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Há alguns dias, comemorávamos a adoção da Yasmim, a última cadelinha cega da Cão Viver. As duas últimas, Yasmim e Francisca, companheiras de canil, foram adotadas com intervalo de pouco mais de 30 dias.

Sabíamos que a vida cuidaria de fazer chegar na Cão Viver outros cãezinhos cegos. Infelizmente, nosso mundo ainda é habitado por pessoas capazes de abandoná-los (está por pouco).

A Cléia chegou em uma tarde, poucos dias após a adoção da Yasmim. Sua história de vida não é conhecida, mas os sinais são muito óbvios e nos fornecem elementos suficientes pra saber o que aconteceu.

Melhor dizendo, sua história de vida não era conhecida, no início.

Trata-se de uma Poodle velhinha e com catarata avançada nos dois olhos.

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Foi encontrada em uma avenida movimentada no Barreiro. Trazia na barriga um grande tumor de mama, presumidamente antigo em razão do tamanho. Caminhava desorientada, entrando na frente dos carros, tentando encontrar um caminho.

Ao local onde foi encontrada, ela jamais chegaria sozinha. Estava claro que teve a “ajuda” de alguém pra chegar ali.

Sua idade e fragilidade também indicavam que, em algum momento, ela foi uma cadelinha bem cuidada. Teve donos, casa, caminhas e almofadas, ração de qualidade, banhos, vacinas e até brinquedos. De outra forma, não teria vivido tanto. Esses cãezinhos de raça pura são frágeis demais pra sobreviver com menos que tudo isso.

Às vezes, seria melhor não entender e não procurar investigar o passado. Talvez evitássemos a revolta e a tristeza de imaginar a angústia de uma cadelinha como a Cléia, sabendo que será abandonada.

Achávamos que a idade havia lhe retirado o vigor e a alegria, que era ela uma cadelinha mais quieta e menos disposta a brincadeiras. Talvez tivesse pertencido a crianças que cresceram, chegaram à adolescência com outros interesses e menos disposição de dar atenção àquela antiga companheira de brincadeiras.

Foi abandonada dentro de casa. Essa talvez seja a pior de todas as formas de abandono. Ocorre quando aquele cãozinho que um dia foi parte da família, torna-se invisível. Ninguém nem sequer olha pra ele. Com o tempo, ninguém percebe se ele está alimentando como antes, se está quieto demais, se algo não está bem.

Tudo indica que foi o que aconteceu com a Cléia. Foi deixada em um canto, ou mesmo no terreiro. As almofadas sumiram, a qualidade da ração caiu, os banhos se espaçaram, assim como as visitas ao veterinário.

Afinal, ela já estava nas últimas. Pra que gastar com uma cachorra velha que nem sequer faz mais parte da família? As crianças cresceram e não têm mais o mesmo apreço por ela. Quando chegou, era uma filhotinha linda e foi muito útil, distraindo as crianças, que ficaram deslumbradas por aquela coisinha frágil e cheia de energia. Mas agora, as crianças cresceram e têm outros interesses. Já deu. Basta de cachorro em casa. Esse bicho vive demais. Podia durar só uns 3 anos e já estava bom.

A gota d’água foi a cegueira e aquele maldito caroço na barriga. Era só o que faltava ainda ter que gastar com ela. Melhor dar jeito nisso.

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E deram o jeito, o mais fácil e menos dispendioso. Alguém vai achar e cuidar dela. Problema resolvido e página virada. A vida continua.

Na Cão Viver, ela seria mantida viva por algum tempo. Recebeu carinho e atenção dos voluntários e funcionários, na medida do possível. Teve também uma caminha, ração de qualidade, vacinas, banhos regulares, foi operada e tratada com todo o carinho que merecia.

Esperávamos fotografá-la mais adiante, contando a história de uma cadelinha triste, abatida, sentindo falta dos donos. Mas a Cléia não tinha nada de triste. Ela corria, pulava, buscava colo e atenção das pessoas. Nem parecia ter sido abandonada. Nem parecia estar em um abrigo. Talvez o que a Cão Viver estava oferecendo era muito mais do que ela tinha com os antigos donos. Só assim pra explicar tanta alegria e disposição.

Mas aí, algo incrível aconteceu. Assim que soltamos a matéria, alguem a reconheceu. Uma das história mais incríveis que já publicamos. O abandono da Cléia aconteceu já faz muito tempo. Há pelo menos 2 anos.

Ela já era velhinha, já precisava de cuidados mas, mesmo assim, em razão de alguns desses desencontros da vida, seus donos decidiram doá-la. Uma tia das crianças que já conhecia e se afeiçoava a ela, sabendo da doação da Baby (esse era o nome dela), se apressou em contatar os antigos donos, se oferecendo pra ficar com ela.

Infelizmente, foi tarde demais. Baby já havia sido dada a uma vizinha. Em seguida, a Vanessa tentou localizar esta vizinha, mas ela havia acabado de se mudar e ninguém teve mais notícias da Baby.

Depois do resgate e da divulgação desta matéria, a Cão Viver recebeu duas mensagens da Vanessa, que preferimos transcrever na íntegra.

Gostaria de saber se a Cléia, cachorrinha cega encontrada no Barreiro já foi adotada.

Seria muita coincidência ou milagre. Estou atrás de notícias de uma cachorrinha cega, igual a ela, que foi do meu sobrinho. Sua mãe mudou do Barreiro e deu a cachorrinha para uma vizinha que se mudou também e não deu mais notícias.

Ela chama baby e é muito dócil. Se por acaso ela responder por esse nome, é a cachorrinha que estou procurando para resgatar. Já chorei muito por causa dela. E tenho orado pedindo a Deus que me dê a chance de cuidar dela, e que se fosse para encontrá-la que Ele me desse as pistas.

Baby estava cega e  provavelmente a pessoa que ficou com ela não sabia e, por isso, pode ter entendido que “levou gato por lebre” e a abandonou.

Obrigada. Vanessa

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A cadelinha era da minha prima, que deu para minha ex-cunhada, que ficou com ela por alguns anos. Ela mudou, porque separou do meu irmão, e deu para uma vizinha, que mudou também. E elas moravam na região do Barreiro. Isso aconteceu há mais ou menos dois anos.

O mais impressionante é a forma como encontrei, não sei ainda, a Baby.

Há mais ou menos um mês, eu estava fazendo minhas orações, como de costume, quando veio na minha mente a figura da Baby. Imediatamente eu senti uma vontade enorme de chorar. Comecei a pedir a Deus que a protegesse, que se ela estivesse mal cuidada ou abandonada, que me desse o privilégio de cuidar dela, pois sabia que era velha e cega, mas um doce no convívio. E eu não poderia deixá-la jogada.

Pedi ao meu sobrinho notícias e ele me disse que a mãe não sabia do paradeiro.

Então, comecei a pedir a Deus um milagre para encontrá-la e todas as vezes que eu orava eu chorava com uma angústia imensa de pensar que ela pudesse estar abandonada.

Eu sempre compartilho fotos e artigos no face com meus amigos, amantes de peludos. Ontem eu não queria ler todas as notícias mas, alguma coisa foi mais forte e no final eu vi a foto dela, me deu um frio na barriga e imediatamente fui ler o artigo.

Eu nem dormi direito, esperando para ligar para vocês, e hoje esperei o dia todo a resposta do e-mail.

Não sei te explicar como aconteceu tudo isso. Mas sei que existe algo neste encontro. Estou tentando arrumar um jeito de participar da Cão Viver, como voluntária, a pelo menos 6 meses e sempre arrumo uma desculpa. Será que ela apareceu no espaço de vocês para que eu pudesse ir até aí?

Será coincidência tudo isso? Acho que não né? Eu acredito que temos uma missão a cumprir aqui na terra. Agora, qual o motivo disso tudo, nem imagino.

Posso ir vê-la no sábado? Eu realmente não posso dizer que ela sumiu e nem quanto tempo, pois não sabemos do paradeiro da pessoa que ficou com ela.

Obrigada pela atenção. Vanessa Siqueira

O Sábado chegou e a Cléia, possível Baby, recebia a visita de uma “estranha”. Ela é festeira por natureza, mas seria preciso alguns testes. Afinal, Poodles são muito parecidos. Existem milhares como ela. Seria mesmo muita coincidência, ou milagre.

A Vanessa se aproximou com cautela e a chamou pelo antigo nome. Ela não só reconheceu o nome como a voz da Vanessa. Levantou as orelhas e encontrou sozinha o caminho do colo que a esperava. Ninguém teve mais dúvida de que era ela.

E tem gente que não acredita que existem protetores de animais agindo em outro plano. Esta matéria merecia um final especial, mas não vamos conseguir concluir. Melhor apenas mostrar como foi a partida da Baby.

No dia da despedida, ainda no pátio da ONG, a Cléia, ou melhor, Baby, fazia festa e esboçava a alegria daquele encontro. Denise e Tati, da Cão Viver, e Vanessa, a adotante “escolhida” pra cuidar da Baby pelos próximos anos.

Até a Vitória decidiu participar da festa e se despedir da Baby, deitando de costas e se esfregando no chão. Ela estava feliz, pela Baby. Afinal, lobos são assim.

Cleia adotada

A mim, restava agradecer à vida a oportunidade de ter presenciado e fotografado aquele momento. Coincidência? Claro que não.

Como todo final feliz, as atualizações são indispensáveis. Portanto, vão aí as primeiras fotos e notícias, enviadas pela Vanessa.

Olha a folga da minha filhota. Basta eu sentar para trabalhar que ela quer ficar pertinho. Não importa o tempo que eu fique sentada que ela fica junto, claro que roncando (rsrsrs).

Ela já conhece a casa, onde faz suas necessidades, onde come, o sofá, sua caminha. E o mais interessante é que a periquita que morou na mesma casa que ela, também mora comigo e também está na terceira idade.

Ela já sabe quando nosso carro chega na garagem pois começa a chorar. O Fred, meu York miniatura, morre de medo dela, pois ela é gigante perto dele, mas como são calmos, a casa está em paz.

Bom, estamos já adaptados sem traumas e felizes com a nova família. A Baby, como na foto, está dormindo encostada em mim com a roupinha que a Denise deu pra ela, que inclusive ela adora e até ajuda a vestir.

Falei com amigos que temos que adotar animais mais velhos porque eles se parecem conosco. Basta eu pegar um livro pra ler que dou um cochilinho, vou tomar sol e a alegria deles é dar boas cochiladas, nada de bolinha, o negócio é espreguiçar. Assim são meus bichinhos, me acompanham nos cochilos ao sol.

Agradeço a Deus a sorte que me deu.
Grande abraço. Vanessa Siqueira

Cleia adotada 2

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A Cléia não foi a última cadelinha cega a ser abandonada. Quando ela deixou a Cão Viver, outra já estava por lá. Lenda é o nome dela. Mas também já foi adotada.

http://oloboalfa.com.br/lenda-arrancaram-lhe-os-olhos/

Cleia final