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A primeira vez que estivemos na SMPA foi em Janeiro de 2013. Foi um dia pesado. A SMPA estava (e continua) sob investigação. As denúncias falavam em morte e sofrimento, palco de atrocidades, circo dos horrores.

Culpa de quem? De uma sociedade inteira que os abandona e os rejeita, de um poder público corrupto e inoperante, de um passado desonesto, de sujeira varrida para debaixo do tapete, da banalização do mal, do medo de se operar mudanças, da falta de compromisso com a vida, de omissão e descaso de toda a espécie humana.

Se existem culpados, também os queremos presos. Confiamos na lei do retorno e no castigo que está a caminho, para cada um que merecer. Como não temos a competência para julgar, deixaremos essa parte a cargo da vida.

Mais uma vez, deixamos claro que nossa intenção sempre foi ajudar os animais. Não vamos engrossar denúncias e não temos satisfações a dar àqueles que querem ver o circo pegar fogo, com os animais lá dentro.

O Projeto O Lobo Alfa foi idealizado com certas regras de conduta, às quais todos nós voluntários precisamos nos submeter.

Estivemos afastados da SMPA e talvez precisemos nos manter assim por mais algum tempo. Outros desafios maiores nos chegaram. Outras etapas do Projeto O Lobo Alfa estão em fase final e nos consumindo mais tempo do que dispomos.

A SMPA precisa avançar, mas também precisa de ajuda externa. Continua precisando de voluntários e pessoas dispostas a fazer algo pelos animais que não têm culpa por serem rejeitados.

A vida daqueles animais está nas mãos de cada um que se dispôs a estar ali, seja qual for a intenção dessa estada, e também daqueles que um dia pensaram em ajudar, mas continuam adiando as ações, aguardando “momento mais oportuno”.

Enquanto esse momento oportuno não chega, muitos continuam sucumbindo, perdendo a esperança, morrendo de tristeza, nas brigas noturnas, ou em razão das doenças que se proliferam em muitos abrigos.

Cada voluntário, cada funcionário, cada diretor é responsável pelo que acontece lá dentro. E que a vida se encarregue de dar a cada um deles o estímulo que precisam pra fazer o que é certo. As coisas caminham. O convênio com o CCZ está de volta e hoje os animais estão vacinados contra raiva, microchipados, com exames de saúde em dia e castrados.

Ainda falta muito. Faltam voluntários, falta ração de qualidade, faltam contas equilibradas, faltam vacinas regulares pra todos eles, falta descontaminação dos ambientes.

Pior que tudo isso, continua faltando o mais importante: os adotantes. Nada que for feito pelos animais terá valido a pena, se eles não tiverem a oportunidade de deixarem o abrigo.

Continuaremos, como sempre estivemos, focando apenas os animais. Mesmo afastados em razão de outros afazeres, não esqueceremos aqueles que continuaram lá e os que, infelizmente, continuam chegando, aos montes.

Não vamos nos esquecer deles e nem permitir que as pessoas se esqueçam. Também não é uma despedida. É certo que voltaremos à SMPA muitas outras vezes, mas precisamos organizar e redividir o tempo, de forma a poder ajudar outros animais fora dos muros azuis.

Este não será um apelo dramático, mas um final feliz com sabor de “quero mais”.

Quanto o vimos pela primeira vez, já estávamos esgotados com tanta tristeza e com pouco espaço na memória da máquina. Com tantos cãezinhos especiais e “adotáveis”, pra que insistir em tirar fotos no canil dos cegos, velhos e mutilados?

A cena era angustiante demais pra nos permitir ficar ali muito tempo. Um cachorro sem uma perna, com a outra bamba e sem mobilidade, que ficava todo o tempo levantando e caindo de frente a um portão de grades enferrujadas, tentando se equilibrar nas duas pernas traseiras, únicas que sobraram inteiras.

As fotos foram tiradas sem muito entusiasmo, como se apenas cumpríssemos tabela. Não conseguimos, naquele momento, enxergar pra ele um futuro diferente que não fosse morrer ali.

Assim que descarregamos as fotos e iniciamos a preparação da primeira matéria, nos arrependemos de não ter dado mais atenção a ele. Não era justo selarmos seu destino com nossa desesperança.

Então, prometemos que, na primeira oportunidade, faríamos as melhores fotos que pudéssemos. Daquele dia em diante, ele passaria a se chamar Tobi e não desistiríamos dele. No dia do mutirão de castração, demos a ele o “book” fotográfico que ele merecia.

Registramos o Tobi reivindicando a atenção dos voluntários que lá estavam com uma agulha nas mãos.

Tobi 2

Registramos o pedido desesperado de atenção. Ele queria receber o toque de mãos humanas, mesmo que fosse pra apenas lhe enfiar uma agulha.

Tobi 3

Claro que ele recebeu muito mais que apenas uma vacina. Foi tratado com carinho, com zelo, com dedicação. Ele recebeu afeto, coisa que talvez não conhecesse ainda.

Tobi 4

Como não se sensibilizar com um cãozinho naquelas condições? Apesar de toda a limitação, ele era dócil, muito carinhoso e esperto. E quem chegava perto se encantava.

Tobi 5

Quando as meninas deixaram o canil, ele tentou segui-las.

Tobi 6

Mas o conto de fadas, naquele dia, chegou ao fim. Ainda não era daquela vez que ele deixaria o abrigo. Era só uma vacina. Mas a esperança continuaria acesa.

Tobi 7

Um tempo depois, nova matéria na SMPA e mais algumas fotos do Tobi. Ele continuava lá e nós havíamos prometido que não esqueceríamos dele.

Tobi 8

Na verdade, apesar de todo o empenho, o Tobi não era o que se podia chamar de cãozinho bonzinho. Um lobo alfa com duas pernas e meia e com a convicção de que tinha cinco pernas inteiras.

Não estava ainda castrado e isso fazia dele um encrenqueiro daqueles.

Faltava então prepará-lo para a adoção. A castração veio em um mutirão oferecido pelos professores e alunos da UFMG.

Tobi 9

Naquele dia, ele parecia tranquilo, apesar do que o esperava. Parecia saber que tudo aquilo era para que ele tivesse melhores chances de deixar o abrigo.

Na porta do hospital da UFMG, ele se deitou e recebeu afagos da Tatiane, voluntária na SMPA. Essa informação é importante, porque ali o futuro dele começava a ser escrito.

Tobi 10

Da equipe da UFMG, ele recebeu muito mais que cuidados médicos. Ele e todos os outros que lá estiveram, receberam boas-vindas, afagos e votos de felicidade.

Tobi 11

Chegaram ao abrigo no fim da tarde de sábado, com colares no pescoço e ainda exaustos. O dia não tinha sido fácil pra eles também.

Tobi 12

Você, Tobi, é a Luz no fim do túnel pra todos os outros. Nenhum cãozinho de abrigo teria menos chances de adoção que você.

Precisávamos insistir em sua adoção amigo, talvez nem tanto por você, mas por nós mesmos. Precisávamos acreditar que o mundo está mesmo mudando. Precisávamos de uma prova disso, pra seguir em frente e entender que todo esforço vale a pena, se a intenção é restaurar vidas.

E esta semana recebemos esta foto. Tobi em sua nova casa. Feliz e confiante, como nunca deveria ter deixado de ser.

Sua nova dona é a Tatiane, voluntária da SMPA que aparece sentada com ele na porta do hospital veterinário da UFMG, no dia do mutirão de castração.

Sua história, amigo, é muito mais que apenas um final feliz. É também uma forma de, mesmo distantes, podermos lembrar os tantos outros que ainda estão por lá.

Ironicamente, a última matéria que preparamos pra eles dizia que, “os que sobraram morrerão lá”.

O Tobi estava entre eles e não teve esse fim. Mas os outros, inteiros, saudáveis, dóceis e sociáveis, continuam lá.

Pra não deixar que aqueles cães sejam esquecidos, seguem os links com todas as matérias elaboradas, desde o início dos trabalhos.

E que as pessoas não os esqueçam. Que todos aqueles que ainda têm espaço pra mais um lobo em casa, lembrem-se de visitar um abrigo de animais e salvar uma vida.

 

Pra quem chegou agora e quer se inteirar do assunto, seguem os links das primeiras matérias.

http://oloboalfa.com.br/smpa/

http://oloboalfa.com.br/smpa-parte-ii-vacinacao/

http://oloboalfa.com.br/smpa-parte-iv-feira-permanente/

http://oloboalfa.com.br/smpa-um-choque-de-realidade/

http://oloboalfa.com.br/smpa-os-enviados/

http://oloboalfa.com.br/smpa-o-resto-do-resto/