Tweetar

Compartilhar



Este cãozinho foi drogado, amarrado com as 4 patas juntas, fechado dentro de um saco e jogado em um córrego. Foi só isto. 

Precisamos ceder ao impulso de adjetivar os responsáveis, mas é impossível não tentar imaginar o inferno onde deveriam ser julgados.

Ultimamente, temos encontrado tantas pessoas fazendo trabalho voluntário com animais, tantos animais resgatados, tantos adotados, tantos potinhos com ração e água espalhados nas calçadas, que temos a impressão de que o mundo está mudando (pra melhor).

O trabalho de proteção de animais tem sido reconhecido e até admirado pela sociedade. Por isto, é crescente o número de protetores agindo, e com isto, crescente também o número de animais ajudados.

Mas uma história como a do Sansão é um “balde de água fria” em nossos sonhos.

Sonhamos com o dia em que todos os humanos sobre a terra serão protetores de animais. Temos absoluta convicção de que este dia chegará.

Mas como ser tão otimista se ainda nos deparamos com história assim?

A resposta é simples: Onde houver uma atrocidade como esta, sempre haverá um protetor por perto.

E se estamos agora podendo “ensaiar” um final feliz, foi porque neste caso também havia um protetor por perto.

Vamos à história:

Em um final de tarde, uma protetora de animais observa de longe um aglomerado de pessoas agitadas, comentando sobre alguma coisa dentro de um córrego.

Ao se aproximar, vê um saco se movimentando de um lado pro outro, com gemidos e latidos. Todos observavam, mas ninguém agia.

A primeira reação foi a de ligar para o corpo de bombeiros. Afinal, desde pequenos somos levados a confiar na corporação, e a enxergá-los como heróis, salvadores de vidas. 

Lego engano. Sem tirar o mérito desta corporação e dos profissionais que lá atuam, as autoridades consideram “vida” a merecer o gasto do dinheiro público, somente a vida humana. Ainda desprezam a vida animal.

Inúmeros são os pedidos de socorro dirigidos ao Corpo de Bombeiros, que não são atendidos, sob a alegação de que não poderiam deslocar uma viatura, ou uma equipe, por causa de um animal. Precisam continuar dentro dos quartéis, esperando por um chamado verdadeiramente “importante”.

Há de vir o dia em que os “Protetores de animais” serão tantos e tão unidos, que terão força pra eleger governantes. Neste dia, talvez em troca de votos, haverá um olhar diferenciado para os animais.

Voltando à história, já prevendo a recusa de ajuda, como em casos anteriores, a protetora sequer se deu ao trabalho de tentar mais uma vez. A solução foi conseguir ajuda ali entre os observadores. Naquela multidão, deveria haver pessoas sensíveis o suficiente para ajudar.

Dois rapazes se prontificaram e desceram até o córrego, que por sorte estava vazio.

Ao abrir o saco, aparece um cãozinho preto, com as quatro patas amarradas, os olhos esbugalhados e arregalados, com as pupilas muito dilatadas. Não parecia ser apenas medo ou susto.

Claro que assustado como estava, tentaria morder a qualquer um que se aproximasse. Afinal, as referências de nossa espécie eram as piores possíveis.

Mas os cães também reconhecem um protetor. Alguns minutos de carinho e conversa no pé do ouvido foram suficientes pra que ele se acalmasse e percebesse que agora estava salvo. 

Ele foi desamarrado e nele colocada uma coleira com guia, bem confortável. Precisamos explicar que protetores costumam carregar estas coisas.  Afinal, nunca se sabe quando precisarão ser usadas.

A próxima etapa seria conseguir um taxi que se dispusesse a levá-lo. Ali também haveria alguma resistência, já que se tratava de um cãozinho sem raça, muito sujo e nada cheiroso.

Mas a verdade é que os protetores estão se espalhando e já são encontrados por todo lado. Entre taxistas também existem vários. E eles sempre aparecem onde são mais necessários.

Foi levado às pressas a uma clínica veterinária. Os exames confirmaram as suspeitas iniciais. Ele havia de fato sido drogado, antes de ser amarrado e colocado dentro do saco, talvez até mesmo para diminuir suas reações.

Além disto, possuía muitas feridas, sinais de pancadas e agressões, além de cortes pelo corpo. Ele apanhou muito antes de ser colocado dentro daquele saco.

Tinha muitos fungos pelo corpo, uma forte conjuntivite que já infestava os dois olhos, e cortes nas 4 patas, dois deles inflamados e infeccionados.

Também uma fratura no osso peniano indicava que ele havia levado uma forte pancada na região genital.

Pra arrematar, uma grande quantidade de bichos de pé.

A faxina precisou ser grande. Começou com a retirada dos bichos de pé, exames clínicos e aplicação de fortes medicamentos, de analgésicos a anti-inflamatórios e antibióticos.

Iniciaram-se os tratamentos, com vários exames, ultra-som para verificar as lesões genitais, hemograma completo, exame de leishmaniose, etc.

Os exames mostraram que ele tinha anemia e babésia. Por sorte, doenças de fácil tratamento. O exame de Leishmaniose deu negativo. Ele precisava de cuidados, vacinas, vermífugo, alimentação adequada e tratamento para a babésia, mas ao final, ficaria bom.

Um período de tratamento e internação foi suficiente pra que se recuperasse completamente.

Já engordou quase sete quilos e está pronto para adoção.

É muito dócil e carinhoso. Já esqueceu as atrocidades do passado. É de porte médio e tem aproximadamente dois anos.

Uma vez recuperado, precisava ser adotado. Mas não poderia ser um adotante qualquer. Ele merecia alguém  especial, alguém à sua altura.

Sansão precisava de alguém que o ensinasse o que é ser um cão de estimação. Ele precisa entender que aquelas pessoas que conheceu no passado, e que lhe fizeram tão mal, não são mais deste mundo. Estão de partida e não mais voltarão.   

  

Demorou, mas o final feliz veio. Valeu a pena esperar. As fotos dizem tudo.

Resgate da protetora Elizângela Geo