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Domingo, dia 04 de novembro de 2012, na Via Expressa, altura do CEASA, avisto de longe um ponto preto no meio da pista. Posiciono meu carro na mesma faixa em que ele estava e reduzo a velocidade.

Parecia mais um cachorro morto, estendido. À medida em que chego mais perto, ele se mexe. Parecia estar agonizando.

Parei no meio da pista e liguei o alerta, usando o carro como escudo pra que nenhum apressado terminasse o serviço.

Quando me aproximei, ele ergueu a cabeça e me olhou com os olhos mais tristes que já vi.

A pergunta que fica é: Por que?

Mas a resposta é simples. Foi por ele mesmo. Talvez, por aqueles que virão a adotá-lo.

Ele é o tipo do cachorro que passaria desapercebido. Um legítimo vira-lata de rua, que ainda ostentava uma coleira fedida no pescoço apenas para que a sociedade tivesse a ilusão de que é um semi-domiciliado. Desculpas pra encobertar a incapacidade de amar de nossa espécie. (Quanto desperdício!)

O atropelamento talvez tenha sido a forma encontrada pelos protetores que agem no outro plano pra retirá-lo das ruas e mudar seu destino. Não fosse assim, jamais seria resgatado.

O quadro era o pior possível. Ele gemia de dor estendido no asfalto quente, sem conseguir mover as patas traseiras e sangrando pela boca.

Sentei-me a seu lado e comecei a afagar sua cabeça, conversando com ele e perguntando se poderia pegá-lo. Afinal, era preciso cautela. Ele estava muito ferido, era de porte médio a grande (16 quilos) e, se sentisse dor, poderia se defender com os dentes.

Não precisei de muito pra ver em seus olhos que ele sabia o que estava acontecendo. Jamais me morderia.

Quando o peguei, ele gemia ainda mais, mas não esboçou reação. Permitiu o resgate, aceitou minha ajuda e lambeu minhas mãos quando o acomodei no banco do carro.

Quando estacionei próximo à clínica veterinária, decidi fazer as primeiras fotos. O que vi naqueles olhos não importa. Mesmo porque, ali está apenas o que cada um é capaz de ver. Infelizes daqueles que nada vêem.

É importante contar que, ainda no carro, na porta da clínica, quando me virei pra vê-lo, ele abanou o rabinho. Não era apenas um sinal positivo clinicamente. Era muito mais que isso.

Dali pra frente, não era mais apenas um cão resgatado. Ele precisava de um nome. Ele já tinha uma história. Eduardo foi o nome que escolhi pra ele. Edu, para os futuros donos.

Na clínica, os primeiros exames indicaram que o atropelamento não era o pior. Ele estava desidratado e desnutrido, visivelmente anêmico. O atropelamento não parecia ter feito muito estrago. Não havia quebrado nenhum osso. Ainda na mesa, enquanto era examinado, ele ficou de pé.

O sangramento em sua boca era proveniente de um pequeno corte no lábio inferior. O mais triste foi mesmo ver seu estado de inanição. Os ossos salientes indicavam o estrago que o abandono lhe causou, muito maior que o carro que não o socorreu.

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Se não tivesse sido atropelado, o Edu teria terminado seus dias consumido pela fome e não teria a oportunidade de receber um nome tão especial, escolhido com carinho, só pra ele. Nem sequer faria parte das estatísticas. Afinal, o poder público não se preocupa em sair por aí contando cachorro morto.

Sua recuperação foi rápida. Foi internado e passou por alguns exames. Teve o melhor tratamento possível e nunca mais voltará para as ruas. Já estava recuperado mas, apesar disso, talvez terminasse seus dias em um abrigo de animais.

Lamento amigo. É o máximo que poderei fazer por você. Pude resgatá-lo, poderei lhe dar o tratamento digno que merece, pagar suas vacinas, mas não tenho meios de fazer com que outros humanos vejam em seus olhos o mesmo que eu vi.

Mesmo contra todas as expectativas, acreditávamos que a vida estaria dirigindo pra ele alguém especial. O Edu ficou internado por alguns dias, aos cuidados do Dr. Mário, na Vet Master. Ele estava desconfiado, como qualquer cachorro. Afinal, clínicas veterinárias não são parques de diversão para lobos. Em três dias ele já estava totalmente recuperado, hidratado e corado. A anemia paracia ter desaparecido como mágica.

No dia da alta médica, uma afetuosa despedida. Ainda não tínhamos tido a oportunidade de conhecê-lo, saber de sua índole, sua socialização. Ele também não havia tido a oportunidade de se apresentar.

Da clínica, ele foi transferido para um lar temporário, onde viveu por 5 meses, à espera de um novo dono, sob os cuidados do Hilton e da Bete. Assim que chegou na nova casa, ele se deitou ao lato de um portão, onde, do outro lado, outros lobos o recepcionavam curiosos.

Ele deitou e se apresentou ao companheiro canino com abanos de rabo. Ali foi possível saber que o menino é sociável e aprecia companhia de outros cães. Ele logo fez amizade com a Kate, com quem dividiu o espaço.

Martinha foi sua outra companheira de confinamento. Mas desta ele se despediu muito rápido, já que ela foi adotada logo depois. De humanos, ele se aproximava com cautela, mas o Hilton tinha habilidade com lobos e soube como conquistá-lo.

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O fato é que não me enganei. O Edu é especial e merece donos tão especiais quanto ele. Mostra-se medroso diante de pessoas estranhas. Parece ter apanhado muito. Mas tudo isso é passado.

Não precisou de muito tempo. Hoje ele demonstra já confiar em nossa espécie. Recebe as pessoas fazendo festa e abanando o rabinho. Afinal, ele nasceu pra isso e nenhum ser humano, por pior que seja, tem força pra estragar um lobo como ele. Também já tomou todas as vacinas a que tinha direito e foi também castrado.

Algum tempo depois de sua chegada, precisávamos submetê-lo a um novo teste. É que, quando chegou na casa do Hilton, o Edu ainda estava debilitado. Quando se recuperou, já estava acostumado ao ambiente e aos companheiros caninos. Como reagiria, sendo introduzido a uma nova matilha, estando saudável e totalmente recuperado? Precisávamos dessa resposta, para poder atestar sua índole.

Nosso teste foi feito na quinta-feira, dia 20 de dezembro. Bem cedo, estivemos na casa do Hilton para buscar o Edu. Ele passaria todo o dia conosco. O levaria para nosso território e registraria seu comportamento diante de um ambiente novo e de uma nova matilha.

Logo na chegada ele demonstrou suas preferências. Como não se encantar por uma moça como a Pintada? Ele só pensava em se exibir pra ela, sem saber que daquele mato não sairia mais coelhos.

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Logo depois, fez questão de percorrer o território, vistoriando os aposentos e, claro, marcando-o com o seu cheiro. O sujeito estava em casa mesmo, muito a vontade e sem nenhuma cerimônia.

Ele não precisou de um só minuto sequer. Sua adaptação foi instantânea. Já se sentia integrado à matilha, chamava as meninas para brincar, exibia-se e já tinha também escolhido seu canto preferido. Correndo, latindo, deitando, rolando e se engraçando. Era o retrato de um cachorro adaptado. Parecia que tinha nascido ali e crescido entre os novos amigos.

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Num dado momento, lá pelo meio da tarde, eu estava sentado na varanda com a turma, com a máquina fotográfica nas mãos, esperando algum acontecimento que merecesse ficar registrado. O Edu estava deitado no canto, relaxado. Olhei pra ele enquanto posicionava a câmera e disse: ___ Ah seu porquera! Bendita a hora que você foi atropelado hein?

Ele me olhou e respondeu com um movimento de cabeça e olhos. A câmera registrou a sequência. Acredite quem quiser e interprete como puder.

Acho que nada mais precisa ser dito. Você é especial Edu. E nunca permita que alguém da minha espécie te faça acreditar no contrário. Você será doado, mas lhe prometo procurar o tempo que for necessário, até encontrar alguém que te mereça.

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A vida é mesmo muito sábia. Como garantir que um vira-lata de porte médio a grande, preto e de pelo curto consiga um adotante especial? Já tivemos muitas provas e sabemos como age a vida.

O atropelamento garantiu a ele o resgate. Restava agora garantir ao Edu um adotante especial. Deixá-lo imobilizado depois do acidente poderia ser uma estratégia, mas isso não seria bom pra ele.

Então, um resultado inconclusivo para Leishmaniose seria a medida exata. Ele não tem nenhum sintoma clínico e está ótimo. Apenas precisará tomar um medicamento (leishmaniostático), como medida preventiva, que lhe garantirá a imunidade permanente à doença, tendo o mesmo efeito da vacina, com menor custo. Este pequeno detalhe será suficiente para filtrar os pretendentes, garantindo ao Edu, o melhor dono do mundo. É só isso que queremos pra ele.

Ele conquistou alguns pretendentes, mas sua índole de fujão impediram que a adoção acontecesse.

Como resolver um problema assim? Pedi ao céu que nos mostrasse o caminho. E este caminho foi aberto com uma única pretendente à adoção. Janete estava de mudança para o interior. Ela trocaria a vida agitada na cidade pela tranquilidade de uma vida no campo.

E, pra este paraíso, resolveu que queria levar o Edu. Como evitar a fuga de um cão que aprendeu a pular muros de 1,70 m como se tivesse subindo uma escada? A resposta era óbvia, mas não a encontrávamos. Bastava retirar os muros.

Faltava agora descobrir como confinar um lobo sem muros ou grades. Mais uma vez, a resposta era simples:

“As correntes não são mais de aço. Finos laços. Já não prendem. Libertam”.

Abaixo, a despedida entre o Edu e o Hilton. Outra despedida não foi registrada, porque D. Beth preferiu não se despedir. Hilton e Beth deram ao Edu, desde o resgate, lar temporário, e ensinaram-lhe o que é ser um cãozinho de estimação, no sentido exato da expressão.

Na sequência, sua nova casa e sua nova musa, uma “gatinha” chamada Sophia. Obrigado Janete, por tão especial acolhida.

Seja feliz amigo. Eu sabia quem você era desde o momento que te encontrei. Agora, outras pessoas vão descobrir.

Edu adotado Janete

Outubro de 2016. Estamos completando 4 anos do resgate do Edu. Recebemos da Janete fotos do menino, já com o focinho branco pela idade, mas um cão feliz, cheio de vida e de boas lembranças.

O Edu agora tem um passado muito feliz. Ele viveu a vida inteira (ou quase) junto de sua família, aquela mesma família que o recebeu de braços abertos e que fez dele um cãozinho confiante, que nem se lembra mais que um dia foi abandonado.

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