes. E é o que mais se vê em abrigos e lugares onde são mantidos em grande quantidade.

Como de costume, disparo a câmera, voltando a lente pra tudo que se move, sem planejamento, sem me levar pela objetividade. Foco o que me chama atenção, o que me desperta sentimentos que ainda não consegui definir. Só mais tarde é que descubro o que a memória da câmera guardou.

No dia que estive pela primeira vez no abrigo, me chamou a atenção uma Pinscher esquelética e triste. Com mais de cem lobos ocupando um só território, era possível que alguns deles passassem fome. E quando vi a Riza, imaginei logo que ela talvez fosse a lobinha ômega daquela matilha.

Nos primeiros clicks, ela até que fez algumas poses, mas, assim que percebeu que mirávamos pra ela aquela coisa estranha, preferiu se afastar.

Já estamos calejados de ver animais debilitados em abrigos, mas alguns casos são mais difíceis. Ela não estava bem e não dava nem pra arriscar um diagnóstico.

Precisamos nos afastar e olhar para outro lado para que ela voltasse a agir com naturalidade. E a naturalidade que flagramos foi uma coisinha miúda e magricela catando grãos de ração espalhados pelo chão, jogados propositadamente para acalmar os brigões.

Chegamos a ouvir os gritinhos dela quando recebia um pisão ou um esbarrão mais forte.

Quando perguntamos quem era aquela lobinha e o que ela tinha, recebemos a explicação de que a Riza tinha uma espécie de incontinência e defecava seguidamente. Segundo a tutora, ela já havia sido examinada, tinha feito alguns exames e precisaria de uma cirurgia.

Explicou ainda que ela poderia viver muito bem em um terreiro, com espaço, terra ou grama, enfim, em um lugar onde sua incontinência não sujasse a casa.

Melhor não registrar aqui todos os nossos sentimentos. Como poderia a Riza viver em um terreiro, se a pequena era uma Pinscher, nascida pra ficar no colo e dormir na cama?

O problema da Riza não era pequeno e nem simples de resolver. Talvez alguma agressão, um atropelamento, talvez um problema intestinal.

Enfim, ela precisaria de, no mínimo, tratamento especializado, o que estava totalmente fora de cogitação. A única solução vislumbrada para a pequenina Riza seria a adoção por alguém que morasse em casa e a deixasse em uma área de terra, ou então que continuasse ali “até quando Deus deixar”.

Dias depois, chegava a hora de selecionar e vacinar alguns cães que seriam levados para a Feira da Brigada Planetária, organizada exclusivamente para os animais daquele abrigo.

E lá estava a Riza. A decisão de vaciná-la não foi nossa, mas ela tinha anjos da guarda com força pra exigir a vacina dela. Objetivamente, ela não teria chances de adoção, mas a vida tem nos ensinado a não subestimar o alcance da compaixão humana.

Claro que a vacina ali era o de menos. Se um adotante surgisse pra ela, ser ou não vacinada não faria nenhuma diferença. Mas, pra ela, era importante. O objetivo era deixa-la mais forte e menos suscetível a doenças.

Estava claro pra todos nós que a intenção daquela vacina era fortalecê-la e aumentar sua imunidade.

Quando fizemos o anúncio da feira, tínhamos 24 cães vacinados mas apenas 22 duas vagas e a Riza seria, seguramente, uma das que deixaríamos de levar. Afinal, a imagem daquela cadelinha em pele e osso defecando sem parar era chocante demais pra ser exposta em uma feira de adoções.

Desculpe pequenina, mas seu caminho talvez seja outro.

Mesmo sem a previsão de ser levada à feira, incluímos as fotos e a história dela na chamada. Sabíamos que anjos zelavam por ela. Talvez encontrássemos um deles em terra.

O caso da Riza era o mais grave, mas aquela feira reunia uma coleção de casos especiais. Assim que soltamos a matéria, começamos a receber mensagens de possíveis adotantes para muitos daqueles cãezinhos. Percebemos que a vida estava conduzindo nossa publicação e que ela estava chegando a pessoas especiais.

Dentre as várias mensagens, estava a da Rachel, que se apresentou como veterinária, dizendo que tinha outros dois pequenos em casa e que queria receber um dos cãezinhos especiais da feira. Esperava receber aquele que mais precisasse dela. Podia ser velhinho, mutilado, positivo para leishmaniose ou qualquer coisa. Disse apenas que precisava ser pequeno porque ela costumava viajar com seus cães, e que não dependesse de cirurgia, porque ela não era cirurgiã.

Notamos então, pelas mensagens recebidas, que os outros lobinhos tinham boas chances de serem adotados. A Riza era a que menores chances tinha.

Sem nenhum pudor, propusemos à Rachel a adoção da Riza, com a condição de que, se ela precisasse de cirurgia, buscaríamos os melhores especialistas e escolheríamos, dentre eles, um que fosse também protetor e que se dispusesse a contribuir, não inteiramente, mas com uma pequena parte.

Faríamos uma campanha especial e arrecadaríamos fundos apenas pra ela. A campanha teria por objetivo arrecadar apenas o suficiente para a cirurgia e nada mais.

A proposta foi facilmente aceita. Não era uma proposta irrecusável, não havia “vantagem” alguma naquela adoção, mas a Rachel deve ter entendido que ela era a única e última esperança da Riza.

A adoção aconteceu na véspera da feira, talvez para que nós não sentíssemos a angústia de preteri-la.

Fomos buscar a Riza em uma manhã de sexta-feira. Encontramos a mesma cadelinha assustada e triste. Acomodei-a sobre algumas folhas de jornal no bando do carro e partimos. No primeiro sinal vermelho, olhei pra trás e a vi sorrindo e abanando o rabinho. Não pude resistir, tirei a máquina e registrei o momento.

Eis aí, o primeiro sorriso da Riza, antes mesmo de chegar à nova casa.

A viagem era longa e ela acabou se acomodando no piso do carro.

Assim que chegamos, a Riza foi conhecer seu novo território. Cheirou cada canto, investigou cada novidade. Era tudo novo, mas ela não se sentiu intimidada. Ao contrário, sentiu-se em casa.

Logo depois, foi apresentada aos novos amigos, Negão e Luna. Eles olharam desconfiados, como se perguntassem: _”Qual é? Vai ter cachorro agora nessa casa?”

A pequena Riza estava cansada, não da viagem, mas da vida. Mesmo assim, ela parecia mais solta, mais livre, mais feliz, mesmo ainda não conhecendo direito a família que, de agora pra frente, será sua.

O sorriso largo já fazia parte da paisagem. Poucas vezes assistimos a uma adaptação tão rápida, ou melhor, tão instantânea. Se não foi um reencontro, foi algo planejado em outro plano.

E depois de registrarmos os momentos iniciais dela, chegou a hora de nos despedir. Ela veio a mim, lambeu minhas mãos, se esfregou e se despediu.

Foi logo buscar o colo que, de agora pra frente, será dela. Talvez quisesse nos mostrar que estava bem e que ali será feliz.

E que assim seja Riza.

A primeira mensagem que recebemos da Rachel foi em 26 de março. Foram poucos dias e poucas mensagens trocadas, até o resgata da Riza e sua chegada na nova casa.

Daí em diante, teve início uma luta pela vida.

Os primeiros exames clínicos não foram dos mais animadores. Riza sentia muita dor. Não era fácil sequer saber ao certo a origem da dor, pois ela gritava muito só de encostar.

Ela era uma cadelinha de colo, mas que não podia ser sequer tocada. Até mesmo os carinhos precisavam ser comedidos. Ela se mostrava tensa diante dos afagos. Colo e abraço apertado seriam tudo de bom pra qualquer lobinha como ela, mas, para a Riza, não dava.

Ela não tinha controle da defecação e o diagnóstico não era conclusivo. Pra piorar, estava muito magra, raquítica mesmo, e não tinha apetite. Defecava a cada minuto e, talvez em razão da dor intensa, acabou desenvolvendo o hábito da coprofagia.

Muitos exames foram feitos e, no lugar de diagnósticos, surgiram apenas mais problemas.

Em resumo, a vida da Riza era um intenso e constante sofrimento. Ela convivia com muita dor 24 horas por dia. Seu caso era, disparado, o mais grave daquele lugar. E Dona Tereza achava que tudo que ela precisava era de uma casa com terreiro. Acreditava que, ficando no terreiro, não sujaria a casa e poderia levar “vida normal”. Melhor não comentar isso.

Remédios diversos, vitaminas, boa ração, exames, antibióticos, sedação e lavagens intestinais passaram a fazer parte de sua rotina. Fraldas e colar elisabetano tornaram-se acessórios indispensáveis.

Era preciso segurá-la viva até que um diagnóstico fosse fechado. A cirurgia não estava descartada, mas ela precisaria se fortalecer um pouco, antes de um procedimento tão invasivo.

Por fim, um aumento repentino e significativo de volume na região anal, e um Ultra Som fecharam o diagnóstico. Ela tinha uma hérnia que, embora incomum em fêmeas, poderia ter como causa um trauma, como atropelamento ou agressão. A solução seria cirúrgica.

O diagnóstico conclusivo não foi a solução. Ao contrário, o prognóstico e as chances de sobrevivência da Riza se esvaiam a cada dia.

Precisávamos de um cirurgião experiente, com competência e disposição pra assumir o caso. E quem se ofereceu foi o Dr. Marcelo Lobão, da Clínica Veterinária de Urgência. Além dos melhores donos do mundo, a Riza teria agora uma assistência médica de primeira.

A cirurgia aconteceu e correu tudo bem, apesar do prognóstico ruim. Infelizmente, os resultados não foram os esperados. O sofrimento da Riza ganhou ainda mais força no pós-operatório, já que, com o diagnóstico provável de leishmaniose e um sem número de outros problemas, sua recuperação e cicatrização foram mais demoradas.

Passados alguns dias, ela continuava com dificuldade para defecar. Mais lavagem intestinal, mais sedação, mais remédios e exames. Um dos problemas havia sido resolvido na cirurgia, mas a causa de seu mal não era uma só. Outros problemas foram diagnosticados.

A essa altura, a eutanásia começava a ser cogitada. Não havia justificativa para preservar uma vida de sofrimento. Se fosse possível garantir o mínimo de qualidade de vida à Riza, justificava a insistência, mas mantê-la viva em constante sofrimento, não era o que ela merecia.

Novos exames e novos estudos foram realizados, na busca de uma cura definitiva para a Riza. Rachel já vivia o luto de uma provável perda, quando recebeu uma ligação do Dr. Marcelo, sugerindo uma segunda cirurgia, como derradeira tentativa de salvar a pequenina Riza.

Não sabemos o que aconteceu nos momentos que antecederam aquele telefonema. Não importa se a solução veio da experiência e competência de um profissional capaz de virar uma noite buscando uma cura, ou se foi por simples inspiração divina.

A segunda cirurgia aconteceu, mais uma vez, trazendo para a Riza um pós-cirúrgico difícil. Mas aquela não foi uma cirurgia comum. Milagres também podem ser operados através das mãos de um médico.

Os dias se passaram e as mudanças começaram a ser notadas. Riza começou a ganhar peso, comer bem e defecar normalmente, sem dificuldade e sem dor. Quando a experiência e a capacidade encontram a dedicação e a fé, resultados assim acontecem.

A luta pela vida continua, mas agora ela tem qualidade. Não sente mais dor e já leva vida quase normal. Já até arrisca algumas brincadeiras.

Ela não está completamente curada. Periodicamente, precisará passar por alguns procedimentos incômodos, que farão parte de sua rotina. Talvez ela venha a precisar de acupuntura e mais algumas coisinhas. Mas já não temos mais dúvidas de que os resultados serão os melhores. Se ela terá vida longa também não importa. Ela agora terá uma vida. Vai poder frequentar a cama da Rachel, com toda a mordomia.

E nós continuamos acreditando em milagres.

ATUALIZANDO: A Riza ainda não está totalmente recuperada, mas agora já vive. Nas fotos abaixo, buscando gravetos na cachoeira. Segundo a Rachel ela adora os passeios no campo. Na segunda, em uma seção de acupuntura.

Riza adotada 270515

A Clínica Veterinária de Urgência deu à Riza a melhor assistência médica que ela poderia ter. Os valores cobrados não cobrem sequer os custos das duas cirurgias. Muitos dos medicamentos que a Riza utilizou foram doados pela ONG SOS Bichos (http://rockbicho.org)

Fica registrado aqui nosso muito obrigado à Clínica Veterinária de Urgência, em especial ao Dr. Marcelo Lobão, e claro, a cada funcionário, que recebeu a Riza como uma celebridade do mundo canino.