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O resgate / A primeira feira

Foi em uma manhã de segunda-feira que 23 deles deixaram a antiga casa, com destino a uma nova vida.

Estavam assustados, é claro, mas pareciam tranquilos. Os que chegaram à Cão Viver eram exatamente aqueles que estavam mais magros, mais embolados, mais assustados.

Eram aqueles que tinham sido separados para serem doados.

Entre eles, haviam 3 ou 4 bichons, que até pareciam de raça pura, não tivessem tido as caudas amputadas.

Muitos eram mestiços do Poodle com Pinscher, o que fez nascer cãezinhos diferentes e até exóticos, embora todos muito pequeninos.

Eram 6 fêmeas e 17 machos. As seis fêmeas ficaram na Cão Viver, já que precisavam ainda ser castradas.

Os machos, já castrados, seguiram para Betim. Ficariam hospedados na casa da Denise, por absoluta falta de espaço na Cão Viver. Eles chegaram no sítio em Betim e foram deixados juntos, em um canil grande e espaçoso.

Lá receberam as primeiras vacinas e vermífugos. Na medida do possível, alguns foram tosados e outros precisariam  aguardar o grande mutirão de banho e tosa que aconteceria na Cão Viver.

Infelizmente, o sítio em Betim era distante demais para os voluntários.

De qualquer forma, apesar do desgaste do resgate e da viagem, eles chegaram felizes na nova casa. Até aquele momento, eles não tinham vivido grandes mudanças, mas pareciam saber que estavam no caminho delas.

Dentre todos, um se destacava. Foi o primeiro a receber um nome. Foi chamado de Igor pela Denise e viria a ser o personagem principal de uma das frustrações que protetores costumam experimentar.

Ele é um cãozinho alegre e brincalhão, que adora colo. Fica de pé sobre as pernas traseiras e balança as patinhas dianteiras, como se chamasse as pessoas para se abaixarem ou virem até ele.

Estes cães evoluíram para dividir a cama e o travesseiro com os donos. Mesmo acomodados temporariamente em um canil, eles pareciam sentir a diferença na energia que os rodeava.

As boas-vindas foram dadas pessoalmente pela Denise, com a experiência de quem já ajudou a socializar muitos outros antes deles. Este ratinho marrom de pelo curto, o único Pinscher puro da turma, recebeu o nome de Calixto.

Enquanto isso, na Cão Viver, os trabalhos seguiam com as fêmeas.

Aquela Poodle com um tumor enorme estava entre as resgatadas, é claro. Constatou-se que aquela bola não era um tumor, mas uma hérnia, que já alojava parte de seu intestino, provocando uma mudança de posição de alguns órgãos internos.

O caso era muito grave já que o aparelho digestivo estava obstruído, o que a impedia de defecar ou de se alimentar. Com um quadro assim, nenhum cachorro viveria mais que algumas poucas horas.

Isso nos leva a certeza de que ela foi salva no último minuto. Foi operada às pressas pela Priscila, veterinária da Cão Viver com experiência nos piores casos.

IP 55

Na Cão Viver, cada cachorro é tratado como se fosse o único.

Entre as fêmeas, duas ratinhas peludinhas, com ¼ ou talvez menos de Pinscher, garantiu a elas o tamanho micro toy.

Outras duas, estas com um percentual maior de Pinscher, herdaram o tamanho das duas raças que compõem seu DNA.

Uma mais peludinha e outra de pelo baixo, com cara de vira-lata.

IP 57

Chegou o sábado, dia muito esperado. As expectativas eram as melhores. Muita gente se oferecendo pra ajudar no mutirão e outro tanto manifestando o desejo de adotar.

Os machos eram 17 e já estavam todos vacinados, vermifugados, castrados e examinados. Alguns já estavam tosados e outros passariam pela tosa ali mesmo.

As surpresas foram as melhores possíveis em um aspecto e as piores possíveis em outro.

Com relação à união de voluntários e funcionários, a nota foi 10, com louvor. Muita gente compareceu, mais que esperávamos.

A Brigada Planetária transferiu temporariamente para o pátio da Cão Viver parte de sua diretoria, para dar banhos e ajudar na organização da feira.

Muitos outros voluntários, alguns tosadores com experiência e outros só com a boa vontade. Os médicos e estagiários da Cão Viver renunciaram ao feriado para estar ali.

O fato é que o mutirão funcionou bem e todos os cães foram tosados, uns bem e outros menos.

Mas o fato é que estavam todos em condições de serem adotados. Os machos já poderiam deixar o abrigo e as fêmeas precisariam aguardar alguns dias para castração e o pós operatório.

Nas fotos abaixo, a grande festa foi receber os cães e interagir com eles. O dia foi cheio e agitado, mas eles pareciam felizes. Era gente demais e cada um que passava perto de um cachorro fazia questão de estender os braços e fazer um afago.

Eles nunca receberam tanta atenção e tanto afeto. Nenhum voluntário que esteve ali vai conseguir esquecer aquele dia.

Não é exagero dizer que os animais estavam felizes. Esses cãezinhos estão muito avançados no processo de humanização. Alguns deles só faltam falar, e outros, falam usando a língua dos sinais.

Com tudo pronto, era hora de esperar pelo principal: os adotantes. Eles eram as pessoas que tinham o poder de encerrar a festa, de fazer a diferença.

Esperamos, esperamos, esperamos e esperamos, mas eles não vieram. Pelas redes sociais, havia mais de 50 pretendentes. Acreditávamos que pelo menos os 17 machos que já estavam castrados poderiam deixar o abrigo, nos permitindo buscar outro tanto.

Mas eles não vieram. Talvez o feriado, talvez a chuva (Não choveu. Até o tempo ajudou). Não é o caso de tentar entender.

Duas fêmeas foram adotadas. Só não puderam deixar o abrigo nos braços dos novos donos porque ainda serão castradas e farão o pós operatório na ONG. Mas as duas ratinhas pretas estão com o futuro garantido.

Sem adotantes, eles ficaram tempo demais esperando e foram se desanimando. Era claro o desconsolo daqueles cães.

Precisamos explicar que os cães não são cãezinhos de exposição. Eles estão magros, judiados, um pouco assustados. Não são os mais belos exemplares da espécie.

Infelizmente, os poucos adotantes que chegaram não se interessaram. Talvez esperassem coisa melhor. Alguns deixaram o abrigo decepcionados: __Mas é isso?

É ISSO. É exatamente ISSO o que temos pra oferecer. E não queremos aqui pessoas interessadas em cãezinhos de revista. Não queremos aqui gente interessada em um cãozinho de raça. Não queremos por aqui gente que não entenda que esses animais precisam ser ajudados.

Assim que os portões da ONG se fecharam, decidi entrar na pequena suíte onde alguns deles estavam acomodados. E tentei fazer fotos que fossem capazes de transmitir o que eles estavam sentindo, e que era também o sentimento de cada protetor, de cada funcionário e de cada voluntário que lá estava.

Não sabia se pedia desculpas a eles pelo preconceito de nossa espécie, ou se prometia que daria o sangue pra mostrar e descrever o que estava acontecendo ali dentro.

E que cada um interprete estes olhares como puder.

Alguns desses cãezinhos são sociáveis e vêm no colo de pessoas estranhas sem cerimônia.

Mas, a maioria deles é de lobinhos ainda assustados e arredios. São dóceis, mas precisam de tempo, de socialização, de cuidados, de carinho. A maioria deles precisa ser conquistada.

O dia já estava no fim, mas havia ainda algo muito importante a ser feito ali.

Aqueles lobinhos precisavam entender que a vida era boa. Precisavam saber que havia quem se importava com eles.

Então, eles foram soltos no pátio, onde tiveram um bom tempo socializando com os diretores da Cão Viver.

Primeiro, foram deixados à vontade, cheirando e pisando a terra, correndo, pulando, marcando um território que nem sequer é deles.

Claro que, a essa altura, não importava se estavam deitando na terra depois de terem tomado banho. Afinal, aquela faxina toda não tinha lhes trazido os tão sonhados adotantes.

Só pra explicar a livrar a cara de alguns tosadores profissionais que lá estavam, este aí fui eu quem tosou. Mas o trabalho ainda não terminou e o pessoal da tosa ficou de voltar no domingo pra terminar o serviço.

É claro que vão pegá-lo de novo. Resta saber se vai ter conserto. Mas se não consertar tudo no domingo, na próxima tosa alguém dá jeito nele.

Outros apenas tiraram os bolos na tesoura mas conservaram a carinha peluda, talvez pra fazer pose e servirem de atrativo para as próximas feiras.

Tinha também lobinho miúdo buscando posto de observação mais alto. Ali, ele se coroava o Rei. E será, em breve.

Depois de um tempo relaxando na área de terra, era hora de interagir com as pessoas. Petiscos são um bom começo.

Aos poucos, eles foram se aproximando, mostrando que não eram tão arredios assim. Até beijo distribuíram, como se agradecessem a acolhida.

Quem se lembra do Igor, aquele cãozinho que ficava de pé balançando as patinhas?

Pois é. Ele tinha sido adotado. Deixou o abrigo no colo do que acreditamos que seria uma ótima adotante. Moraria em um apartamento e teria companhia de outra cadelinha muito parecida com ele, quase do mesmo tamanho.

Mas aí, menos de 2 horas mais tarde, ele estava de volta, devolvido. É que ele chegou à nova casa e foi bem recebido pela companheira peludinha, mas ele ficou arredio, com medo, se escondendo.

Esta foi a razão da devolução. Quando chegou, sua turma já estava se divertindo na terra. Ele foi deixado entre os seus e foi logo recebido pelos amigos, como se o perguntassem por onde andou.

Chegou meio cabisbaixo e parecia saber que algo não tinha dado certo.

Mas em questão de minutos já estava novamente alegrinho. Afinal, estava entre os seus.

Mais tarde, ele se aproximou das pessoas, como se pedisse acalanto. O dia tinha sido cheio pra ele.

E ganhou o que precisava, na medida certa. Aqui não vai faltar colo pra você Igor.

A socialização com os diretores da ONG se estendeu pelo resto do dia até o início da noite. Em pouco tempo já estavam todos rodeando as pessoas, pedindo carinho e colo, sabendo que ali tinha algo que valia a pena.

Eles não são selvagens. Estão prontos para se renderem. Precisam apenas de paciência.

Claro que o Igor era sempre um dos primeiros a reivindicar o colo.

Era hora de prepará-los para a noite fria. Pelo menos aqueles que estavam pelados precisavam de roupinhas. Estranharam um pouco porque não conheciam isso. Mas vão se acostumar.

O trabalho continuou por um longo tempo. Voluntários estiveram na Cão Viver apenas para fazer companhia aos cães e ajudar na socialização deles. Eles chegaram com petiscos e passavam o dia oferecendo colo e afagos.

Demorou um pouco, mas todos eles ganharam uma segunda chance. Resta-nos torcer para que aqueles que se dispuseram a levá-los, sejam de fato merecedores do presente que ganharam da vida.

Para quem chegou agora, eis o link da primeira matéria, contando a história destes e dos outros que continuam por lá. http://oloboalfa.com.br/campo-dos-poodles/