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A espécie é muito comum em nossa região e pode ser encontrada em qualquer riacho, mesmo os mais poluídos.

O Faísca foi encontrado em uma calçada na periferia. Tudo indicava que tinha chegado ali com as próprias pernas e poderia, sozinho, encontrar o caminho de volta ao riacho de onde saiu.

Mas até ele voltar pra casa, poderia ser atacado por animais domésticos ou mesmo capturado por seus maiores predadores, o próprio homem.

Foi o que acabou acontecendo, mas por caminhos tortos, chegou às nossas mãos.

Claro que o destino dela seria a soltura, mas faríamos isso em um lugar mais afastado, longe de casas e centros urbanos.

Improvisamos pra ela um recinto, que não passava de uma bacia. Ali ela viveu por menos de 2 dias, até seguir viagem.

Nessas poucas horas em que ficou em nossa casa, pôde contar com a companhia (leia-se curiosidade) da Duda, nossa mascote. As duas adoravam tomar o sol da manhã juntas, ao modo delas.

Notamos que o Faísca tinha algo de diferente: Ele não tinha a barbicha do lado direito. Não sabemos qual é a estrutura dessa barbichinha branca, se ela cresce novamente ou qual a utilidade dela para a espécie.

Mas o fato é que a coisinha branca que sugere seu nome é tão pequena que mal dá pra notar a falta. Também não há perda de mobilidade e nada que dificulte a sua vida. Então, chegamos à conclusão que, mesmo sem a barbicha, ele vai sobreviver.

Logo entendemos porque a espécie é também conhecida como tartaruga-do-pescoço-de-cobra.

Répteis são muito intuitivos e podem ser soltos imediatamente na natureza. Eles já nascem sabendo sobreviver sozinhos, ainda mais se for em um ambiente onde encontre seu alimento natural.

Mesmo assim, havia um destino que desconhecíamos e os anjos nos orientaram a deixá-lo no laguinho do viveiro de aclimatação, que já estava quase vazio, nos dias finais de uma soltura. Seria só por alguns dias.

E foi com as próprias pernas que ele logo notou o lago mais adiante e se apressou para investigar o território onde o estávamos soltando.

Um sabiá chamado João se aproximou curioso. Ele também estava ali à espera de uma segunda chance.

O primeiro mergulho no novo lar temporário foi registrado em tempo real por nossas lentes. Isso nos mostrava que o Faísca estava pronto. Alguma razão que naquele momento desconhecíamos nos indicava que precisaríamos esperar alguns dias antes de soltá-lo na lagoa principal.

E o motivo nos foi revelado duas semanas mais tarde, quando um amigo nos informa de uma pequena tartaruguinha encontrada no terreiro de uma casa na periferia.

A história se remete, mas logo notamos que era da mesma espécie, mesma idade e tamanho do Faísca.

Demos a ele o nome de Fumaça e decidimos deixá-lo alguns dias com o Faísca, para que pudessem, juntos, reencontrar a liberdade.

Segundo informações da pessoa que o encontrou, logo depois ele foi colocado em uma gaiola e ali ficou por vários dias. Acabou desidratando, a ponto de não conseguir submergir na água. Isso era grave, pois ele depende de uma completa mobilidade para escapar de predadores.

Por sorte, bastaram dois dias na água para que ele se recuperasse e logo estivesse no ponto de se esconder, como o instinto lhes ensina a fazer.

Percebemos então que não havia necessidade de atrelar aqueles destinos. Os cágados não são animais sociáveis. Convivem em harmonia e toleram o coletivo, mas não interagem.

Claro que não esperávamos que eles pudessem correr e brincar juntos, rolando na grama. Mas, ao modo deles, acabaram interagindo. Raros foram os momentos em que conseguimos fotografá-los juntos.

Mesmo assim, eles viveram algumas semanas na lagoa do viveiro de aclimatação, até entendermos que já poderíamos soltá-los na lagoa principal, onde vários de sua espécie já vivem.

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Faísca e Fumaça estavam mesmo ansiando pela liberdade.

E foi em uma manhã de sábado que decidimos soltá-los.

Apenas alguns metros separam o recinto da lagoa principal. Não precisaram de longa viagem, mas apenas uma caixa de papelão, que lhes serviu de transporte.

Faísca estava curioso, enquanto Fumaça se mantinha recolhido, sem entender o que se passava. Talvez os dias vividos na gaiola não tenham deixado boas recordações.

O mais curioso foi o primeiro a deixar a conforto da caixa e partir para o lago logo adiante, que convidando-o a viver as experiências que um cágado-de-barbicha precisa, para cumprir sua etapa evolutiva.

O Faísca correu para a lagoa e logo desapareceu nas águas turvas.

Já o Fumaça precisou de uma ajudinha. Ele estava assustado, recolhido em seu casco, sem coragem para esticar o pescoço.

Então, nós o tiramos da caixa usando as mãos. Seria a última vez que ele sentiria na vida a textura de mãos humanas.

O deixamos na beira da lagoa, um lugar que imaginamos pudesse lhe trazer alguma lembrança da vida livre que teve um dia.

E bastou sentir o ambiente pra ele colocar o focinho pra fora e se interessar. Registramos os primeiros movimentos rumo à liberdade.

Não sabemos se voltaremos a vê-los novamente. Na lagoa, tem vários outros de sua espécie, já adultos e também outros filhotes como eles.

A espécie é encontrada em qualquer pequeno riacho e, por isso, pode ser encontrada em área urbana, em praças, jardins de casas, calçadas ou lugares que estejam próximos de seu habitat.

O melhor a fazer quando se encontra um cágado é encontrar o lago ou riacho de onde ele saiu, e que deve estar próximo, e devolvê-lo ao ambiente natura.

Em último caso, se não for possível, que seja entregue à Polícia Ambiental ou aos órgãos ambientais (Ibama ou IEF).

Jamais os mantenha em cativeiro. Além de ser crime ambiental, é uma grande crueldade.

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