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Um dia, alguém decidiu postar na rede um pedido de ajuda para uma cadelinha com filhotes que vivia amarrada no tempo.

O simples resumo da situação já era suficiente pra causar angústia em qualquer um. Mas a realidade mostrava algo muito pior.

Era verdade que ela viveu amarrada desde filhote. Segundo seus donos, a casa não era murada e ela precisava ficar presa pra não ir para a rua.

Ela não tinha abrigo, casinha, nem água, nem comida. Ficava no tempo e comia quando se lembravam de alimentá-la. Por ali viveu, entrou no cio inúmeras vezes, era fecundada por cães que passavam e encontravam o terreno aberto e uma fêmea no cio amarrada em corrente curta.

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Os filhotes nasciam e morriam ali mesmo. Pelo estado da Fênix, nome que ganhou após o resgate, foram muitas e muitas crias. Muitos deles não chegavam sequer a nascer vivos, porque a mãe não tinha comida suficiente pra gerar filhotes e os abortava antes da hora.

É possível que tenha comido vários deles e os donos nem sequer souberam que ela estava prenhe.

O cúmulo da crueldade se revelou depois. Estava desnutrida, anêmica ao extremo, com problemas nas patas traseiras e babésia.

Ela devorou a comida com uma pressa que ainda não tínhamos visto. Em seguida, vomitou tudo. Comeu mais e vomitou novamente. Tudo indicava que ela passava dias sem comer e estava acostumada a comer o quanto lhe dessem.

O desespero dela diante da comida era tanto que foi preciso alimentá-la aos poucos, fornecendo comida em quantidade reduzida para que ela não comesse mais do que cabia em seu estômago.

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Na ocasião do resgate, os filhotes estavam com 40 dias mas, em razão da desnutrição, não tinham sequer dentes direito e, por isso, demoraram muito a desmamar, o que aumenta ainda mais a carga da mãe.

As primeiras fotos da Fênix na nova casa apenas mostram ela debruçada na comida e os filhotes pendurados em suas tetas.

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Eles foram resgatados pela Lucinédia, ganharam uma caminha bem grande e confortável, foram todos vermifugados e vacinados.

A mãe, mesmo não tendo suprimento de vida nem pra ela, continuava amamentando os filhotes com dedicação e paciência.

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No dia seguinte à sua chegada ao novo lar temporário, foi possível encontrar uma rolha de cortiça em suas fezes. Isso era a prova de que ela comia qualquer coisa que tivesse ao seu alcance.

Pra ela, a prioridade número um era a comida. Ela passou muita fome a vida inteira. Com isso, parecia não pensar em mais nada. Não se importava com carinho, com conforto, com nada. Comida era seu único foco.

Seu estado físico era o pior possível. Falhas no pelo eram o sinal clássico da desnutrição avançada. As mucosas esbranquiçadas mostravam uma anemia profunda. Ela já não tinha mais forças pra se levantar, correr ou reagir ao que quer que fosse. Vista do alto, parecia já não ter mais carne envolvendo os ossos.

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Tinha também medo de gente. Não bastava a total omissão. Ela tinha que apanhar também, possivelmente pra calar o ronco de sua barriga.

Sua saúde, claro, não ia bem. Ela estava bem amuada e triste. Alguns exames mostraram o que não se pode ver por fora.

Após o resgate, infelizmente, seguiram-se novas etapas de uma mesma luta. Ela estava debilitada demais e não sabíamos se conseguiria se recuperar.

Apesar de tudo isso, mostrava-se feliz em sua nova cama, com direito a cobertores e travesseiros. Os sete anões também aprenderam que existe um mundo novo.

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A Fênix também soube aproveitar as novas mordomias. A torcida era grande para que ela resistisse aos tratamentos que viriam, mas precisávamos encontrar pra ela alguém que se dispusesse a terminar esta história.

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Os filhotes vingaram, cresceram, em poucos dias já estavam comendo ração sólida e prontos pra seguir outros caminhos.

Os caminhos vieram e eles não desperdiçaram as oportunidades que a vida lhes deu. Seguiu, cada um, uma nova estrada, sendo carregados nos braços por donos que prometeram estimá-los.

Só pra ficar registrado, as fêmeas eram Babalu, Barbie, Babita e Baby.

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Os machinhos foram chamados de Bambam, Barney e Banzé.

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Antes da adoção, vez ou outra eles eram deixados sozinhos na casinha para que a Fênix pudesse passear pelo jardim, coisa que nunca havia feiro.

Ela já se arriscava e adorava pisar e rolar na grama.

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Entretanto, diante da aproximação de qualquer pessoa, ela se refugiava dentro da casinha. Era mesmo angustiante e muito triste ver uma cadelinha como ela, com tantos problemas, tanto físicos quanto emocionais.

Poucas vezes vimos situações tão covardes e absurdas. Mas isso iria mudar. Teria que mudar.

A Fênix teve o melhor tratamento, as melhores rações, vacinas, vermífugos, medicamentos, vitaminas e tudo que precisava. Foi castrada, é claro. O cio, seguramente, deve lhe trazer as piores lembranças.

Mas isso agora é passado. Ela não conhecerá outro cio. Queríamos muito que ela aprendesse o que é ter uma família e poder conviver com os donos dentro de casa, com direito a caminha ao lado do sofá e tapete na varanda.

A Fênix fez todos os exames e estava em ótima forma, inclusive negativa para leishmaniose. Ganhou muito peso e não parecia mais ser a mesma cadelinha esquelética de semanas atrás.

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Na casa da Lucinédia, ela fez amigos. Um deles, de quem seguramente não vai se esquecer, foi o Bruno.

Mas ambos precisavam seguir seu caminho e não necessariamente seria o mesmo caminho.

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A adoção veio com muito mais que sonhávamos pra ela. Em algum lugar não muito distante, vivia um rapazinho muito esperto e agitado chamado Luck.

Está um pouco diferente, mais crescido, mas dá pra reconhecer. É isso mesmo. Luck é um dos filhotes da Fênix, que havia sido adotado semanas atrás.

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A adotante, a Cida, depois que adotou o Luck, vinha acompanhando a história da Fênix e sua luta pela vida. Assim que ela se recuperou e já estava pronta para a adoção, a Cida decidiu dar a ela a família que tanto esperávamos encontrar.

Mais que isso. Para a Fênix, reencontrar um de seus filhos na nova casa foi a melhor de todas as surpresas.

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Pepita é mais uma filhotinha da Fênix. As fotos abaixo é uma coletânea, que mostra desde o dia da adoção, o primeiro dia na nova casa e agora, já crescidinha.Pepita Filhote da Fenix

Agradecemos a cada adotante por tão especiais acolhidas.

Pra quem gosta de histórias de lobos, logo depois da Fênix, outra família foi acolhida. Ocuparam o mesmo canil, as mesmas caminhas e receberam os mesmos cuidados. Maria e os anjos.

http://oloboalfa.com.br/maria-e-os-anjos/

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Um resgate de Lucinédia Figueiredo: lucinediafigueiredo@gmail.com