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A quem quiser entender como tudo isso começou, segue o link da primeira matéria, que um dia intitulamos “Inferno dos Poodles”, mas que agora renomeamos para “Campo dos Poodles”. A palavra “campo”, aqui, remete ao sentido de fertilidade.

http://oloboalfa.com.br/campo-dos-poodles/

Quando iniciamos este trabalho, fomos cobrados a tomar medidas enérgicas. As sugestões falavam em denúncias, no uso da força, da retaliação, da simulação. Os fins justificavam os meios.

O Projeto O Lobo Alfa foi idealizado em outro plano. A mim, coube o posto de voluntário e nada mais. Mesmo sem ver luz no fim do túnel, aprendi que preciso confiar e esperar. E se o pedido de ajuda nos chegou pelo formulário de contato de nosso site, foi porque a tarefa seria nossa e deveria ser conduzida com base nos princípios que sempre nortearam as ações do Projeto O Lobo Alfa.

E se foi possível fazer algo, foi porque tivemos o apoio da Cão Viver que, mesmo sem conhecer os detalhes, mesmo sem saber o nome dos envolvidos ou o local onde os animais estavam, nos deu o voto de confiança do qual precisávamos. Aceitou colocar sua estrutura e credibilidade à disposição para salvar vidas.

O caso exigia muito mais que proteção animal. Muitos detalhes permanecerão em sigilo, porque sua revelação não ajudaria. Estávamos diante de alguém que precisava de ajuda, que estava desacreditado no ser humano para entregar seus animais, em razão de experiências anteriores ruins: um tutor, acumulador de animais, que aqui chamaremos provisoriamente de Sr. José.

O caso era bem mais complexo do que podíamos revelar. O trabalho prosseguiu. De início, tudo era muito difícil e sem muitas perspectivas.

Foram muitas idas e vindas, muitas visitas, algumas batendo com a cara na porta, outras sendo mal recebidos.  Foi preciso mostrar que trabalhamos em prol de resultados e finais felizes, sempre levando fotos e notícias. Haja argumentos!

O tutor, depois de um tempo, reconheceu suas dificuldades e aceitou ser ajudado, o que nos permitiu agir em outras frentes. Contamos com ajudas especiais, sempre visando fazer o bem, não só aos cães como também ao seu tutor.

Na última semana, quando já não conseguíamos ver progressos, recebemos uma mensagem informando que o Sr. José teria aceitado a castração da maioria das fêmeas.

Não era o ideal, mas precisávamos acreditar que aquele seria mais um importante passo. Mais uma vez, a Cão Viver, sempre ela, abriu suas portas para receber os animais. Desde o primeiro resgate, muita gente havia ajudado financeiramente e ainda havia saldo em caixa suficiente para essas castrações.

Mas a Cão Viver foi um pouco além. Aquela era a oportunidade de ganharmos a confiança do Sr. José e começar a plantar uma semente do bem. Como qualquer acumulador, ele não conseguia ver que seus animais não estavam bem tratados.

Ele precisava ver a diferença pra entender que queríamos o bem dos cães.

Diante do consentimento do tutor, precisávamos ser rápidos, aproveitar a oportunidade e buscar todos os animais que pudessem ser castrados. Não havia tempo para nos programar. O resgate precisava ser imediato e, pra isso, pudemos contar com a pronta ação do Cristiano, da Táxi Dog BH.

Ele assumiu pessoalmente a tarefa, mesmo tendo que sair de casa quase de madrugada para chegarmos na hora marcada, mas valeu a pena. A gratidão do filhote é prêmio pra qualquer protetor.

Dentre os filhotes, só um nos foi liberado, já com autorização para ser doado. Ele está sob os cuidados da Lucinédia, que também vem ajudando nessa tarefa, recebendo alguns animais, cuidando de sua socialização e doando-os, escolhendo a dedo os adotantes.

Dentre os adultos, muitos lobinhos assustados e arredios. Alguns pareciam chorar. Os olhos lacrimejavam. Não entendiam o que se passava. Não conheciam outra realidade diferente daquela e preferiam ficar por ali. Afinal, aquele território era sua zona de conforto.

Outros pareciam mais felizes. Estas duas lobinhas pareciam prenhes e chegaram a pular no colo, pedindo pra serem “escolhidas”. Antes que seus filhotes nascessem ali, foram resgatadas. Embora no início da gestação e havendo a recomendação médica pela castração antecipada, pra nós a castração nesses casos não é uma alternativa viável.

Se há fetos, com um só dia de vida, faremos tudo para que nasçam fortes e saudáveis. Temos muitos encontros marcados e testemunhamos muitos milagres pra ignorarmos sinais como estes. Elas foram levadas para a casa da Lucinédia, é claro. Não há melhor território que aquele pra receber lobinhos tão especiais.

Assim que os cães foram colocados nas caixas de transporte, deixaram a antiga casa. Apesar do desgaste e do estresse da viagem, eles estavam felizes. Pareciam saber que um mundo melhor os esperava.

Pra nós, uma certa angústia por saber que precisaríamos devolvê-los, mas, ao mesmo tempo, a certeza de que aquele seria mais um importante passo.

Chegaram à Cão Viver ainda assustados e, como de costume, mantinham-se todos agrupados, buscando a proteção da matilha. Não agem como predadores, mas sim como presas. Isso é o que a evolução e os maus-tratos vêm fazendo com alguns deles.

Pela primeira vez, sentimos que avançávamos. É que os primeiros cães resgatados eram os mais velhos e já castrados. A liberação desses cães talvez fosse apenas uma forma de renovar o plantel de reprodutores.

Na verdade, sabíamos que não era isso, mas era inevitável não considerar tal hipótese. Nós não tínhamos outra opção que não fosse confiar e esperar.

Claro que sabíamos que não estávamos sozinhos; protetores de animais que atuam em outro plano estavam desde o início acompanhando e intervindo. E, talvez pra nos mostrar que aquele era mesmo o caminho, tivemos o privilégio de, mais uma vez, registrar momentos incríveis.

Embora estivéssemos sozinhos no canil tentando fotografá-los, muitos deles chegavam a fitar algo no alto, embora na direção do olhar de alguns não houvesse nada além de parede e telhas.

Eles fitavam e se acalmavam. Alguns paravam de tremer imediatamente, como se tivessem reconhecido seus anjos.

Aos poucos, eles começaram a se soltar, chegando mesmo a interagir conosco. Este grupo é bem menos arredio que aqueles primeiros resgatados.

Eles estavam tensos, mas, ao mesmo tempo, felizes.

Entre lobinhos de 2 a 5 quilos, uma moça de 15 quilos, definitivamente, não fazia parte daquela família. A Gabi (última foto abaixo) foi resgatada pelos tutores dos poodles, depois de ter sido atropelada em uma movimentada avenida. Foi operada, tratada e agora faz parte da matilha. Este parêntese é só uma prévia do que está por vir.

Como mencionado acima, a Cão Viver fez muito mais que apenas castrar os animais. Deu a eles um tratamento pra lá de especial. Primeiro, passaram por exames clínicos, receberam vermífugo e vacinas (óctupla e rábica).

Depois, um tratamento vip oferecido pela Bichos e Patas, que fechou sua loja em plena quinta-feira para deslocar seus funcionários para a Cão Viver e dar aos cães o tratamento que mereciam. Nada era mais urgente que um mutirão de banho e tosa.

O trabalho não seria fácil. Alguns pelos saíram inteiros, como se lhes tivesse sido arrancado o couro.

Mesmo assim, tudo corria bem. Os cães sentiam-se aliviados, à medida que os pesados casacos eram retirados.

Pepezinha era a menor da turma, pesando apenas 2 quilos. Sobrou muito pouco depois da tosa. No início, ela chegou a distribuir alguns dentes, que a Leila aceitou com gosto.

Aos poucos, ela foi se soltando e sentindo que tudo aquilo estava lhe trazendo uma sensação de conforto que ainda não conhecia.

Leila e Lucas foram os dois escalados para a tarefa, além do Fabiano, é claro, que não dispensaria a oportunidade de fazer o bem.

Logo, Pepezinha se acalmou. Entendeu que morder não adiantaria nem precisava. Assim que os primeiros bolos de pelos foram se soltando de seu corpo, o alívio pôde ser sentido.

Já o banho não foi dos mais apreciados. É possível que tenha sido o primeiro de sua vida, pelo menos com a qualidade de um Pet Shop. E valeu cada minuto daquele mutirão.

E valeu muito.

Enquanto a tosa acontecia, no canil eles continuavam amontoados. No início, tensos com cada um que saía. Depois, quando perceberam que aqueles que eram levados voltavam melhores, limpinhos, tosados e com a cara mais alegre do mundo, começaram a fazer fila, como se pedissem: __Agora eu, agora eu, eu, aqui, eu, eu!

Alguns não precisaram de tosa mas, mesmo assim, experimentaram os cuidados do Bichos e Patas em um banho bem refrescante. Eles estavam infestados de pulgas e receberam também o tratamento para se livrarem delas.

Assim que chegamos ao canil, aqueles que já estavam tosados vieram a nós, nos lambendo, como se agradecessem os cuidados.

O trabalho seguia e a transformação se operava. Não falo aqui da transformação dos cães. Essa era a mais visível.

Outras mudanças estavam sendo operadas, talvez no mesmo instante em que os cães estavam sendo cuidados.

Enquanto as atividades de tosa aconteciam lá fora, aqueles que já haviam passado pelo ritual aproveitavam pra deitar e descansar, sempre amontoados. Até a Gabi, embora recém-integrada àquela turma, parecia adaptada às regras da matilha e permitia que os pequenos buscassem conforto entre suas pernas.

Eles estavam assustados, mas a expressão de seus olhos nos transmitia paz e confiança.

As fêmeas tinham, todas elas, as tetinhas inchadas e flácidas. Passaram a vida gerando filhotes e não imaginam que esta fase já passou. Algumas reencontrarão seus filhos quando retornarem ao antigo lar, muitos deles ainda pequenos.

A sequência de fotos abaixo mostra a transformação que se operava nos cães.

Além do banho, não faltou o que eles mais precisavam.

O resultado final os colocava aptos a serem estrelas de propaganda de pet shop. E que seja este o melhor cartão de visitas da Bichos e Patas.

Por fim, a última a receber os cuidados da Leila foi essa bolinha de pelo. Quem via sua carinha de filhotinha recém-saída das fraldas, não imaginava que, do outro lado, um emaranhado de fezes e urina já lhe causavam assaduras.

A faxina começou pela cabecinha e evoluiu para as partes mais emboladas.

Ela ficava quietinha e aceitava a lâmina sem esboçar reação.

No final, já estava levantando a bundinha, como se pedisse: “-Me limpa, tia Leila?”

E cada sujeirinha foi removida. Pomadas foram necessárias para aliviar um início de assadura.

No final, tínhamos pra mostrar uma coisinha alegre, aliviada, feliz e agradecida, que distribuía lambidas em qualquer um que chegasse perto.

Só pra não passar de liso, até do banho ela gostou. A água aliviava as assaduras. Chegou mesmo a cochilar na banheira.

No dia seguinte, o grande mutirão de castração foi comandado pela Priscila, veterinária que trabalha há anos na Cão Viver e tem experiência de guerra, acostumada com os casos mais graves em todas as áreas.

Com a experiência acumulada como médica de um abrigo como a Cão Viver, castração ela faz com as mãos amarradas. Foram 11 castrações em um único dia, sendo que duas delas com um aperitivo a mais: uma mocinha tinha uma hérnia e outra estava com um tumor de mama.

Porém, tudo correu muito bem. Além da Priscila, outros voluntários compunham a equipe médica dentro do bloco, neste e em outro plano.

Ao final dos procedimentos, estavam todos os lobinhos amuados e tristonhos com os cones no pescoço.

No dia seguinte, a parte mais difícil, mas necessária ao trabalho que decidimos fazer. Todos seriam devolvidos. Esse era o combinado, esse foi o compromisso assumido e precisávamos cumprir a palavra dada e provar que éramos merecedores de confiança.

As duas fêmeas prenhes ficarão mais tempo conosco, com o consentimento do Sr. José, que aceitou receber fotos semanais delas, até que possam se recuperar e ser ao final castradas e devolvidas. Elas ficarão em tratamento em razão de alguns problemas de saúde e ainda esperam resultados de alguns exames.

Em casos como esse, as pessoas envolvidas, por amarem muito os animais, não conseguem admitir que cometeram erros, não conseguem enxergar que os cães não estavam bem tratados, que não eram felizes. O dono precisava ver a diferença, e foi aí que entrou a Cão Viver.

Não bastava apenas castrar. Os animais precisavam voltar visualmente em melhores condições do que estavam quando saíram. O tutor precisava ver a diferença pra entender que existem possibilidades melhores do lado de fora de sua casa.

E eles chegaram ao antigo lar tosados, cheirosos, limpinhos, livres das pulgas e com lacinhos coloridos. Todos com cartão individual de vacinas (óctupla importada e rábica), além do vermífugo.

A medicação para o pós-cirúrgico e os vermífugos para as próximas duas doses, tudo cedido gratuitamente pela Cão Viver, com recursos provenientes de doações recebidas no início dos trabalhos.

Com isso, a resistência do Sr. José, que já vinha sendo quebrada ruiu de vez. Ele se mostrou emocionado e comovido com tamanha dedicação.

Agradeceu a ajuda, se convenceu de que 6 é o número ideal pra ele e prometeu, depois de escolher os seis que continuarão por lá, nos entregar os demais para que possamos conduzi-los para novos lares.

Disse mais, que deseja conhecer e ser voluntário em um abrigo de animais. Aceitou nosso convite de ser voluntário e parceiro do Projeto O Lobo Alfa, recebendo como lar temporário fêmeas prenhes, dispondo-se a dar assistência e carinho aos novos resgatados, até que sejam doados.

Não importa o quanto erramos. Importa mais o que faremos de nossos erros. De minha parte, preciso ser também perdoado por ter um dia chamado de “inferno” uma casa que produziu tantos anjos. E atire a primeira pedra aquele que nunca pecou.

Esta história ainda não terminou. Entre a promessa de entrega e a efetiva liberação dos animais, há uma distância que vem sendo trabalhada com muito tato e paciência. Há resistências que ainda precisam ser vencidas, contudo acreditamos que estamos no caminho certo e que encontramos o “fio da meada”.

O trabalho precisa continuar, mas agora com uma grande expectativa de um belo final.

Não é fácil confiar e esperar, quando não se vê luz no fim do túnel e quando não se sabe o que está sendo feito do outro plano. Só me resta agradecer o dia que me foi dado o direito de viver e de ser voluntário em um projeto tão especial.

Infelizmente, nada do que estamos fazendo terá valido a pena, se não surgirem adotantes dispostos a dar a estes animais uma nova vida. E muitos daqueles primeiros resgatados continuam na Cão Viver esperando por uma adoção que nunca chega.

Não foi pra morrerem no abrigo que os resgatamos. Provocamos grandes transformações, não só na vida dos cães como também na vida do Sr. José, a quem esperamos um dia chamar de amigo e parceiro.

Esperávamos que esta matéria provocasse mudanças em outras pessoas, que se sensibilizassem e nos ajudassem a encaminhar cada animal abandonado para novos lares. Os adotantes dispostos a participar da transformação chegaram.

Na Cão Viver, aqueles primeiros resgatados foram adotados.

Infelizmente, pra estes que participaram do mutirão de tosa, a vida não mudou muito. Não tivemos a força que esperávamos pra convencer o tutor a entregá-los para adoção. O trabalho continua e não desistiremos. Sabemos que eles estão sendo acompanhados bem de perto por protetores invisíveis, que saberão protegê-los.

O pós cirúrgico transcorreu muito bem e a retirada dos pontos foi feita pela Giovanna Gama, do GiovannaPET, que interrompeu suas atividades pra dedicar uma manhã inteira aos pequeninos. Eles continuam por lá, mas agora castrados.

 

Ainda esperamos poder atualizar esta matéria.