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Até agora, 28 animais deixaram a antiga casa (de agora em diante, não chamaremos mais de “inferno”). Entre eles, os mais velhos e debilitados, salvo algumas exceções.

São Poodles e mestiços de Pinscher com Poodle, todos muito pequenos. São todos dóceis, carentes e um tanto arredios.

Embora tenham evoluído pra viver no colo e dividir a cama com os donos, eles não conheciam nada disso. Não tinham caminha, colo, afagos regulares. Alguns ainda se mostram assustados.

Não sabemos quais os métodos eram usados para estancar os latidos e uivos noturnos. Melhor mesmo não saber. Basta-nos a constatação de que eles precisam de colo pra entender que a vida começa agora, mesmo que, para alguns deles, com muito atraso.

Desperdiçaram a vida sendo acumulados feito lixo.

Para alguns daqueles primeiros resgatados, a nova vida já começou. Metade deles já foi adotada. Estão felizes, descobrindo um mundo diferente daquele amontoado onde viviam.

Outros, apesar do resgate, continuam aguardando por uma adoção que ainda não chegou.

Como alguns ainda são arredios, a Cão Viver tem recebido ajuda de voluntários, que vão ao abrigo apenas para fazer companhia a eles. São pessoas que oferecem apenas colo. Aos poucos, eles vão aprendendo que viver é bom.

Nos primeiros dias, eles sentiram a rejeição. Isso porque estavam judiados demais e as adoções não vieram.

Eles se amontoavam buscando a proteção do grupo, repetindo o mesmo comportamento de quando ainda viviam naquele lugar.

Eles pareciam tristes. Vivem o presente e parece que aprenderam a não esperar muito do futuro. E não tinham mesmo esperança de coisa alguma. Nasceram amontoados e esperavam morrer assim.

Dos 28 Poodles resgatados, restam ainda 10 na Cão Viver e 3 na casa da Lucinédia. Aos poucos, eles estão melhorando.

Esta semana, a Cão viver recebeu uma ajuda pra lá de especial. Um grupo de alunos do Colégio Novo Mundo esteve no abrigo. Eles tinham um trabalho pra fazer e escolheram como tema, a “proteção animal”, mesmo sem saber muito bem o que isso significava. Como a vida sempre reúne as pontas soltas, encontraram a Cão Viver, que tem um projeto de educação ambiental voltado para escolas.

Para conseguirem a experiência que faltava e conhecerem de perto a causa que decidiram explorar, nada melhor que um trabalho de campo. Deixaram seus afazeres para viver uma experiência única, ajudando na socialização dos animais.

Acreditamos que a escola da vida deveria exigir estágio em um abrigo de animais. É uma experiência que nos faz melhores. Mas quando uma instituição de ensino proporciona experiências assim aos seus alunos, sabemos que ali está sendo formada a geração que vai provocar as mudanças que tanto sonhamos.

Nas primeiras semanas após a chegada ao abrigo, os cães mostravam-se muito arredios com as pessoas, o que dificultava muito o processo de adoção. Eles se amontoavam uns sobre os outros. Foi isso que aprenderam a fazer pra se protegerem, não se sabe do que.

Com o passar do tempo, eles começaram a melhorar, em razão da ajuda de voluntários que visitavam o abrigo apenas para fazer companhia a eles e ajudar na sua socialização. A aproximação precisou ser lenta, com paciência, cuidado e muitos afagos.

Quando da visita dos alunos do Colégio Novo Mundo, os cães já não estavam mais tão arredios e assustados quanto antes, mas ainda assim continuavam precisando de colo. Era um processo lento que já estava pelo meio.

Jade, Laura, Giovana, João Victor e Bernardo são os alunos que estiveram no abrigo. Para a nossa surpresa, que esperávamos adolescentes inexperientes, eles chegaram com os bolsos abarrotados de biscoitos caninos.

De longe, os cães que, a essa altura, já estavam mais acostumados com visitas, mostraram-se curiosos com a chegada do grupo. Pareciam saber que a visita era pra eles.

Aos poucos, incentivados pelo cheiro de bolacha que vinha dos bolsos dos visitantes, os cães foram se aproximando e tentando fazer amizade.

Os jovens puderam contar com a ajuda do Sr. Bandeira, que trabalha há alguns anos na Cão Viver e entende como poucos a língua dos lobos.

Superados os primeiros instantes, os jovens humanos em formação foram se misturando aos lobinhos experientes.

Eles tiveram muito tato e souberam respeitar o tempo dos cães. Em pouco tempo já estavam todos falando a mesma língua.

Nesse caso, nem precisamos de tradutores ou intérpretes. Eles falavam a língua universal que uniu homens e lobos, que fez nascer a mais intensa relação de afeto e amizade entre espécies, jamais vista em toda a existência desse planeta.

Alguns já estão bem mais afáveis e dispostos a receber e dar carinho. A sequência abaixo pode ser interpretada de várias maneiras. Pode ser uma declaração de amizade, um pedido para ser escolhido ou apenas um obrigado pelos momentos felizes.

Os lobinhos estão bem, amparados e protegidos. Sempre que possível, são paparicados por funcionários e voluntários. Mas precisamos lembrar que continuam em um abrigo. E ali, definitivamente, não é o lugar deles.

Alguns deles continuavam arredios, mas mesmo assim se acomodavam e relaxavam quando colocados no colo. O medo é sequela de um tempo que esperamos possam eles um dia esquecer.

Aos poucos, os semblantes dos cães foram mudando, junto com o comportamento. Muitos já procuravam os colos, como se pedissem: “_Podem me fazer carinho?”

Na terceira foto abaixo, um simples obrigado dirigido ao céu.

Depois de algum tempo, eles começaram a eleger suas preferências. Alguns cães pareciam ser feitos pra alguns colos. E não queriam sair deles.

 

 

E a química era tão perfeita que chegamos a flagrar  lobinhos cochilando no colo. Pra cães que corriam de gente, não resta dúvida de que estão evoluindo muito. Alguns pareciam ronronar.

Trabalhos voluntários em abrigos de animais têm a força pra nos fazer melhores. Flagramos alguns momentos que merecem destaque, como a sequência abaixo, entre Bernardo e Pingo.

Uma conversa em silêncio, em uma língua que só eles entendiam. Talvez algum combinado, votos de felicidades ou mesmo promessa de novo encontro. É certo que os cães estarão mais receptivos depois dessa visita, mas é certo também que estes jovens, ao deixarem o abrigo, já eram pessoas melhores.

E é possível que este encontro volte mesmo a acontecer. Afinal, assim nascem protetores de animais. Foi deles a escolha do tema do trabalho que fariam, certamente atendendo a um chamado que talvez nem mesmo os professores e pais puderam ouvir.

A atitude desses jovens é a certeza que temos na transformação planetária que já se opera. Ainda falta muito, mas os avanços já são notados dia a dia.

A sequência das fotos mostra o que aqueles jovens estavam fazendo ali.

A visita foi rápida, mas suficiente pra provocar grandes transformações. Os jovens deixaram o abrigo um pouco melhores do que entraram. Para os cães, suas chances de adoção aumentaram um pouco. Com o tempo eles vão aprendendo que não estão sozinhos e nem esquecidos. É certo que estarão menos arredios quando os pretendentes à adoção chegarem. As adoções virão, na medida do merecimento de cada um deles.

Amizades nasceram ali e não serão esquecidas. Vínculos podem ter se formado, mas isso o tempo vai mostrar. Os sorrisos abaixo são a melhor forma de agradecer aos alunos e professores do Colégio Novo Mundo pela ajuda. Sejam sempre muito bem vindos.

E que o exemplo seja seguido por outras escolas. Mais que conteúdo, as instituições de ensino precisam preparar pessoas de bem, para que sejam a mudança que esperamos ver no mundo.

Todos estes cãezinhos acima foram adotados. Na Cão Viver, outros 120, a grande maioria sem raça definida, esperam pelo dia em que terão a sorte de serem escolhidos.

 

Para quem chegou agora, eis o link da primeira matéria, contando a história destes e dos outros que ainda aguardam o dia em que terão o direito de deixar o lugar.

http://oloboalfa.com.br/campo-dos-poodles/