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Estas duas foram protagonistas de duas histórias diferentes, em épocas diferentes. Mas quis a vida transformar as duas histórias em uma só. Seus caminhos se cruzaram. Precisamos, no entanto, contar separadamente cada uma delas.

Quarta-feira, dia 12 de Janeiro de 2011, 08:00 horas. Avenida Carlos Luz (Catalão). Altura do viaduto da Newton Paiva.

Pra quem conhece este cenário, sabe que não é nada adequado para um cão. Mesmo cães experientes, treinados pela vida a atravessar uma rua olhando para os dois lados, entregam suas vidas ali. Os carros vêm de todos os lados, em grande quantidade e em alta velocidade. Para qualquer cão, aquilo é um verdadeiro caos.

No dia e hora acima, estava em direção ao trabalho, quando vejo no canteiro central, uma cadelinha de raça, branca e preta, bem pequena, deitada sob a sombra de uma árvore. Só podia ter sido atropelada. Não seria possível ter chegado ali sem atravessar na frente dos carros. E os carros ali não costumam freiar para animais. Afinal, ninguém se importa. É só um cão.

Retornei no viaduto à frente, e estacionei na Av. Carlos Luz, no ponto exato onde a pequena estava deitada. Não podia me aproximar, ou poderia fazê-la correr para a pista. Mas não tive tempo sequer de traçar um plano. A cadelinha simplesmente levantou, e começou a atravessar a rua em direção ao passeio onde eu estava.

Mas os carros vinham chegando em alta velocidade, e, sem qualquer experiência ou noção de rua, ela simplesmente começou a correr no centro da pista, na frente dos carros. Arranquei meu carro e tentei segui-la. Como ela corria em zig-zag, passando de uma faixa a outra, o atropelamento iria acontecer, bem ali na minha frente.

Decidi andar em zig-zag, tentando obstruir o trânsito. Depois de muitos sustos, um carro da BHTrans se aproximou, certamente atraído pelas manobras perigosas que eu fazia logo à frente. Ao perceberem o que estava ocorrendo, os agentes passaram a me ajudar. Ligaram o sinalizador e passaram a andar logo atrás de mim, tentando evitar um acidente.

Depois de algum tempo, vários outros motoristas se uniram à causa. Ligaram os alertas e tentavam bloquear o trânsito. A esta altura, éramos vários carros, todos com alertas ligados e andando a baixa velocidade, seguindo aquela maluca que corria desnorteada à frente.

Vez ou outra, alguém conseguia furar o bloqueio e passava por aquela cadelinha levantando poeira, e assustando-a ainda mais. Pedestres e motoristas tentavam pegá-la, sem êxito. Ela estava muito assustada e não permitia a aproximação de ninguém. Vez ou outra corria pelo passeio, o que nos dava momentos de tranquilidade, embora logo à frente voltasse novamente para a pista.

Correu nestas condições até a portaria da UFMG (Distância 3,5km). Deu a volta no jardim do canteiro central e chegou à outra pista, iniciando mais uma corrida em sentido centro, mais uma vez, na frente dos carros. Vez ou outra parava e se deitava na frente dos carros, mas bastava que alguém abrisse a porta pra tentar pegá-la, e a corrida reiniciava.

Eu dei a volta e continuei o cerco, seguido pelos agentes da BHTrans, que também abraçaram a mesma causa. Mais uma vez, a tentativa de segurar o trânsito angariou novos anônimos, que também se juntaram à causa. Não eram os mesmos já que a esta altura já estávamos no sentido Bairro/Centro.

Na altura do viaduto do Shopping Del Rey, mais Um quilômetro e meio em direção ao centro, o trânsito parou atrás da cadelinha, que havia deitado na pista, já esgotada. Neste momento uma pessoa desceu do carro e tentou pegá-la, mas ela estava muito assustada e o atacou. Foi a oportunidade perfeita. Consegui segurá-la, apesar dos protestos e de várias mordidas que me furaram pelo menos três dedos. Quando a coloquei no banco do carro, ela deitou e se acalmou, aceitando o carinho, já esquecida que havia acabado de me morder.

Na clínica ficou por 4 dias, oportunidade em que tomou um bom banho, fez um tratamento contra parasitas, e alguns exames de saúde, que ficariam prontos em alguns dias.

Voltando ao local, medi a distância percorrida. Mais de cinco Quilômetros, em pouco mais de uma hora. Este foi o tempo e a distância deste resgate. Cheguei a pensar em desistir, pra não assistir a cena de atropelamento que estava prestes a acontecer bem na minha frente. Nada mais angustiante que aquilo. Torcia pra que o atropelamento não lhe tirasse a vida, mas que apenas a imobilizasse por alguns segundos, suficientes apenas para o resgate. Não deixando sequelas, estaria tudo bem.

Mas por sorte, nada aconteceu. Ela saiu intacta daquele episódio.

Aquele resgate deixou duas lições: A primeira, de que sempre vale a pena tentar até o fim, qualquer que seja este fim.

A segunda, ao contrário do que muitos de nós protetores acreditamos, muita gente se importa, e se importa muito. Não tive tempo sequer pra perguntar aos agentes da BHTrans seus nomes, mas quero deixar aqui o nosso mais sincero agradecimento pela ajuda. Foram indispensáveis.

O mesmo agradecimento, a cada um que ligou o alerta do carro e tentou, de alguma forma, ajudar aquela alma. A cada um que colocou a pressa e os compromissos de lado, simplesmente para diminuir a velocidade e respeitar aquela tentativa de salvamento.

A estas pessoas, que de alguma forma participaram ou simplesmente assistiram aquela angustiante cena, saibam que tudo deu certo. A pequena Luma está ótima, e protagonizou uma história que ficará registrada.

Voltando à história, achávamos que o final feliz estava próximo, mas a luta pela vida ainda teria alguns capítulos.

Exames de sangue diagnosticaram uma doença muito grave chamada Erlichiose canina, que impôs a ela um tratamento de mais de 2 meses.

Embora tivesse sido bem recebida por uma matilha animada, a pequena Luma demonstrava ter maior apreço por companhia humana. Ela precisava de uma matilha mista. Precisaria encontrar adotantes que dessem a ela a oportunidade de conviver com pessoas dentro de casa.

Foi disponibilizada para adoção e, como já se podia esperar, muitas pessoas se interessaram. Mas ela precisava de mais. Não bastava apenas um bom adotante. Ela merecia espaço, convívio dentro de casa, companhia de outros cães, mas principalmente, de crianças e adultos que gostassem de animais.

O tratamento foi longo, suficiente pra que tivéssemos tempo de escolher o melhor adotante.

Nos primeiros dias após o resgate, nem mesmo a turma da bagunça (Pintada, Estopa e Hanna) conseguia desvirtuá-la.

Tínhamos esperanças de que aquela cadelinha comportada pudesse ensinar boas maneiras à nossa matilha. Mas aconteceu exatamente o contrário. Três dias de estágio foram suficientes. Em pouco tempo ela já era parte daquela matilha.

Estava muito feliz e adaptada. Achava que aqui era a sua nova casa. Uma semana depois de sua chegada, já completamente à vontade, resolveu mostrar mais uma de suas habilidades. Ao ver as crianças brincando na piscina, decidiu fazer parte da festa. Pulou para a confusão e nadou como um peixe. Ao sair, corria, pulava e se sacudia, esbanjando a alegria de quem havia descoberto a melhor coisa do mundo.

A pequena Luma nasceu de novo. Se tinha mesmo 7 vidas, gastou 5 naqueles 5 Quilômetros, e a 6ª no tratamento para Erlichia. De qualquer forma, ainda lhe restava a 7ª Vida, que precisaria ser muito especial e bem vivida.

Depois de uma história destas, acreditávamos que a Luma devia ter alguma missão especial. Afinal, nenhuma criatura é contemplada com uma segunda chance se não for por um propósito divino.

Em mais alguns dias, tivemos mais uma surpresa com a Luma. Descobrimos que ela era fascinada por filhotes.

Sua missão? Sem dívida ela nasceu pra ser cão de companhia. Estava pronta pra adoção e a vida se encarregaria de conduzi-la ao lugar certo.

Alguns meses antes, teve início a história do resgate da Teté.

Ela não chegou a ver a realidade das ruas. Quando resgatada com sua mãe e mais três irmãozinhos, ainda não havia aberto os olhos. Apesar disto, sua história começou de uma forma muito triste.

Pra conhecê-la, precisamos contar a história da Princess, sua mãe.

A Princess é uma poodle branca. Ela já teve uma boa vida, mas algumas reviravoltas a fizeram cair nas ruas. Teve alguns donos, mas nenhum que valesse a pena.

Sua última dona, a recolher ainda prenhe, na esperança de vender os filhotes. Mas os pequenos eram filhos de vira-latas e nasceram pretinhos, sem a estirpe da mãe e sem valor comercial. Foi jogada nas ruas com quatro filhotinhos recém nascidos. Sem nenhum instinto de sobrevivência nas ruas, improvisou um ninho escavado debaixo de alguns arbustos, infestado de pulgas e carrapatos.

Assim viveram a Teté e seus três irmãozinhos, por aproximadamente 10 dias, até o resgate.

Depois do resgate, tudo mudou. Eles cresceram fortes e felizes. Todos foram adotados, inclusive a Princess, que hoje dorme dentro de casa, em uma almofada especialmente preparada pra ela, juntamente com outros três cãezinhos pequenos.

As fotos abaixo mostram a sequência da história acima, desde o início.

Pra conhecer a história completa da Princess, com todas as fotos, click no link

http://oloboalfa.com.br/princess-e-seus-filhotes/

Todos foram adotados a ganharam uma segunda e maravilhosa oportunidade de vida.

Mas quis a vida que a Teté, como passou a ser chamada a Xanti depois da adoção, precisasse ser novamente doada, depois de mais de 5 meses. E foi aí que os caminhos da Teté e Luma começaram a tomar a mesma direção.

Ela já estava com 7 meses de vida, e havia ficado pequena, pesando pouco mais de 5 Kilos. Era esperta e brincalhona. Mesmo sendo filhote de uma Poodle, a Teté era uma vira-lata legítima.

Tete e Luma8

A Mariana estava à procura de um cãozinho pra viver com sua família, como parte dela. Oferecia um bom espaço, uma casa cheia, com 3 crianças, e o mais importante, muito carinho e disposição pra cuidar de um cãozinho.

Depois de muito pesquisar e procurar por seu cão ideal, encontrou não um, mas dois anúncios que lhe chamaram muita atenção. Embora tivesse a intenção de adotar apenas um, as histórias lhe sensibilizaram e não precisou de muito pra tomar a decisão certa. Adotaria as duas.

A Teté chegou em sua casa muito abatida, precisando de cuidados. Não parecia ser o que a Mariana esperava. Afinal, ela queria mesmo um cãozinho alegre e brincalhão. Mas naquela casa, a pequena Teté encontraria donos compreensivos que saberiam dar a ela o tempo necessário pra que se ambientasse.

No dia seguinte, chegaria em sua casa a Luma.

Assim que se viram, fizemos as apresentações e aguardamos uma socialização que, em média, poderia durar alguns dias.

Embora a Luma já fosse adulta, a Teté ainda era jovem, e não demorou muito pra que ela soltasse o filhote que havia nela, mas que parecia ter sido esquecido.

Em minutos, a Teté já estava pulando sobre a Luma, chamando-a pra brincar. A Luma por sua vez, também precisava de um tempo.

E assim, como no encontro de dois rios, as duas passaram a escrever uma nova história, muito mais intensa. Não ganharam apenas uma matilha. Ganharam uma família. Teriam direito a dormir dentro de casa, e teriam a companhia permanente de três crianças, Victória, Túlio e Lisandra, que desde cedo, foram ensinadas a respeitar os animais.

A propósito, também teriam o direito a momentos de vida livre. A família tinha o hábito de passear no campo, e as duas seriam incluídas na bagagem. Nada poderia ser melhor que isto. É essa a vida que todos os cães deveriam ter. Infelizmente, apenas alguns poucos nascem merecedores de tanta felicidade. Talvez elas tivessem algo especial.

A Xanti, agora Teté, tinha nascido pretinha com uma manchinha branca no peito em forma de Cruz. E a Luma nasceu com uma estrela branca em algum lugar. (Essa estrela deve existir, embora ninguém tenha descoberto onde).

Na verdade, não era nada disto. Não precisamos procurar explicação pra tanta sorte, mesmo porque, nem acreditamos ser caso de sorte. Teté e Luma não são mais especiais que tantos outros que terminam suas histórias nas ruas. Mas acreditamos que uma grande mudança está acontecendo.

Não são os cães adotados os sortudos, mas nós humanos é que estamos evoluindo, e com isto, descobrindo os prazeres de uma vida entre estas criaturas, e o mais importante, a necessidade e vontade de ampará-los. É impossível tentar descrever.

Paraísos assim, como aquela casa, foram feitos para os cães, mas eles nem sempre os encontram, ou nem sempre estes paraísos abrem suas portas a eles.

Geralmente, as despedidas costumam ser tristes e sofridas, recheadas de apreensão, dúvida e medo. Afinal, a escolha do adotante é a parte mais importante de todo o processo. Erros nesta fase costumam ser desastrosos.

Mas aquela despedida não foi difícil. Sabia que todas as voltas da vida conduziram aquelas duas cadelinhas para aquele lugar, que há muito estava sendo preparado pra elas. Saí daquela casa com a convicção de que as duas estariam melhor ali que em minha própria casa. Nada pode ser melhor que isto pra um protetor.

E é com muita satisfação que mostramos a nova família da Teté e da Luma. As três crianças, Victória, Túlio e Lisandra estão adorando a convivência com estas duas mocinhas. Final mais feliz que este não seria possível.

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