Tweetar

Compartilhar



Olá, eu sou a Santinha.

Fui abandonada num “recôncavo” de rocha, na margem da MG10, num santuário para Nossa Senhora Aparecida, na subida da Serra do Cipó, onde tem uma pequena nascente. Quase fui atropelada várias vezes, pois a estrada ali, nem acostamento tem.

Pelo menos tinha água para beber. Passei muita fome, não tinha nenhuma casa por perto. Não acredito que tenha sido deixada ali por causa da água. Afinal, se meus donos me deixaram num lugar daqueles, a intenção não poderia ser outra senão acabar com minha vida.

Sou novinha, não sei caçar. Fui ficando cada vez mais fraca e magra. Dava para contar todas as vértebras da minha coluna e todas as minhas costelas.

Passei muito frio. Perto do riacho é muito úmido, sem contar a mata. Qualquer pessoa que se aproximasse de mim, eu fugia. Peguei muito carrapato, pulga e até bicho de pé.

Tenho muito medo das pessoas e sempre acho que vou apanhar. Abano o rabinho para mostrar que sou boa, mas tenho medo e fujo. Gosto de humanos. Minha espécie evoluiu pra viver em companhia de humanos, pra amá-los mais que a nós mesmos, mas no meu caso, só me mostraram o lado ruim dos humanos.

Em um dia (08/06/11), já não tinha mais esperanças, quando um moço me viu, parou o carro e deixou pra mim um tanto de ração. No outro dia ele apareceu de novo e deixou sobras de comida. Comi muito!

Este moço tinha que voltar para BH, mas antes de ir ele avisou alguém que talvez pudesse me ajudar. Então chegou por lá uma moça com o marido e parou o carro. Tive medo, fugi, mas vi que ela deixou comida.

No sábado, ela voltou com outras pessoas que ficaram me procurando pela mata. Eu estava bem escondida de tanto medo, mas vi que tinha mais comida me esperando.

No domingo ela apareceu de novo com o marido, atravessei a estrada, sem saber o risco que estava correndo de ser atropelada e desci mato afora. Eles deixaram comida em grande quantidade, pois só poderiam voltar 5 dias depois!

Dia 17, estava deitada, já sem forças para me levantar de tão fraca, quando eles aparecerem de novo. Eu já tinha desistido. Não ofereci resistência. Lá mesmo o moço começou a tirar uns carrapatos enormes no meu corpo, me carregou e me colocou no carro. Estava quentinho lá dentro e me senti bem e protegida, pela primeira vez em minha vida.

Quando eles chegaram, me levaram para um local protegido, arranjaram um colchãozinho forrado com um pano macio e um cobertor. Me deram muita comida e água. Dormi sem medo, sem fome e sem passar frio.

No outro dia, tomei banho, tirei todos os carrapatos, pulgas e bichos de pé. Tomei vermífugo e comi muito. Ganhei o nome de Santinha.

Tenho pêlo preto, sou de porte médio, tenho olhos amarelos muito bonitos, e sou fashion! pois tenho “ botas”de cor parda nas 4 patas. Pareço “um lobo invertido”, pois lobo tem patas pretas e corpo amarelado, e eu tenho as cores ao contrário.

Meus protetores me enviaram para uma veterinária em Lagoa Santa para vacinar e fazer exames, mas minha saúde está ótima. Meu problema era somente muita, mas muita  fome mesmo. Eles estão procurando alguém que queira me adotar. Sou dócil, meiga, caladinha, e muito bonitinha.

E se alguém acha que, por causa daquela dificuldade toda no resgate, a Santinha é arredia e intolerante à companhia humana, vejam as fotos atuais.

Agora, bem alimentada e tratada com carinho e respeito, mostra seu verdadeiro lado. Nasceu pra ser a melhor companhia que alguém poderia ter. Só estava assustada. Infelizmente, ela só conhecia o pior lado de nossa espécie.

Mas a vida sempre dá uma segunda chance. A dela não poderia ser melhor. Desde o resgate, ficou hospedada em uma fazenda, onde aguardava por um adotante. O tempo passou, ela foi ficando, se enturmando com os outros cachorros e conquistou seus salvadores. O que pode ser melhor para um cachorro resgatado que ser adotado por seus salvadores? Final feliz melhor não poderia haver.

jun11-0046-3

Um resgate de Lucas Coelho <cycnoches@gmail.com>

Comentários