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E tem gente que não acredita que existem protetores agindo em outro plano.

Os filhotes foram todos doados. A Serena, após despedir-se dos pequenos, foi vacinada, vermifugada, castrada e ficou em definitivo com seu salvador.

Um restate de Antônio Brito: britoalmg@gmail.com

SERENA – Crônica de um resgate.

Por Antônio Brito

Três lares e três nomes em três dias…

Antes de conhecê-la, talvez ela tenha tido um nome, talvez não. Soube apenas que vivia nas ruas, e que quando ainda grávida, vagava pelas bandas do Hospital Santa Rita, na Av. Tito Fulgêncio, próximo à cidade industrial, em BH. Soube também que já haviam tentado resgatá-la, mas como era maltratada, corria de estranhos. Algumas almas boas lhe davam restos; outras, sementes mal-plantadas, a chutavam, mesmo grávida.

A partir de uma quinta-feira, 26/04/12, por meio de posts no Facebook, num grupo de protetores, começa mais uma tentativa de resgate. Agora ela já estava com uma ninhada, num lote em início de obra, terraplanado, com muita lama e nenhuma área coberta para ela e sua ninhada. Chove muito na noite dessa quinta; não consigo dormir, pensando nela e nos filhotes, debaixo daquele temporal.

Essa tentativa se arrastará até o sábado, pois faltam o lar temporário – LT; alguém que se responsabilize por ela; e o transporte até o LT. Ofereço o transporte e a ajuda no momento do resgate.

Na sexta, 27, apareceu o LT, mas durante os posts, cheios de adrenalina naquela tarde, vem a notícia de que o LT não estava mais disponível. Cai a noite, juntamente com uma informação que nos deixa angustiados: naquele feriado prolongado, de 1º de maio, a obra ficará fechada, e a nossa guerreira lá dentro, sem alimentação, nem água. Desespero total. Combinamos então de ir lá no dia seguinte, sábado, tentar entrar e pegá-la. Somos três marinheiros de primeira viagem em resgates de adultos: Cibele, Michelle e eu.

Chegamos. O tapume na frente é alto, muito alto. E dos lados não ha acesso, pois os vizinhos são prédios. Chamo, assovio… Aparece a mamãe. Coloco a ração e a água que levei e ela passa debaixo de numa pequena fenda que cavou no tapume. Então, prendemo-la com uma corda mal amarrada, para não enforcar. Devíamos ter levado coleira e guia, mas não o fizemos.

Sondamos um jeito de entrar. Descobrimos que numa das laterais o tapume está pregado na parede. Forçamos e os pregos cedem. Entramos eu e Michele enquanto Cibele fica do lado de fora com ela. Ao chegarmos ao ninho, a situação é crítica. Por cima de uma lâmina tipo Eucatex, molhada, fedida de urina, uma ninhada enorme. Vamos pegando e colocando na caixa de papelão. Pronto. Nove filhotes! Já de saída, vemos que há mais um, que se arrastara até a lama, e quase fica para trás. São 10 bebês!

Colocamos os filhotes no porta-malas do Punto, e a mamãe logo em seguida. Mas um dos vidros de trás está semi-aberto, o suficiente para a mamãe atleta saltar em plena avenida movimentada. Que susto. Penso: perdemos todo o esforço. Mas corro e consigo pegá-la novamente.

Dirijo para o LT, no Bairro Diamante, com a mamãe e os filhotes no porta-malas abarrotado. No caminho, rezo para que seja possível entrar de carro no LT, para haver menos risco de a esperta da mamãe escapar de novo. Mas o carro não entra. Abro o porta-malas, segurando-a pela corda. Ela pula e se esquiva até soltar. Como pegá-la naqueles morros sinuosos, de casas muito simples, fácil para se esconder? Desço a rua correndo, em desespero. Tenho então a ideia de gritar com ela, sem saber o seu nome. Ele para e eu a pego. Sem fôlego, refaço-me do susto.

Entramos todos para o LT. Um lugar muito simples, de gente simples, boa de coração. Uma mãe com duas crianças. A mais nova quer ser veterinária. Espaço pequeno, já com 3 cães, em cima da laje. Fico preocupado: como colocar mais 11 alí? E mamães costumam defender suas crias com unhas e dentes, literalmente! Saímos para comprar uma casinha de madeira (‘casona’ para caber toda aquela turma!) e ração, numa petshop onde trabalha o pai das crianças, irmão da Michelle.

A dona da casa diz que ela se chamará Natasha.

Enquanto esperamos a entrega da ‘casona’, que não cabe no meu carro, conversamos. Devo ter sido um chato, de tanto alertar para terem o máximo cuidado com o portão, pois a mamãe poderia fugir.

A noite cai, vamos embora. Mas continuo com os resgatados na cabeça. Em vez de alívio, uma apreensão com o destino daqueles seres que agora já me são mais próximos. Seria exagero? Já havia cumprido a tarefa a que me propus.

No domingo e segunda, cuido das minhas lobinhas, do jardim, visito minha irmã, compras, e organizo um pouco minha rotina, que está atrasada. E o pensamento lá nos resgatados.

Na terça, enquanto desabafo sobre essa sensação de apreensão com uma protetora, uma mensagem da Michelle, no Face, querendo falar comigo. Sim, a mamãe havia fugido desde a madrugada deixando para trás os bebês. Ficou assustada com o LT. Fora presa e amarrada na ‘casona’ com eles, pois estava muito ciumenta da ninhada, e atacava os cães da casa que dividiam o mesmo espaço.

Levei um choque com a notícia. O que fazer? A única ideia é ir em busca dela, apesar das chances remotas. O local onde foi resgatada é muito distante do LT.  Pego o carro e saio. Peço a São Francisco que me leve ao encontro dela. Vou concentrado, rádio do carro desligado, tento organizar as ideias.

Paro no posto em frente à obra. Aguardo uma frentista que está atendendo (que demora: ela colocou álcool no carro a gosolina). Indago sobre uma cadela com uma ninhada na obra em frente. Ela me diz: – “veio um pessoal aqui no sábado e a pegou com os filhotes, mas hoje ela apareceu aqui de novo”. Animo.

Era inacreditável que ela tivesse conseguido voltar, pois fora deitada no porta-malas, sem ver o longo trajeto. Deixo meu fone, espero, sondo o quarteirão… Não sei mais por onde ir. Volto na obra, bato no tapume, chamo por ela. Já pensando em pegar o carro e ir até os filhotes, peço mais uma vez a ajuda do além. Nesse instante, vejo a mamãe descendo do outro lado da avenida. Corro imaginando que ela, ao me ver, iriá fugir como o diabo foge da cruz. Escondo a guia. Aproximo. Ela me vê e vem deitar aos meus pés, exausta, com febre, os peitos intumescidos de leite. Veio encontrar com quem a maltratava, mas a quem ela amava. Sim, eles são incondicionais!

Deixa docilmente eu pegá-la e carregá-la até o carro. Choro! Aquilo tudo não pode ser coincidência.

No carro, coloco-a no banco do passageiro, mas ela levanta e deita no meu colo, com metade do corpo sobre o freio de mão e a marcha. Não quer sair dali. Levo-a até os filhotes no LT. Ela deita com eles, relaxa até que mamam todo o leite, dorme.  Enquanto isso eu como um bolo de chocolate com café, gentilmente oferecido pela Michelle.

Converso com sua protetora Michelle, proponho levá-la para minha casa – até que desmame, pois não posso ficar com todos por muito tempo. Partimos, Michelle com os filhotes atrás e Natsha no meu colo, atrapalhando a direção.

Chegada, comida, montagem do ninho lá na cozinha de lenha e curiosidade das minhas pequenas, que prendo dentro de casa, para evitar contratempos.

Vou para o Facebook postar sobre o dia e o ‘re-resgate’. Solicito ajuda para divulgar a prole para adoção. Decido rebatizá-la de Honey, pela doçura.

Exausto, durmo. Sonho com ela, mas no sonho ela é a SERENA, não Honey. Rebatizo-a, agora definitivamente, prometo.

Levanto na manhã de quarta dia 3/5, melhoro as condições do novo abrigo. Com as minhas cadelas presas, ligo para minha ajudante, antes de sair pro trabalho, e aviso para chegar com cuidado que temos uma nova hóspede.

À tardinha, chego curioso para saber como teria sido o encontro entre minha ajudante e a nova hóspede. Serena está deitada na cozinha, ente o fogão e a cozinheira, numa cumplicidade talvez facilitada pelo fato de as duas serem mamães que sabem cuidar tão bem.