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Todos os protetores têm em casa lobinhos resgatados pelos próprios. Claro que a mesma força que nos permite salvar vidas estranhas e proporcionar reencontros, também nos permitiria a dádiva desses retornos. Afinal, defendemos a idéia de que a vida sempre nos dá uma segunda chance…

E todos os protetores sabem que um animal abandonado reconhece quem o salvou. Quando recebem da vida o presente de serem adotados pelas mesmas mãos que os tiraram das ruas, tornam-se os mais fiéis e companheiros. Serão capazes de dar a vida pelos donos. O vínculo que se forma em condições assim não mais se dissolve, nem com a morte.

Pensando nisso, há algum tempo intencionávamos lançar uma campanha intitulada “O dia do resgate”, pela qual pretendíamos incentivar pessoas comuns a fazerem seus próprios resgates, ao invés de buscar um cãozinho pronto em um abrigo.

Não queríamos desestimular a adoção dos que estão nos abrigos ou aguardando adoção em poder de protetores, mas precisávamos incentivar o nascimento de mais protetores.

Se queremos ver o dia em que todos os humanos sobre a terra serão protetores de animais, precisamos incentivar o surgimento dessa nova categoria de gente.

Nessa campanha, poderíamos ensinar técnicas de aproximação, de conquista, de resgate. Relataríamos o passo a passo e indicaríamos clínicas especiais, comandadas por veterinários protetores.

Teríamos como foco pessoas comuns, que já tivessem um cãozinho em casa, talvez até comprado, em um momento em que a consciência do “adote” não estava tão em evidência.

Para seguir a mesma linha de nossas matérias, precisávamos de um caso real, acompanhado desde o início, mostrando o encontro, o resgate, a recuperação, a chegada em casa, a adaptação e, claro, o tão sonhado final feliz.

A idéia existia, acreditávamos ser boa, mas nos faltava a ocasião. Faltavam os voluntários. Quem se disporia a protagonizar a história central de nossa campanha?

Não temos mais dúvidas. Sabemos que o mundo está mudando e de que existem protetores agindo em outro plano.

E, mais uma vez, a vida se encarrega de unir as pontas soltas no universo, como costuma dizer meu amigo Reynaldo Rocha.

A história principal de nossa campanha nos chegou por acaso, por um e-mail enviado/repassado pela Tatiana, da Cão Viver.

As fotos e a história que precisávamos vieram prontas, sem que precisássemos fazer qualquer ajuste.

Quem enviou? Vivian e Gabriel, uma novo tipo de gente que está surgindo. São pessoas que o planeta precisa para operar as mudanças que estão por vir.

Daqui pra frente, segue a narração, tal como nos chegou.

Essa história começou no dia 1 de agosto, quando acordei pedindo a Deus que este mês me trouxesse boas coisas…

1 de agosto pela manhã, foi quando vi a Vida pela primeira vez, vagando pelo estacionamento,  extremamente magrinha, suja e faminta. Neste mesmo dia, deixei a mensagem abaixo no meu Facebook:

Hoje, hora do almoço já havia passado há tempos, quando ele me arranca da rotina de supetão, pra comer um japinha. No estacionamento da empresa, aproxima-se do nosso carro uma cadelinha faminta , beeeem magrinha e com a patinha quebrada… Quase morro de tristeza! Sem muito o que fazer, acaricie-lhe a cabecinha e desejei, em silêncio, que ela ficasse bem. Ele só me olhava de longe. Almoçamos, desligamos a mente do mundo agitado do dia a dia e rumamos pra labuta novamente. No caminho, uma parada repentina numa petshop e, quando questionei o motivo, ele me diz com o olhar mais terno do mundo: “vim comprar uma comidinha de cachorro pra gente dar pra que fica abandonada lá no estacionamento do trabalho…” Quase me derreto!
A gente reconhece nossa alma gêmea em pequenos grandes gestos como esse… E quem se atreve a dizer o contrário?! ”

Daí por diante, foi um exercício diário… Todos os dias eu caçava a tal cachorrinha para alimentá-la e ela já aparecia na hora certa e no local combinado. Me esperava na porta, uma gracinha!

Numa noite saímos do trabalho tarde e fazia muuuuito frio, quando olhei para o canteiro havia uma bolinha: era ela toooda encolhida… Nossa! Naquela noite eu chorei por horas sem parar… Pensava: Deus, por que esse anjinho sofre tanto?!

Vendo meu desespero, meu marido também ficou muito sensibilizado e me propôs a adoção. Fiquei muito feliz na hora, mas no segundo seguinte vieram váaaarios questionamentos:

– Mas eu já tenho uma saudável, vacinada (inclusive contra a leish) em casa e se esta pequena tiver leishmaniose, e se ela tiver alguma outra doença grave? Não estaríamos nós sacrificando nossa pequenina em casa? Não seria também uma maldade nossa? Por outro lado: e se ela tiver qualquer doença, será que este anjinho não mereceria um resto de vida digno em um lar?!

Depois de algumas noites em claro pensando no que poderia estar acontecendo com a anjinha, decidimos capturá-la para fazer exames e, neste mesmo dia, tomamos também a decisão de ficar com ela a qualquer preço.

Meu marido me ajudou a traçar um plano de ação.  Tomamos alguns cuidados, pois nunca pegamos um cão completamente da rua. Visitamos uma clinica famosa de BH em busca de orientação. Depois de um “chá de cadeira”, a médica disse que não poderia fazer uma quarentena com ela, que faria todos os exames mas teríamos que levá-la pra casa. Saí da clínica aos prantos e já pensando em desistir, pois como eu poderia arriscar a vida da outra cachorrinha também? Mais uma vez me bateu a dúvida e a fraqueza.

Inconformado com a resposta da clínica, outra vez meu marido entrou em ação e não me deixou desistir. Foi quando ele descobriu a Cão Viver no Google e aí começou uma amizade que nunca mais vai acabar. Enviamos o e-mail abaixo para a Mariza, que prontamente me respondeu. A Denise também teve papel fundamental nessa história, me encorajando e orientando a não desistir porque a ONG, apesar de nunca ter feito este trabalho, faria desta vez por conta do meu pedido (abaixo).

“A/C Diretores da ONG CÃOVIVER.

Prezados amigos,

Conforme orientação que recebi via telefone, estou escrevendo um pouco da minha história:

Meu nome é Vivian, tenho 34 anos, sou carioca e estou morando em BH. Sou casada com o Gabriel que, assim como eu, é um apaixonado pelos animais. Tenho 2 cachorrinhas: a Yve (que ficou com meus pais no RJ, porque eles são loucos por ela) e Luna, que entrou para a família  quando morávamos em SP (eu e meu marido).

Nós dois viemos para Minas há 6 meses, para trabalhar na Matriz da Ricardo Eletro e foi na empresa que começou uma história de amor: encontramos uma cadelinha muuuuito magrinha, cheia de fome e sede que dormia no estacionamento daqui. Passamos a alimentá-la todos os dias, ela já abana o rabinho quando nos vê e gosta que eu sente do lado dela para ela comer. Como a paixão foi ficando cada vez mais intensa, decidimos levá-la para casa. Porém, como já possuímos um cão saudável e vacinado (inclusive contra a leishmaniose) em casa, não quisemos levá-la sem antes tomarmos alguns cuidados com a sua saúde. Então, estivemos na XXXXXXX (Nome da clínica não divulgado) e perguntamos se ela poderia fazer todos os exames lá e ficar por 30 dias (uma espécie de quarentena), claro estamos dispostos a pagar ABSOLUTAMENTE TUDO, mas eles não podem ficar com ela esse tempo, pois alegaram que não possuem esse tipo de serviço (seria um risco aos demais animais hospedados).

Saí da clínica aos prantos, foi então que meu marido conheceu o site de vocês e, decidimos fazer uma visita. Infelizmente, não chegamos no horário correto. Falei com a Nayara (acho que é este o nome) e ela, muito solícita, me orientou a escrever este e-mail.

O que precisamos saber é se podemos fazer todo o tratamento dela aí e se podem “hospedá-la” neste período de quarentena, obviamente custearemos TUDO O QUE FOR PRECISO (inclusive a hospedagem). Só precisamos deste apoio, por causa da outra pequena que temos em casa.

Alguns pontos importantes:

– Estamos dispostos a cuidar dela independente de QUALQUER doença que tenha (inclusive leishmaniose), pois qualquer tempo que ela fique conosco viva, teremos cumprido a missão de ajudá-la e estaremos felizes por termos tirado esse anjinho da rua;

– Queremos pagar por todo o tratamento (assinaremos qualquer termo de responsabilidade que seja necessário).

– Independente da resposta de vocês, gostaríamos de ajudá-los com doações mensais. Como fazer?

Aguardo ansiosamente uma resposta de vocês e desde já agradeço e parabenizo pelo trabalho!

Um grande abraço,

Vívian Machado”

Demorou um pouco até conseguirmos pegá-la, pois era arredia e medrosa. Ela não sabia o que era amor, carinho e ter um lar… Foram muitas tentativas frustradas, espalhei meu telefone por toda a rua, sim, porque ela ficava não só no estacionamento do trabalho, mas correndo pela rua… Um perigo.

Em uma das tentativas, numa sexta-feira à noite, um carro acelerou de propósito quando ela atravessou a estrada… Foi horrível! Tive pesadelos terríveis. Foi então que no sábado, à tarde (aniversário da Luna – a irmãzinha da vida) ganhamos o nosso maior presente: uma senhora, catadora de papel, entrou em contato conosco dizendo que havia conseguido pegá-la para gente. Corremos para o local e sem hesitar, com ela no carro, fomos direto para a Cão Viver, onde fomos recebidos com festa pelas tias Mariza, Denise, Naira e também pela Tati.

Foi duro me separar dela (ainda que por alguns poucos dias), mas na segunda-feira lá estávamos nós, para conversar com a Tia Priscila, que cuidaria do nosso “presentinho”. A partir daí, foi aquela torcida pelo resultado dos exames. Que fique claro: ficaríamos com ela de QUALQUER JEITO, tendo a doença que tivesse, em nossa mente não existia a possibilidade de nos separarmos mais.

Creio que o pensamento foi tão positivo que o resultado do exame mais temido deu NEGATIVO para leishmaniose. Era quase um milagre!

Nunca nos esqueceremos do apoio incondicional e da emoção de visitar o abrigo todos os dias que a Vida ficou lá. Tornamos-nos amigos, divulgadores e passamos a contribuir mensalmente porque defendemos a causa da adoção e acreditamos muito na seriedade desta instituição.

Com relação à experiência, gente, eu me arrepio só de falar: FOI E TEM SIDO A MELHOR DE TODAS AS ALEGRIAS!

Acordar com ela na cama da gente, vê-la comendo bem, cada dia mais saudável, ouvir seu latido rouquinho (é lindo demais), brincando com a irmãzinha… É uma bênção divina. Ele encheu ainda mais a nossa casa de VIDA e nos transformou em pessoas muito melhores.

Muito obrigada a Deus por ter colocado anjos em nosso caminho!

Eternamente obrigada às Tias Mariza, Denise, Tati, Bárbara, Naira, Priscilla, Tio Bandeira e a toooda equipe da Cão Viver, assim como os amiguinhos queridos Paco, Lenda, Vivi e tantos outros que alegraram os dias que a Vida esteve por aí!

Que Deus abençoe a cada um de vocês!

Beijos Vivian

Nas fotos abaixo, Vida ainda na rua, o primeiro dia na Cão Viver e no cercadinho, em companhia de sua amiguinha Lenda.

Vida 3

Só pra não perder a oportunidade, Lenda é uma Poodle que teve os olhos arrancados. ficou também um tempo na Cão Viver, mas já foi adotada. A história dela está no link abaixo:

http://oloboalfa.com.br/lenda-arrancaram-lhe-os-olhos/

A seguir, algumas das visitas diárias da Vivian à Vida, no período em que ela esteve na Cão Viver.

Após a alta médica, no colo da mãe, na hora de ir pra casa, no primeiro dia em casa, ainda assustada, escondida atrás do sofá, e já relaxada em sua caminha nova.

Quatro dias é o tempo médio em que um cachorro adulto se acostuma a um novo ambiente.

Dias depois, a completa adaptação. A Vida ganhou mesmo uma família linda, que ainda vai crescer mais.

Vida 6

Pra fechar, Vida e Luna, após um banho de ofurô. As novidades da nova realidade são muitas, mas ela vai acostumar muito rápido com tudo. Quem pode dizer que ela não tem direito a tudo isso?

Vida 7

Deixamos aqui registrada nossa admiração e agradecimento, por tão preciosa contribuição à causa que defendemos.

Virá o dia em que todos os humanos serão protetores de animais.

Esperamos que o exemplo de Vivian e Gabriel venha a ser seguido. E que possamos receber outras fotos e depoimentos, de outras histórias semelhantes, vividas por outras famílias. Teremos prazer em postá-las aqui.

O “dia do resgate” não terá uma data. Será sempre o “hoje”. Afinal, muitos dos animais que vagam pelas ruas não podem esperar. E nem as pessoas de bem, se pretendem fazer alguma coisa pra mudar o mundo.