Tweetar

Compartilhar



Esta história é pra fazer pensar, pra provocar mudanças, pra libertar vidas.

Um dia, algumas crianças que brincavam na rua bateram à porta de nossa casa com uma caixinha de sapatos nas mãos. Disseram que ali havia um filhote de pássaro que caíra do ninho. Entregaram-nos o achado, imaginando que talvez soubéssemos o que fazer com ele.

O “filhote” não estava bem. Não sabíamos que espécie era, mas logo vimos que não se tratava de pássaro urbano.

Chico 2

Assim que foi colocado em uma gaiola, ele deixou claro que conhecia o ambiente.

Não precisamos de muito tempo pra identificar um legítimo curió. No dia do resgate, ele nos parecia mesmo filhote, mas sabíamos que não tinha caído do ninho. Claro que ele tinha escapado de algum criador de fundo de quintal. Não trazia qualquer identificação ou anilha.

Assim que procuramos pesquisar sobre a espécie, descobrimos que os curiós são pardos até quase um ano de vida. E o nosso “filhote” já possuía as duas cores características, o que nos indicava já ser adulto. É certo que nasceu em cativeiro e escapou, mas não teve forças pra voar e caiu exausto em uma calçada qualquer, quando encontrado pelas crianças que brincavam por perto.

Viveu na gaiola por uns dois meses. Chegamos a flagrar um bater de asas, muito embora as asas de um pássaro, em uma gaiola, sirvam apenas pra estabilizar o pulo. Não há como voar em tão reduzido espaço.

Chico 3

A verdade era que, mesmo por caminhos tortos, ele chegou vivo aonde deveria ter chegado. Não muito distante, uma nova etapa do Projeto O Lobo Alfa estava em fase final de preparação.

As obras do santuário para reintrodução de animais silvestres estavam bem adiantadas.

Um viveiro, com cem metros quadrados, água corrente, espelho d’água, árvores frutíferas e mais alguns atrativos já estava quase pronto.

Chico 4

Não temos autorização do IBAMA para receber animais, mas este chegou às nossas mãos sem procurarmos por ele. Só podemos acreditar que a vida o havia conduzido. Na verdade, já não temos mais dúvidas dessas coisas.

Então embora ainda pendente de registro e aprovação, achamos que precisávamos usar o que tínhamos. Aqueles aposentos tinham mesmo sido feitos para o Francisco.

Claro que animais silvestres não criam vínculos afetivos com humanos, mas, mesmo assim, daremos nome a cada um deles. Se os objetivos do Projeto O Lobo Alfa são sensibilizar e ajudar na preparação e transformação das pessoas para os novos tempos, cada animal que cruzar nosso caminho receberá um nome. Só assim as pessoas vão entender que ali existe uma vida, uma individualidade que precisa ser respeitada e protegida.

Cada um deles terá uma história que ajudará a salvar outras vidas.

Chiquinho chegou ao santuário na mesma gaiola em que estava desde o resgate. Dois meses haviam se passado. Esse foi o tempo que precisamos pra concluir o viveiro e poder recebê-lo.

Colocamos a gaiola no chão e abrimos a portinha.

Chico 5

Ele batia as asas, mas não parecia interessado no que estava do lado de fora. Então decidimos retirar as vasilhas de alpiste e posicionar os poleiros no chão, próximos à saída.

Chico 6

Ele não estava mesmo interessado. Voava nas grades, chegava a cabeça na porta, esticava o pescoço para fora, mas voltava para a prisão. Talvez se lembrasse da primeira vez que deixou a gaiola. Não devem ser boas as lembranças. Afinal, ele quase perdeu a vida.

Chico 7

E logo entendemos o porquê de tanta insegurança. Assim que deixou a gaiola, saiu voando de forma desordenada, sem coordenação. Trombava nas telas e se agarrava nos galhos das árvores, ficando pendurado de cabeça pra baixo.

Estava claro que ele não sabia voar. Não tinha controle de voo e talvez não soubesse sequer procurar comida e água, mesmo dentro do viveiro, com comedouros espalhados e uma fonte de água corrente à disposição dele.

Talvez, pela primeira vez, entendemos que reintrodução não é apenas libertar. Era preciso muito mais. Ali foi possível também entender o tamanho da agressão que existe em uma gaiola.

Chegamos a pensar que precisaríamos colocar uma lona sobre o lago e oferecer água a ele em vasilhas pequenas, por medo que ele se descontrolasse e se afogasse.

Tivemos que passar um bom tempo vigiando de perto e forçando-o a pequenos voos. Afinal, ele precisava aprender a usar as asas pra sobreviver ali. Não era um ambiente inóspito. Ao contrário, tinha sido cuidadosamente preparado para que ele aprendesse a viver em liberdade, com segurança e proteção.

Nos primeiros dias, ele se recusava a pousar nas árvores. Buscava sempre a proteção das telas ou dos caibros do telhado.

Chico 8

Ficou quase 10 dias vivendo assim, escondido a maior parte do tempo nos caibros do telhado. Tivemos que posicionar vasilhas de água e comida em pontos estratégicos, próximos de seu lugar de descanso. Era preciso facilitar ao máximo a vida dele. Sabíamos que era uma questão de tempo, mas essa espera foi angustiante.

Queríamos vê-lo tomando banho na fonte, marcando o território, deixando claro a outros curiós que ali havia um dono (só esclarecendo: eles marcam o território com o canto).

As primeiras frutas da estação amadureceram dentro do viveiro. O nome disso é boas-vindas. Mesmo assim, ele não parecia muito interessado, porque curiós não gostam muito de frutas: são pássaros que se alimentam basicamente de sementes. As frutas vão servir para outros.

Chico 9

Depois de uns 10 dias vivendo no caibro do telhado, ele passou a se aventurar um pouco mais. Das telas, ele se arriscava a explorar alguns galhos da amoreira que parecia lhe estender as mãos.

Chico 10

Ele precisava de exemplos. Então decidimos pendurar um comedouro com muitas sementes do lado de fora do viveiro. Ele precisava assistir a algazarra dos pássaros que estivessem em liberdade. Só assim ele entenderia o que estávamos tentando fazer por ele.

Chico 11

E, como convidados para uma festa, eles começaram a chegar.

Chico 12

Além das mesmas frutas, mesmas árvores, mesmos comedouros, o lado de fora oferece também as mesmas fontes de água corrente. Tudo foi planejado para que eles se adaptassem rápido, quando chegasse a hora de ganharem a liberdade.

Chico 13

Não demorou muito e o Chico entendeu o recado. Passou a ciscar a terra, apanhar bichinhos no chão e nos galhos das árvores.

Chico 14

Em pouco tempo, ele trocou os caibros do telhado por alguns galhos da amoreira. Já nem é visto mais na parte coberta do viveiro. Claro que poderá continuar se protegendo por lá, principalmente em caso de chuva forte.

Mas o ideal mesmo é que ele aprenda a se virar na natureza. Afinal, a vida que está levando agora é só um treinamento para o que está por vir.

Chico 15

Nos vídeos abaixo é possível ver a evolução do Chiquinho. O primeiro, na primeira semana, mostrando o viveiro vazio e o nosso campeão refugiado no escuro, sobre o caibro do telhado. Foi assim que ele viveu por 10 dias, com medo do mundo.

No segundo vídeo, já se aventurando pelos galhos da amoreira. No terceiro, aprendendo a ciscar o chão e, finalmente, bem adaptado, explorando os galhos e o suprimento extra de petiscos que a natureza pode lhe oferecer.

http://youtu.be/o8Sof0gQK7w

http://youtu.be/S93BdWh9VwQ

http://youtu.be/08fSpXhC16s

http://youtu.be/UpakXtL147s

O estágio é longo e ele tem muita coisa pra aprender. Encontrar sementes enterradas na terra faz também parte do treinamento. E ele tem aprendido bem. Isto porque fizemos uma plantação de alpiste, painço e outras sementes, dentro do viveiro, e ele tem sido uma verdadeira praga na plantação.

Não faz mal. É tudo pra ele mesmo. Plantaremos de novo e de novo, quantas vezes ele precisar.

Chico 16

Percebemos também outra mudança em seu comportamento. Criadores costumam proteger suas aves do vento frio.

Mas, em um viveiro aberto, construído no meio de uma reserva, não dá pra cercar o vento. Então, ele terá que se acostumar ao vento frio. Aliás, de agora em diante, ele terá que lidar com as mudanças do tempo, como se livre estivesse.

E não tem sido difícil. Basta as árvores em volta começarem a balançar que ele se posiciona no galho mais alto da amoreira e fica ali ao sabor do vento, permitindo o desalinho de suas penas. Vento nas asas é coisa com a qual ele precisará se acostumar, mas já demonstra gostar.

Chico 17

Outra mudança grande foi na posição dos poleiros. Nas gaiolas, os poleiros são horizontais. Empoleirar-se em galhos de 45º não é muito confortável. Talvez por isso tenha demorado tanto a se acostumar com as árvores, mas agora ele não troca os galhos da amoreira por caibro nenhum. Posiciona-se como um rei e canta.

Descobrimos também que curió é pássaro solitário e territorialista. Ele se impõe pelo canto, avisando aos outros que aquele território tem dono. Não é um território muito grande. Um raio de 100 metros é o bastante para cada macho.

Onde tem um curió cantando, outro não se aproxima. O Chico ficou mudo por muitos dias, possivelmente por ouvir o canto de outros de sua espécie e se sentir invasor.

Há alguns dias, ele voltou a cantar. Da mata é possível ouvir a resposta, mas os que estão na natureza não se aproximam. Isso nos mostra que o nosso Chiquinho já tomou posse do território em torno do viveiro. Assim que sair, não precisará buscar outros caminhos. Poderá fixar morada ali mesmo.

Chico 18

Já era um ótimo começo, mas precisávamos dar ao, cada dia menos nosso, Chiquinho, um motivo especial pra se fixar ali.

Chico 19

O trabalho do Projeto O Lobo Alfa com animais silvestres, embora ainda em fase de aprovação e registro, já é conhecido e a história do Chico, mesmo não divulgada oficialmente, já era conhecida de alguns seguidores e voluntários.

Então recebemos uma ligação de alguém que nos oferecia uma fêmea de curió. Assim como o Chico, ela também foi capturada em área urbana. Sua origem estava estampada em uma anilha que trazia na perna esquerda. Essas anilhas são lacradas e colocadas assim que o filhote nasce, antes de 5 dias de vida.

Não era possível fazer a leitura do código, e nem tínhamos interesse em conhecer sua origem. Isso não era importante. É certo que a pequenina Chica havia fugido do cativeiro e novamente capturada. Por vontade do destino, chegou às nossas mãos e isso nunca é por acaso.

Chico 20

É possível até que ela tivesse um nome, mas pra nós, a partir de agora será Francisca, claro.

Chegamos com a Chiquinha na fazenda e colocamos a gaiola no chão do viveiro.

Afastamo-nos um pouco e dissemos ao Chico: _ Vê se despista e não mostra muito interesse. Valorize-se. Você tem um território que ela nunca sonhou em ter. Tire proveito disso.

Daí ele pousou num galho mais baixo da amoreira, depois passou para a beirada da tela, veio até o chão, próximo à gaiola e começou a ciscar por ali, como se não tivesse nem aí pra novidade. Parecia que ele tinha entendido as instruções.

Chico 21

De repente, ele se aproxima mais e empoleira-se na gaiola fazendo serenata pra ela.

_Pelo amor de Deus criatura! É assim que você vai se fazer de difícil? Ela vai montar em você.

Chico 22

Agora, já era. Depois dessa demonstração explícita de paixão à primeira vista, não tinha mais como consertar nada.

Então, abrimos a porta da gaiola e esperamos que ela saísse pra conhecer a nova casa.

Mas aí, como a Chiquinha não saiu, o garoto afoito resolveu buscá-la à força. Puxa! A sensibilidade passou longe.

Ele entrou na gaiola e se sentiu em casa. Bebeu da água dela, comeu de suas sementes e ainda cantou de galo, dentro da gaiola dela!

Chico 23

_ Velho! Já vi cantada grosseira, mas essa foi terrível. Essa dancinha aí eu até já vi numa reportagem e sei que é legal, mas de resto…

Chico 24

O fato é que, com a invasão da gaiola pelo sujeito mais folgado do planeta, restava à Chica deixar a gaiola pra ele e assumir o novo território.

Para a nossa alegria, a Chiquinha não causou tanta preocupação. Seu voo era tímido e curto, mas com controle. Ela sabia bem aonde ir e como pousar. Tomou posse da amoreira e parecia estar à vontade ali.

Chico 25

Logo depois, reiniciaram-se as demonstrações de interesse. O sujeito cantava e dançava feito um bobo. E, quando tentava uma aproximação mais entusiasmada, ela o colocava pra correr, ou melhor, pra voar.

Chico 26

A situação agora é a seguinte: ela se apossou do poleiro preferido dele. O menino continua interessado e ela se fazendo de difícil.

Vão dormir em quartos separados na primeira noite, mas é certo que vão se entender.

Chico 27

Nos vídeos abaixo, o primeiro encontro, os primeiros voos da Chiquinha depois de deixar a gaiola, a dança do acasalamento e, no último, Chiquinha, a dona do pedaço.

http://youtu.be/a_07leuapRs

http://youtu.be/8BNXHmqZlmk

http://youtu.be/gka1Ky1tRB0

http://youtu.be/PLSf2KiFlNI

A previsão inicial era de que ficassem por 6 meses no viveiro e, quando estiverem fortes e prontos pra ganhar a liberdade, uma janela será aberta e assim será mantida pelo tempo que eles precisarem. Tentaremos registrar o momento da soltura em vídeo pra divulgar aqui.

Poderão ir e voltar, até que decidam não voltar mais, ou até que estejamos prontos para receber outros pássaros, vindos de um centro de triagem.

Do lado de fora, eles vão encontrar um território bem maior que o que têm hoje. Tudo igual, mas em tamanho bem aumentado. Uma fazenda reflorestada com frutíferas e preparada apenas pra isso.

Chico 28

Esperamos que eles aprendam a manter distância de nossa espécie. No que depender de nós, eles vão conseguir, pois o santuário foi idealizado pra eles e tem como função produzir apenas histórias.

Chico 29

Não sabemos se eles terão vida longa ou se vão deixar descendentes livres. Mas é certo que terão vida. Gaiolas são cruéis. Nossa espécie precisa entender que não é justo retirar de um pássaro o direito de voar. Eles evoluíram pra isso.

Acreditávamos que enquanto estivessem se preparando para a liberdade, Chiquinho e Chiquinha viessem a se acasalar. Eles não estavam ali pra isso, pelo menos enquanto estivessem presos. O objetivo de termos aceitado a doação de uma fêmea foi para que ambos tivessem uma segunda chance e pudessem, juntos, se adaptar melhor à vida livre que os espera.

Eles estavam em um caminho sem volta para a liberdade total. A certeza que tínhamos era, caso o acasalamento acontecesse, seus filhos não nasceriam escravos. Assim que estiverem prontos pra deixar o ninho, as janelas do viveiro serão abertas.

Porém a vida conduziu as coisas com tal precisão que só podemos acreditar que já estavam escritas… Quando Chiquinho e Chiquinha vieram para o santuário, a Fazenda Vale dos Sonhos estava ainda em fase de registro no Projeto ASAS, junto ao IBAMA. Enquanto o processo corria, Chiquinho e Chiquinha voavam. Suas asas ficavam mais fortes. A plantação de sementes feita dentro do viveiro os ensinou alguns segredos da vida livre.

Do lado de fora do viveiro, muita coisa acontecia à revelia de nossos guerreiros. Foram trabalhos de campo, alguns ajustes, vistorias, documentos e, finalmente, recebemos o presente que faltava. Fazia pouco mais de quatro meses da chegada do Chico quando o santuário foi aprovado. E aí a vida do casal mais ilustre daquelas terras começou a mudar.

Em uma manhã de quinta-feira, chegavam ao santuário os novos amigos dos Chicos, trazidos por uma equipe de biólogos e fiscais do Instituto Estadual de Floresta (IEF). Cento e cinquenta aves de variadas espécies, todas apreendidas do tráfico ou de cativeiro ilegal. Alguns ainda fracos e sem força nas asas, outros machucados por se debaterem contra as grades.

Ibama 1

Alice, Mariana, Daniel e Diego foram encarregados da tarefa. Naquelas gaiolas, havia muito mais que esperança e sonho de liberdade. Esperamos que a dor e o desespero daquelas aves sejam rapidamente esquecidos por elas, mas sirvam pra ensinar aos homens um pouco mais.

A transformação que esperamos ver no mundo está acontecendo e nossa espécie precisa sepultar de vez a estupidez e entender que não estamos aqui sozinhos.

As gaiolas foram colocadas dentro do viveiro e as portas foram abertas.

Ibama 2

Aos poucos, eles foram deixando as grades, ainda sem entender a novidade. Alguns se posicionaram sobre as gaiolas, um sinal de que, infelizmente, passaram tempo demais confinados. Na verdade, estavam apenas recuperando o fôlego perdido na viagem.

Ibama 3

Não foi preciso muito pra que eles começassem a se espalhar, buscando, cada um, sua zona de conforto e segurança. Um sabiá e um trinca-ferro descobriram um arbusto com frutinhas silvestres, caprichosamente nascido por acaso ao lado da fonte de água. Em menos de uma hora, eles comeram todas as frutas maduras, talvez pra nos convocar a plantar mais.

Ibama 4

Enquanto alguns buscavam o conforto dos poleiros mais estáveis, outros preferiam os galhos das árvores, o chão de terra ou mesmo as pedras da fonte.

Ibama 5

As sementes próprias do cativeiro estão disponíveis por toda parte, mas alguns preferiram buscar a comida na plantação de alpiste que já começa a soltar os pendões. Posicionar-se nos galhos finos dos arbustos ou no emaranhado de capim alto é um excelente indicativo. Nós nos lembramos do Chico, que passou mais de uma semana no caibro do telhado.

Ibama 6

Ibama 7

Se a maioria buscava o descanso, outros deixavam claro que já estavam prontos pra viver. O banho do sabiá serviu para regar a grama em volta. Nas gaiolas eles até tomam banho, mas ainda não tínhamos visto um pássaro jogar tanta água pro alto.

Ibama 8

Os canários estavam em maior número. Só dessa espécie eram 58 aves. Mesmo assim, eram os mais discretos. Poucos foram aqueles que se posicionaram diante da câmera. Talvez eles tenham sido capturados há menos tempo.

Muitos do bando ainda são pardos, o que indica que são mesmo jovens recém-capturados. Isso dará a eles excelentes chances quando ganharem a liberdade.

Ibama 9

Quanto ao Chiquinho, ele não estranhou em nada a novidade. Ao contrário, parecia querer mostrar aos novos amigos onde ficavam as sementes. Chegou mesmo a se posicionar em um galho e cantar. Não havia curiós entre os pássaros trazidos, mas mesmo assim ele queria mostrar que aquele território tinha um rei.

Ibama 10

Chiquinha logo buscou a companhia de outras damas, talvez pra mostrar a elas que o bonitão afinado já está acasalado. De todos ali, ele é o único que não ostenta aliança (anilha), mas, mesmo assim, já tem dona.

Ibama 11

Na verdade, nenhum deles estava muito interessado nas serenatas do Chico. Havia atrativos bem mais interessantes ali.

Ibama 12

Entre todos que chegaram, nenhuma atração foi maior que a turma dos coleiros e cabeças-pretas. Da gaiola, eles voaram direto para a fonte e iniciaram um banho coletivo. Só faltavam mergulhar. Alguns pareciam dar saltos ornamentais. A farra durou um bom tempo, suficiente para que conseguíssemos ótimas fotos.

Ibama 13

Descobriram uma cachoeira que parecia ter sido projetada para o tamanho deles. Chegavam a entrar debaixo da queda d’água. Piavam como se chamassem os amigos: _Descobrimos uma cachoeira. Venha todo mundo!

Ibama 14

Flagramos também uma cena inusitada. Um cabecinha-preta nativo enfiando a cabeça pra dentro da tela, catando sementes. É bom explicar que as mesmas sementes ofertadas aos hóspedes estão também disponíveis em diversos comedouros espalhados na área de reintrodução.

O fato não passou desapercebido a outro de sua espécie que acabara de chegar. Não é difícil imaginar o diálogo:

_Ei, amiguinho. Quanto custa pra entrar aí?

Custam vidas, muitas vidas. Para cada pássaro que recebemos, centenas ou até milhares ficaram pelo caminho. O tráfico de animais silvestres é uma das maiores crueldades cometidas contra animais. O desprezo pela vida não tem limites.

O transporte por si já impõe à maioria uma morte lenta e angustiante. Os traficantes são capazes de sacrificar, sem remorso, centenas ou até milhares de vidas, a troco de alguns trocados obtidos com uns poucos que chegam vivos ao destino. E fique claro que o destino do tráfico é cada um que compra um animal silvestre. Não haveria tráfico se não houvesse o consumidor final.

Nenhum traficante se daria ao trabalho de aprisionar um pássaro, se não tivesse pra quem vender.

Ibama 15

Em cativeiro, eles não são nem sombra do que poderiam ser na natureza. São tristes, as cores parecem desbotar, as penas se desalinham. Não é possível que ainda haja gente que veja beleza em um animal aprisionado.

Ibama 16

Todos estes animais nos foram entregues pelo IBAMA e IEF. Ficarão em nosso viveiro por poucos dias, apenas o suficiente para que fortaleçam as asas e sintam novamente o gosto da liberdade.

Assim que estiverem aclimatados ao ambiente, em data já marcada, uma janela será aberta e assim será mantida, para que tenham, enfim, uma segunda chance. Tentaremos registrar a saída de alguns deles em fotos e vídeos e mostrar aqui.

A Fazenda Vale dos Sonhos faz parte do Projeto O Lobo Alfa. Nosso foco sempre foi a proteção animal. Proteger animais silvestres é mantê-los o mais longe possível das pessoas. Por isso, o santuário não é aberto à visitação. A Fazenda vem sendo preparada há alguns anos pra produzir apenas histórias. E assim será.

Ibama 17

Recebemos também o aval do IEF para soltar o Chiquinho e Chiquinha junto com os demais. Eles já estão prontos e não há razão pra adiar a soltura.

O período de aclimatação foi bastante intenso. Todas as manhãs, um banquete era servido.

Ibama 19

Os vídeos abaixo mostram as aves se deliciando com o lanche servido. Alguns preferem as frutas, outros as sementes. Alguns coleiros preferiram se servir das sementes ainda verdes, colhendo-as diretamente do pendão servido pela natureza.

Por coincidência (só pra quem acredita nelas), as sementes que plantamos dentro do viveiro pendoaram dias após a chegada dos pássaros.

http://youtu.be/_AXFYV1iQkI

http://youtu.be/ndRy1QMlF98

http://youtu.be/8GoeY78EkgY

http://youtu.be/YjqLbH8XBEA

Ibama 22

Queríamos poder escolher um nome pra cada um deles, mas, com 150 pássaros e muitos da mesma espécie, teremos que nos limitar a nomear apenas alguns.

Toni era o único sanhaço do grupo. Um pássaro frutívoro muito arisco, escravizado por anos, possivelmente retirado do ninho ainda filhote. Ele era manso demais pra ter sido capturado recentemente. Só faltava bicar nossos dedos enquanto servíamos as frutas frescas da manhã.

Ibama 23

O casal de Periquitos-rei vamos chamar de Kiko e Kika. Eles são fotogênicos, mas, com as telas ou os caibros do telhado ao fundo, a beleza se perde.

Esperávamos poder registrar alguma imagem deles depois que deixassem o viveiro, como animais silvestres livres. Não importa se a distância, o ângulo ou a claridade não nos permitam fotos tão belas.

Ibama 24

A fonte de água corrente, vinda diretamente da nascente, era um atrativo a mais. Chiquinho e Chiquinha já não usavam os bebedouros convencionais. Eles se deliciavam todas as manhãs na água fria que desce da montanha.

Ibama 25

Nos vídeos abaixo, alguns dos nossos personagens se deliciando na fonte.

http://youtu.be/4YLQ60hFP40

http://youtu.be/Xl2uHiLJmz8

http://youtu.be/Jy8eWpwJRrE

http://youtu.be/QcTsxYa9sMg

O hotel era mesmo cinco estrelas, mas tudo aquilo era só um treinamento para a nova vida que estava prestes a começar. Do lado de fora das telas, uma recepção ainda mais calorosa os esperava. Comedouros e ninhos foram espalhados por toda a fazenda, tanto nas árvores quanto nos telhados das varandas.

Plantações de sementes foram também feitas com semanas de antecedência, para que estivessem pendoando no dia da festa.

O banquete da manhã foi servido mas, dessa vez, do lado de fora do viveiro.

A pequena janela foi aberta às sete horas da manhã. O sol ainda não havia chegado por ali e os pássaros haviam acabado de despertar. Eles precisavam de um dia inteiro.

O viveiro é grande demais e eles estavam bem acomodados. Sabíamos que não precisávamos esperar por revoadas ou “fuga” em massa. E nem seria este o desejável. A soltura precisava ser lenta, sem sustos. Eles deixariam o viveiro naturalmente, sem sustos, no tempo deles.

Agora era só nos afastar, preparar a câmera fotográfica e esperar que a vida conduzisse aquelas asas tão massacradas.

O primeiro a se posicionar na janela foi um tico-tico que chamaremos de Tunico. Ele pousou, olhou os galhos de uma mangueira plantada ao lado do viveiro e que pareciam se estender até ele. Voou com a desenvoltura de um pássaro livre.

Depois dele, um trinca-ferro e um sabiá. Precisamos disparar a câmera pra não perder o momento do voo.

O dia foi longo e a saída das aves também. Eles já se sentiam livres e não tinham pressa de sair. Daquele viveiro, eles não precisavam fugir.

Nos vídeos abaixo, o registro discreto de algumas saídas.

http://youtu.be/T5eIcFLXk7s

http://youtu.be/txNnf2DC0Ik

O dia seguiu e pudemos registrar alguns momentos que não sairão de nossa lembrança. Quanta esperança levaram naquelas asas! Quanta alegria nos proporcionaram!

Sentimentos contraditórios se misturavam. Não pudemos deixar de sentir tristeza pela história que eles traziam, e angustia, pela incerteza e impotência diante da vida. Com a abertura da janela, eles estavam agora por sua conta e risco. O máximo que poderíamos fazer seria servir boa comida, mas a vida precisaria seguir seu curso.

Lamentamos por tantas histórias interrompidas, por tanta dor e desespero causados. Ficamos imaginando quanta energia ruim existe em uma gaiola e alguns humanos ainda insistem em ornamentar suas casas com vidas em sofrimento.

Algum tempo depois de iniciada a soltura, começamos a registrar as primeiras imagens daqueles pássaros em liberdade. Foram momentos especiais.

Toni, o sanhaço, buscou asilo em uma árvore de jamelão, uma frutífera natural da Índia, que produz um fruto pequeno e muito apreciado por pássaros de sua espécie. A árvore estava em plena produção e ele pôde experimentar sabores novos. Conseguimos vê-lo colhendo os frutos, o que nos mostrava que ele não precisaria de nossas oferendas.

Minutos depois, ele veio até onde estávamos, pousou no caibro do telhado da varanda e foi até as frutas que tínhamos servido. Nosso amiguinho estava livre e sabia se virar sozinho, mas, mesmo assim, quis nos mostrar que estava agradecido e que não dispensaria os nossos agrados.

No dia seguinte, ele foi visto acompanhando um outro sanhaço. A fazenda é habitat natural da espécie e o Toni agora terá a vida que merece. Ele continua por lá e tem sido visto todas as manhãs no entorno do viveiro, ora acompanhado, ora sozinho.

Lourenço, o sabiá-laranjeira, buscou segurança em uma árvore de uva-japonesa, também conhecida como pau-doce. Não é a época, mas ele parece saber que aqueles galhos prometem. Ao lado, uma goiabeira em franca produção dará a ele as boas-vindas.

Vivemos também a alegria de registrar as primeiras imagens do Chiquinho e Chiquinha livres e que sejam muito felizes.

Ibama 33

Os canários continuaram juntos. Dentro do viveiro, eles viviam em harmonia, mas, depois que ganharam a liberdade, acharam que deviam disputar liderança.

Ibama 34

O casal de periquitos-rei, ao qual chamamos de Kiko e Kika, demorou 4 dias pra sair. Chegamos a fotografá-lo de fora do viveiro, pela janela. Eles ficavam próximos à abertura, mas não se aventuravam a sair.

Hoje a visão que temos deles é outra. Eles são vistos no alto das árvores, comendo frutas, como na última foto, se deliciando com algumas goiabas.

Roberto e Erasmo são os coleiros. Por muitos dias, eles voltavam todas as manhãs e tardes para se banharem na fonte dentro do viveiro. Eles têm outras fontes do lado de fora, contudo, por alguma razão, aquela parece oferecer mais segurança. Juca, um sabiá-poca, decidiu ciscar as plantas de um vaso que fica na varanda da casa.

Aí não é seguro amigo. Você precisa tentar esquecer o passado e viver como um pássaro livre.

Ele passou tempo demais preso. Outros sabiás da espécie dele costumam fazer o ninho nas pilastras da mesma varanda, ali mesmo, pouco acima de onde ele escolheu brincar. Talvez não haja mal de ele ficar por ali, mas é triste imaginar a covardia que lhe foi feita, roubando-lhe a vontade de voar.

De quase 60 canários que ali estavam, dois em especial nos deram muita alegria. Gostamos de contar histórias e esperamos que eles sejam os protagonistas de nossa próxima história. Eles também ganharam nomes, embora nem saibam disso. Serão chamados de Bob e Paulinha.

Eles deixaram o viveiro como muitos outros, pousando na janela, olhando com curiosidade o mundo lá fora e levantando voo em direção à liberdade. Ficaram por ali rodeando, como se houvesse algo que os prendesse ali.

Algumas horas depois, flagramos a Paulinha com um raminho no bico, ainda do lado de fora. Sabíamos que, durante o período de aclimatação, eles haviam acasalado. Passamos o dia vigiando o casal pra tentar descobrir onde estava construindo o ninho. Tínhamos espalhado ninhos pela fazenda e eles poderiam ter encontrado qualquer um deles, ou mesmo algum buraco natural.

Pra nossa surpresa, descobrimos que a construção do ninho já havia começado, antes da abertura da janela. Um dos ninhos pendurados dentro do viveiro já havia sido escolhido e eles não abandonariam aquele lar, nem mesmo pela liberdade.

Eles passaram todo o dia buscando palhinha do lado de fora e levando para o ninho escolhido dentro do viveiro. Dias se passaram e eles continuam indo e voltando, cuidando da casa. Deixaremos a janela do viveiro aberta enquanto eles precisarem, até que os filhotes estejam fortes o bastante pra deixar o ninho.

Por enquanto, eles estão seguros ali.

Ibama 39

Depois da soltura, os pássaros começaram a se espalhar. Alguns ainda continuam por ali, no entorno do viveiro. Outros são vistos mais longe, no interior da mata ou nas áreas mais ao fundo.

Muitos não são mais vistos. Nunca vamos saber se foram reintroduzidos, se estão seguros, se sobreviveram, mas esperamos que esta história e todas as outras que tivermos o privilégio de publicar tenham a força pra abrir outras gaiolas.

Os tempos são outros. O que, no passado, foi motivo de vaidade e orgulho (possuir um animal exótico), hoje é motivo de vergonha. Pra quem ainda tem animais silvestres em cativeiro, há tempo de salvá-los.

FVS e POLA

ATENÇÃO: A Fazenda Vale dos Sonhos está registrada no Projeto ASAS do IBAMA. Como santuário de reintrodução, os animais que receberemos terão passado previamente por um centro de triagem ou centro de reabilitação, também autorizados pelo IBAMA ou IEF.

Nosso objetivo é de conscientização e educação ambiental, combatendo o tráfico e o comércio de animais de qualquer espécie. Repudiamos o comércio de vidas.

É nosso propósito incentivar a abertura das gaiolas, mas alertamos que reintrodução não é soltar animais indiscriminadamente. Liberdade sim, mas com controle, cuidado e sempre visando o bem de cada indivíduo.

NOTA IMPORTANTE

O tráfico de animais silvestres tem seu berço exatamente onde há abundância desses animais. O Brasil é grande demais e é impossível aos órgãos públicos chegar a todos os traficantes. Infelizmente, nossa espécie ainda não evoluiu o suficiente pra abolir práticas cruéis como essas.

A abolição da escravidão e do tráfico de animais silvestres só será possível quando houver mobilização das pessoas de bem, quando cada um se tornar fiscal e parceiro dos órgãos públicos. Só com denúncia o IBAMA e demais órgãos serão capazes de chegar a cada traficante, a ponto de tornar inviável a atividade.

Se despertarmos a população e conseguirmos um olheiro em cada cidade, em cada bairro e em cada rua de nosso País, e as autoridades forem informadas sobre tráfico ou cativeiro de animais, as ações de combate poderão ser adotadas com muito mais eficiência. Só assim conseguiremos abolir uma das maiores crueldades cometidas pela humanidade contra animais.

Abaixo, instruções de como e onde denunciar.

Como Denunciar

  • É importante que o cidadão apresente dados claros e precisos sobre a denúncia a ser formulada;

  • A insuficiência de dados, na maioria das vezes, impossibilita ou retarda o atendimento da denúncia;

  • Os dados cadastrais do informante (nome, telefone, endereço) são mantidos em sigilo, visando resguardar a sua integridade física e conforme preceitua o direito individual dos cidadãos em relação à inviolabilidade de sua intimidade;

  • É necessário informar com clareza qual o tipo de crime que está ocorrendo, exemplo: cativeiro de animais, desmatamento, poluição, caça, acidente com produtos químicos, degradação de área, maus tratos de animais, queimada, contra servidores, irregularidades administrativas, pesca predatória, entre outros;

Dados precisos sobre a localização são indispensáveis para o registro da denúncia:

Em área urbana:

Estado, município, bairro, rua, o número da residência, ponto de referência, e, se possível, informar o nome ou apelido do suposto infrator.

Em área rural:

Estado, município, distrito, estrada (nome), quilômetro, em qual direção, exemplo: saindo do município X em direção ao município Y. Se necessário seguir por alguma entrada, informar se o dano ambiental está às margens direita ou esquerda. Citar pontos de referência. E, se possível, informar o nome ou apelido do suposto infrator.

  • A riqueza de detalhes sobre a localização é fundamental para que a fiscalização possa encontrar com agilidade o local do suposto crime.

  • Caso tenha alguma dúvida sobre os dados a serem informados, entrar em contato com a Central de Atendimento – Linha Verde – através do telefone 0800-618080, onde nossas atendentes poderão esclarecer suas dúvidas e registrar sua denúncia.

É Importante esclarecer que, após o encaminhamento da denúncia para atendimento, a unidade responsável terá um prazo de até trinta dias para se manifestar.

Fonte: http://www.ibama.gov.br/servicos/como-denunciar