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Duda


Assim eu estava quando conheci meu pai. Eu não tinha forças pra olhar, tinha vergonha de meu estado. Ele ficou me olhando e depois começou a tirar fotos. Eu não queria aquilo, não queria que outras pessoas me vissem daquele jeito.

Naquele momento, preferi me fechar e fingir que não era comigo. Não sabia quem era ele e nem o porquê estava me fotografando. Eu estava no canil superior, onde visitantes não iam.

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Notei que ele me olhou diferente. Dava atenção a todos, fotografava a todos, mas tive a impressão de que ele me prometia algo quando olhava pra mim. Talvez tenha me reconhecido, de outras vidas.

Naquele dia (20/05/2013), meu pai estava ali pra buscar alguns animais em melhores condições, que seriam preparados e levados para feiras de adoções.

Não era o meu caso. Eu estava morrendo e não tinha chances de ser adotada. Eu tinha chegado há pouco, deixada na porta por aqueles que não mais me queriam.

Mesmo assim, ele não tirava os olhos de mim. Ele entrou no canil e perguntou sobre mim a um funcionário, que me examinou os dentes pra tentar adivinhar minha idade. Naquele momento, eu sabia que isso não fazia diferença e que não era essa a informação que ele buscava.

Eu estava no canil superior. Era o canil dos idosos e mutilados, aquele que não recebe visitantes, onde os animais nunca estão prontos e, na maioria das vezes, não chegam a ficar.

Ele sentou em um canto e ali ficou, me olhando e me fotografando.

Eu não queria mostrar que estava morrendo. Não queria que sentisse pena de mim. Então, fui até a ração e mastiguei alguns grãos, pra deixar claro que eu estava bem.

Não consegui disfarçar porque a ração era muito ruim.

Eu estava muito magra e meus ossos salientes podiam ser sentidos ao toque. E ele veio a mim e me tocou, apalpando minhas costelas. Parecia procurar aquilo que eu mais queria esconder.

Tá bom. Eu confesso. Não estou bem, e há muito já não sinto fome como antes.

Meus olhos estavam inflamados, o que pra ele mostrava muito mais que apenas meu estado de espírito. Eu estava muito doente. Senti vontade de chorar.

Eu comi um pouco, fui até ele, olhei em seus olhos e apontei a saída. Eu não tinha mais nada a esconder. Meu pai já tinha me virado pelo avesso quando me tocou. Senti que naquele toque ele chegou onde queria.

Ele me pegou e disse que voltaria no dia seguinte, que não tinha mais espaço no carro. Não sei dizer se acreditei nele. Eu não queria esperar mais um dia, pois sabia que minhas horas estavam contadas ali. Se eu tinha alguma chance de vida, não seria ali.

Mas não pude fazer muita coisa. Minha vontade não iria prevalecer. Nossos destinos são selados pelos humanos, que decidem se morremos ou se vivemos.

Eu sabia que aquele não era o meu lugar e que ali eu não sobreviveria. Estava de saída, fosse nos braços de alguém que decidisse me ajudar, fosse dentro de um saco. Eu só queria me ver livre daquilo e não estava me importando muito com os detalhes.

Ele deixou o abrigo com outros cinco cães. Pude notar a alegria daqueles escolhidos.

No dia seguinte, eu ainda estava viva. No início da tarde, meu pai chegou pra me buscar. Eu tentei mostrar que estava feliz, que estava grata, mas não tinha mais forças, nem mesmo pra abanar o rabinho.

Meu pai me pegou no colo e percebeu que eu estava morrendo, que talvez não houvesse mais tempo pra fazer algo por mim.

Do abrigo, eu fui direto para uma clínica veterinária. Fizeram muitos exames, tentavam me animar com petiscos e comida gostosa, mas eu não tinha mais forças. Eu estava muito doente e tudo que eu não precisava era ficar internada, em uma jaula fria.

Eu sabia que estavam fazendo o melhor por mim, mas não era isso que eu queria. Se era pra morrer, eu queria ter uma casa e uma família, mesmo que fosse por poucos dias.

Meu pai percebeu que, mais que dos remédios, eu precisava de motivos pra querer viver. Então, depois dos exames e agulhas, ele me pegou e me levou pra casa.

Os exames acusaram de tudo: Anemia e babesiose, pra começar. Cinomose e leishmaniose também já me consumiam. Estava também com muitas dores nas pernas por causa de uma luxação na patela, os olhos muito infeccionados, pele ferida e muitos, muitos carrapatos.

Na mesma semana, entrei no cio. Isso foi motivo de muita angústia, pois eu sabia o que um cio representava. Eu já não tinha forças pra gerar mais filhotes. Não sei por onde andam os tantos filhos que deixei no mundo, se são felizes, se foram amados.

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Eu estava mesmo muito triste, e meus pais disseram que eu tinha uma doença chamada Tristeza Canina (Babesiose ou doença do carrapato).

Não era possível tratar tudo ao mesmo tempo. Infelizmente, o tratamento de uma agravaria as outras. Não sei o que decidiram fazer, mas começaram o meu tratamento com muitos remédios, muitas injeções, muitas idas ao veterinário, algumas às pressas em razão de recaídas.

Foram quase dois meses de intenso tratamento. Sete dias de Amoxilina, trinta dias de Doxiciclina, seis doses de cino-globulin, anti-inflamatórios para as articulações que chegaram a me retirar os movimentos das pernas traseiras, levantando a suspeita de sequela da cinomose, além de muitas vitaminas, sulfato ferroso, banhos regulares, colírios, boa nutrição e, o principal, afeto.

Assim que cheguei, conheci a matilha: Pintada, Estopa, Hanna e Kika. Elas eram ótimas amigas e tentavam me animar. Acho que a amizade delas foi o melhor de todos os remédios.

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O avanço foi muito lento. Quase dois meses após minha chegada e eu ainda não tinha conseguido sorrir. Também não tinha forças pra latir. Eu continuava séria e triste, embora um pouco mais disposta.

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As doenças foram aos poucos vencidas, uma a uma. A cinomose não deixou qualquer sequela e pude iniciar a vacinação. Tomei todas as doses sem recaídas, o que afastava de vez o fantasma daquele vírus tão perigoso.

A tristeza foi também vencida, embora tivesse também outras causas mais profundas e que levariam mais tempo pra serem esquecidas. A essa altura, eu já me alimentava bem e começava a ganhar peso. Além da ração gostosa, eu tomava muitas vitaminas.

Por fim, faltava vencer a leishmaniose.

Eu ainda me sentia triste e sem energia, mas já apresentava significativa melhora. Agora era possível saber que eu teria uma chance.

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Ainda não tinha o pique da turma pra correr e latir na porta da rua, mas já me sentia bem, pra ficar no colo, observando a algazarra das minhas novas melhores amigas.

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Eu aprendi com a vida que precisava lutar pra comer. Eu era lobinha alfa e defendia a cama e a ração. Mas já começava a entender que lobos também amam, brincam, correm e se divertem.

À medida que fui melhorando e ganhando mais confiança, eu passei a observar mais de perto as brincadeiras da turma.

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Um dia, a Pintada veio a mim e me convenceu a experimentar a confusão na arena de luta.

Eu ainda não conhecia todas as regras daquele jogo. Por isso, preferi observar sem me envolver muito.

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Depois de um tempo, subi na beirada da arena pra ver mais de perto.

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Uma volta na banheira era o sinal de que estava me preparando.

E, de repente, lá estava eu no meio da confusão. Não foi uma participação das mais entusiasmadas, mas eu queria experimentar as brincadeiras. Elas pareciam tão felizes naquela algazarra que eu tinha que experimentar.

Meu pai dizia que eu precisava aprender a sorrir. Ele não se conformava que, depois de tanto tempo, ainda não tivesse visto minha língua.

Um dia, ele acordou e me disse: _Está na hora da senhora experimentar novas emoções. Seu problema agora é preguiça e vamos dar jeito nisso.

Colocou-me no carro, junto com Hanna e Kika, dizendo que faríamos um passeio. Eu ainda não sabia o que aquilo significava.

Aquela foi minha primeira expedição. Não consigo descrever a alegria que senti por estar vivendo momentos como aqueles. Eu corria, explorava e cheirava cada canto, fui corajosa e aventureira.

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Foi a primeira vez que senti vontade de sorrir. Eu estava feliz, como nunca estive em toda a vida. Sentia-me estimada. Eu estava entre os meus. Aquela era a minha família, os meus amigos.

As longas caminhadas por estradas de terra, bosques e riachos transformam o humor de qualquer lobinho. Coleiras e guias não eram necessárias, exatamente como no tempo de nossos antepassados. Eu me senti livre e indomável.

Passamos horas investigando as marcas daquele território. Não eram lobos, mas outros animais, que eu ainda não conhecia.

Eu estava mesmo deslumbrada. Tudo chamava minha atenção. O reflexo do sol na água, ou mesmo o barulho dos peixes pulando pra abocanhar a ração. Meu pai me vigiava de perto, mas me deu liberdade pra me arriscar.

Ele sabia que podia confiar em meus instintos.

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A Kika era a lobinha mais experiente daquela matilha. Eu me pus a segui-la, embora às vezes me aventurasse sozinha, sempre vigiada de perto por meu pai.

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Só no fim do dia, quando o cansaço bateu, foi que me lembrei que existia colo.

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Um dia quase inteiro de caminhadas foi mais que suficiente pra mim naquele momento. Gastei cada gota de energia que tinha ganhado com as vitaminas dos últimos tempos.

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Eu estava feliz. Não tinha mais forças nem mesmo pra sorrir, mas estava feliz. Exausta e suja mas, muito feliz. E eu sabia que nada era mais importante que isso para meu pai.

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Naquele dia, eu mostrei que já estava bem. Missão cumprida para meu pai e, pra mim, preparação para uma nova fase.

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O tempo passou e eu melhorava a cada dia. O segundo passeio no santuário foi nas férias da família. E férias em família de muitos lobos é assim: “ou vai todo mundo, ou não vai ninguém”.

E eu estava lá, junto com todo mundo. Eu já me sentia parte daquela família e não queria outra casa.

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Meu pai fez também alguns vídeos meus. Eu já gostava de acompanhar a turma. Sentia-me parte daquela matilha. Às vezes, eu parava, olhava pra trás pra ter certeza de que meu pai estava nos seguindo, mas depois seguia o caminho traçado pelos lobos.

Elas conheciam cada palmo daquele chão e eu sabia que podia confiar na proteção da matilha.

http://youtu.be/yK-hidCnojE

http://youtu.be/dsXVTzjjjzc

Com a Pintada e Hanna, aprendi que aventurar-se na água poderia ser bem legal, mesmo que tivesse que me secar ao sol depois, tremendo de frio.

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O vídeo mostra como eu aprendo rápido:

http://youtu.be/p-zOcPONu0E

Aprendi que caminhar em matilha é a melhor coisa do mundo.

Comer as frutas também é divertido. Eu precisava ganhar peso e, pra isso, comia muito.

Depois de semanas de convivência e observação, meus pais já sabiam muitas coisas a meu respeito. Sabiam que eu já tinha entre uns 5 anos anos, isso porque eu já tinha pelos brancos no focinho.

Minhas tetinhas eram bem flácidas e sem pelo ao redor, indicando as muitas ninhadas que produzi na vida.

Minha dominância em relação à comida indicava que já senti muita fome. Um desvio na patela e a musculatura muito fraca indicavam pouco ou nenhum exercício físico. Eu não tinha mesmo muita desenvoltura pra correr e pular. Caia muito e meu caminhar era meio bambo.

Com isso, meus pais descobriram que eu tinha mesmo sido criada em célula de gestação, em um canil pequeno, sem espaço pra me exercitar, com o objetivo de gerar filhotes. E eles acertaram, mas eu prefiro mesmo não me lembrar desse tempo.

Eu não conhecia uma relação de afeto com pessoas. Isso se refletia na forma como eu aceitava manejo sem esboçar emoção ou reação.

A essa altura, meus pais já me conheciam melhor que eu mesma.

Eu estava feliz e voltei a sorrir. Descobriram uma manchinha azul no lado esquerdo de minha língua, que meu pai dizia ser apenas um sinal para que eu fosse reconhecida.

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Nesse tempo, eu já tinha aprendido sobre colo e sobre brincadeiras. Então, eu pedia colo toda hora. Gostava de deitar, me acomodar, virar a barriga e brincar com os dedos do meu pai, que insistiam em me fazer cócegas.

Eu estava, finalmente, descobrindo o mundo. Não era jovem, mas ainda poderia viver muitas experiências boas.

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Eu já me sentia tão integrada à família que, junto com a Hanna, esperava o Guilherme chegar da escola todos os dias. Nós o recebíamos na varanda, fazendo muita festa, pulando (e caindo), nos esfregando, pedindo colo e atenção.

Se eu tivesse sido doada, teria sido a despedida mais triste de minha vida, mais até que o abandono e toda a minha história passada.

Não sei quando isso mudou, mas também não faz mais diferença.

Meu tratamento ainda não tinha terminado e eu precisaria ficar por aqui mais algumas semanas. Ninguém mais duvidava de que eu venceria tudo.

Depois que me recuperei de tudo, fui castrada. Eu não queria mais me despedir de filhos. Isso já doeu o que tinha pra doer.

Eu também já estava bem enturmada e já brincava muito com a Hanna. Eu não queria me despedir de ninguém mais. Ali eu tinha minha caminha quente e seca, dentro de casa. Tinha o terreiro, onde podia tomar o sol do início da manhã, tinha os brinquedos, a comida gostosa e a água fresquinha.

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Tinha a varanda, onde podia olhar o movimento da rua e latir até pro vento.

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Aprendi que não precisaria ter medo de humanos. Hoje sou uma cachorrinha festeira, que aceita colo de quem estiver disposto a me dar um pouco.

No fim da tarde, geralmente depois do jantar, eu gosto de colo, e já estabeleci isso como minha rotina. Gosto de mordiscar os dedos do meu pai e sou eu quem decide quando é hora de parar.

Dizem que eu estou tirando a diferença e recuperando a infância que me foi roubada.

Nos vídeos abaixo, minhas brincadeiras com a Hanna.

http://youtu.be/qluZ-DRNqJk

http://youtu.be/NaPC6jQjEG0

Um dia, algo muito triste aconteceu em nossa casa. Uma parada cardíaca veio a tirar a vida da Kika. Foi um golpe muito duro pra todos. Eu ainda estava em tratamento quando tudo aconteceu.

Então, meus pais disseram que a melhor homenagem que poderiam prestar à Kika seria salvar um cãozinho abandonado. Eu não sabia, mas eles estavam falando de mim.

Isso é meio confuso. Pra mim, a adoção aconteceu no dia em que fui retirada daquele canil pelo meu pai. As boas vindas eu recebi naquele mesmo dia, quando ele me pegou no colo, me acomodou no banco do carro e me disse: _Você agora vai se chamar Duda. E tudo vai ser diferente.

Desde então, minha vida tem sido de muita alegria e brincadeira. Já recebi muitos outros lobinhos que por aqui passaram. Ajudei na recuperação e na socialização de muitos deles.

Cuidei de muitos filhotes órfãos, vivi momentos que poucos cães tiveram a alegria de experimentar.

Acabei me tornando um cão de trabalho. Hoje sou a mascote do Projeto O Lobo Alfa e ajudo outros animais a terem um final tão feliz quanto o meu.

Mas esse trabalho não me pesa. Eles são meus irmãos.

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