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É isso mesmo. Esta cadelinha foi resgatada por uma pessoa que dizia gostar de cachorro. Infelizmente, nem todas as pessoas que resgatam cães são equilibradas e têm boas intenções.

A Boneca passou a apanhar muito todos os dias. Ela era espancada todo final de tarde. Os gritos eram ouvidos a distância e ela dormia, todas as noites, embebida no próprio sangue.

Sob ameaça, e com a promessa de uma compensação qualquer, conseguimos resgatá-la.

Quando a conheci, ela era a coisa mais medrosa do mundo. Ela me olhava com pavor, esperando pelas agressões. Claro que estava também doente. Além das feridas, a sarna já indicava sua fraqueza e baixa resistência.

Apesar de tudo, ela se mostrava submissa. Não rosnava, não mordia e não tinha sequer coragem de tentar fugir. Ela se encolhia, como se aceitasse o destino.

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Em seus olhos, havia pedido de clemência.

Quando a coloquei no banco do carro, ela se encolheu ainda mais. Parecia já ter ouvido falar de uma tal carrocinha, de câmaras de gás, de armas de fogo e coisas do gênero, que a espécie humana inventou pra exterminar outras espécies e poder viver sozinha no mundo.

Ela se encolheu no banco e me olhava de soslaio, esperando pela agressão que, pela experiência dela, estava pra acontecer.

Até mesmo a câmera que se voltava pra ela era motivo de tensão. Talvez fosse melhor não fotografá-la naquele momento.

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Mas você é uma vira-lata moça. Se não contarmos sua história, mostrando todos os detalhes, ninguém vai adotá-la e você passará o resto da vida esquecida em um abrigo. A minha espécie ainda não sabe nada sobre lobos e precisamos tentar ensinar, pelo seu próprio bem e dos outros amigos que você vai conhecer.

E se aquele passeio de carro lhe trazia um mau pressentimento, quando chegamos ao destino, a surpresa não foi melhor.

Ela estava doente, precisava de tratamento e teria que ficar isolada na enfermaria. Mesmo com toda a assistência e carinho que passaria a receber daquele momento em diante, ela não tinha motivos pra comemorar, nem pra se alegrar.

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Apesar de tudo, ela teve muita sorte. Isto porque seu destino foi a Cão Viver, que a recebeu de braços abertos.

Foram cinco meses de tratamento, desde o seu resgate. Sarna, Babésia, muitas e muitas feridas mas, o pior, o trauma e o medo de gente. Tudo isso foi curado. Os médicos e voluntários da Cão Viver se desdobraram pra dar a ela o melhor.

E o resultado já se pode ver nas fotos abaixo. A Boneca está pronta pra começar uma nova vida. Está vacinada, vermifugada, castrada e livre de todos os males, inclusive os da alma.

Lá ela conheceu Johny e Laika, que se tornaram seus melhores amigos de infância.

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Johny é este cãozinho marrom de cara amassada. Quando chegou ao abrigo, era menor que um gato de dois meses e tinha sarna desde a ponta da orelha até o último dedo. Foi alimentado com mamadeira diária, fez o tratamento, foi crescendo, foi para o canil junto com outros isolados de sarna, cresceu mais e agora está ai, pronto para adoção. Ele ainda é filhote e não tem mais que um ano.

Laika é uma cadelinha toda preta, com a língua azul. Chegou ao abrigo apavorada, como se pedisse: __ Por favor. Não me deixe aqui.

Com o passar dos dias, o pelo foi crescendo e ficando bem pretinho, demonstrando que, assim como os cuidados médicos, carinho também cura.

Na Cão viver, eles estão no canil redondo, que é considerada a Suíte Presidencial do abrigo.

Além do Johny e da Laika, a Boneca fez também amizade com o Rick (Espeto), com quem já esboça brincadeiras e correrias. O nome verdadeiro dele nos registros da Cão Viver é Rick, mas está valendo o apelido de Espeto que lhe dei quando soltei a matéria. O que importa aqui é mostrar que ele existe.

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Outra companheira de canil da Boneca é a Shena, uma cadelinha igualmente sociável e carente.

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Então é isso Boneca. Que toda aquela tensão do dia do resgate e todo o sofrimento do longo tratamento tenham valido a pena. Nenhum animal deveria ser resgatado pra viver em um abrigo, mesmo que seja um abrigo como a Cão Viver.

Abrigos devem ser casas de passagem. De curta passagem, aliás.

O resgate só faz sentido, se eles forem adotados, se ganharem novos donos, se puderem ocupar seu lugar no mundo.

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Para a Boneca, a adoção chegou com tudo que ela merecia e foi assim narrada pela Tatiana, voluntária da Cão viver:

A família queria comprar um animal e um dos meninos, o Lucas (de boné), falou: para que comprar animais se muitos estão precisando de adoção?

Ariadne (blusa roxa) encontrou a história da Boneca no site O Lobo Alfa e em seguida encontrou o Cão Viver para enviar a mensagem e não poderia ser diferente. As palavras e fotos cativaram todos da casa e a ideia da adoção foi bem recebida pela família enorme que foi buscar a sua Boneca que agora não é mais de vudú. Ela se transformou na Boneca da sorte.

Mais uma vez conquistamos família de verdade para esses seres, o que nos enche de vontade para continuarmos a nossa missão.