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A história do Ernesto começa com anos, muitos anos, de escravidão.

Ele tem uma anilha de criador, o que significa que nasceu e cresceu em gaiola. Por algum descuido de seus carrascos, ele escapou e saiu voando sem direção.

Caiu de exaustão no quintal de uma casa e estava prestes a ser morto pelos cães que dominavam o território. Foi resgatado a tempo, sem um único arranhão.

Para a sorte dele, sua salvadora não tinha gaiolas em casa. Então, a solução foi improvisar alguns poleiros dentro de um quarto vazio.

E haja gambiarra, mas foi a melhor gambiarra que ele poderia ter recebido, pois ali ele começou a fortalecer as asas. Tinha espaço pra voar e se exercitar.

Mas a situação era bem precária e ele precisaria de uma solução melhor, e que não fosse uma gaiola ou prisão. Não poderia ser solto de imediato, ou não sobreviveria.

Então, como estávamos com o nosso viveiro do santuário quase vazio, decidimos leva-lo pra lá, para um período de aclimatação e posterior soltura.

Posicionamos o viveiro de transporte ao lado da fonte de água e ali ele ficou boa parte da manhã, com as poprtinhas abertas.

Como não saiu, decidimos colocar os poleiros mais abaixo, para força-lo a chegar perto da porta da gaiola.

Depois, puxamos os poleiros para que se estendessem até o lado de fora. E finalmente, ele começou a se interessar pelo lado externo.

Do lado de fora, curioso com o novo companheiro de recinto, o Chico, um Pássaro Preto que acabou ficando como retardatário da última soltura do Ibama.

Claro que eles não se tornarão amigos. Não são da mesma espécie e têm característicvas muito diferentes. O Ernesto tem hábitos solitários e o Chico, coitado, nem sabe ainda que é um pássaro.

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Os primeiros passos do Ernesto rumo à liberdade foram registrados.

Ele saltou pra fora da gaiola e ficou ali alguns instantes, observando o mundo à sua volta e tomando coragem pra se aventurar.

Demorou mesmo a tomar coragem. Tivemos ali a oportunidade de tirar boas fotos do garoto. E naquele momento, ainda  não sabíamos, mas aquela seria a última oportunidade de tirar boas fotos do Ernesto.

Dos poleiros da gaiola posicionados, ele saltou para a pedra do laguinho, beliscou a água que corria abaixo de suas canelinhas finas e logo se aproximou do amigo Chico, que estava ali mais por curiosidade.

Depois, refugiou-se no caibro do telhado do viveiro e ali permaneceu por quase 10 dias. Tínhamos muitos arbustos externos, mas o Ernesto não conhecia nada que não fosse poleiros de gaiolas e não estava à vontade em nosso viveiro.

Depois de 10 dias escondido nos caibros, descendo apenas para comer, beber e banhar-se, ele decidiu se integrar à natureza.

Refugiou-se nos galhos da amoreira e passou a evitar a presença humana. Escondia-se e voava pra longe diante de qualquer tentativa de aproximação.

Isso nos impediu de fazer novas fotos dele, mas nos encheu de alegria, pois era o sinal de que o garoto tinha aprendido tudo o que precisava aprender para ganhar a liberdade.

Sua liberdade chegou em uma manhã de domingo. Colocamos o Chico no viveiro de quarentena e abrimos o viveiro principal.

O Ernesto levou apenas alguns minutos pra deixar o viveiro e voar para a borda da mata que fica a poucos metros do viveiro.

Assim que ele saiu, fechamos novamente o viveiro e retiramos o Chico da quarentena. Ele vai precisar de mais tempo e ficará fechado até a próxima família de Pássaros Pretos chegar.

Quanto ao Ernesto, ele está livre agora, por sua conta e risco. Deixou o viveiro com tudo que precisava para a vida livre. Sabia voar com agilidade e desenvoltura, sabia procurar frutas diretamente nas árvores e, o principal, mantinha-se longe das pessoas.

Seja livre, amigo. E ajude a povoar nossas matas de Trinca-ferros.