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Algumas histórias acontecem pra nos sacudir. Para o Hassan, a explicação só pode vir de outras vidas, não necessariamente as dele.

Ele sempre foi um cãozinho assustado e medroso, desde filhote. Chegou bem novinho à Cão Viver e foi rapidamente adotado. Ele era realmente lindo.

Seus adotantes eram pessoas boas e se empenharam muito para que ele se adaptasse. Afinal, sendo ainda filhote, ele tinha tudo pra esquecer o passado, qualquer que tivesse sido esse passado.

Isso foi em meados de 2012. Três meses depois, a Cão Viver recebeu de volta o Hassan, sedado e com uma carta explicando as razões da devolução. Mesmo sem os reflexos por causa da sedação, ele tentava morder quem o segurava.

O Hassan era um cãozinho realmente muito medroso e assustado. Não aceitava aproximação de ninguém, fugia apavorado e mordia a qualquer um que tente lhe acariciar.

Passou a viver na Cão Viver, em um canil com outros 3 cães. A vida pra ele era um sofrimento constante, que durava 24 horas por dia, 7 dias por semana. Até mesmo a entrada de um funcionário no canil para a limpeza diária ou para alimentá-los era motivo de pavor e sofrimento.

Qualquer procedimento a ser feito nele exigia cambão e sedação. Não havia outra forma, mesmo sabendo que essas coisas acabavam agravando ainda mais o problema.

Ele ficava todo o tempo vigiando as pessoas e se encolhia cada vez que percebia que estava sendo observado.

Ele nunca havia sido visto sem que estivesse com a cauda entre as pernas. Isso tudo era uma sentença pra ele: jamais será adotado por um pretendente ocasional que chegue ao abrigo. Ele não aceitará a aproximação e morderá a qualquer um que tentar pegá-lo.

Seu caminhar era sempre assim, com cabeça e cauda baixas e pernas encolhidas, como se tentasse não ser visto.

Instintivamente, procurava lugares sombrios. Parecia saber que sua pelagem se camuflava melhor nas sombras.

Estava condenado a passar a vida em intenso sofrimento.

Sua única chance seria a adoção por alguém que o recebesse com o objetivo de salvá-lo. Alguém que tivesse paciência e tempo pra curar tudo isso. Ele precisaria de tratamentos alternativos, mesmo à distância ou ministrados com a ração ou água.

Precisará ser conquistado todos os dias. Não era possível imaginar o que aconteceu. Ele foi resgatado ainda filhote e esteve fora da Cão Viver por apenas 3 meses. Voltou sem qualquer sinal de que tivesse sido maltratado.

Na verdade, existem duas explicações possíveis. A primeira, baseada na teoria de vidas passadas, mas não vou seguir por esse caminho. Existe uma explicação mais técnica, baseada em estudos e observação de casos concretos. É o que chamamos de “caminho inverso”.

Levamos cem mil anos pra conquistar os seres mais incríveis do planeta. Através da evolução e domesticação, fizemos dos lobos os melhores e mais fieis amigos.

Agora, permitimos que façam o “caminho inverso”. Este fenômeno vem sendo observado no mundo todo. Existem casos já documentados na Itália, Estados Unidos, Canadá e até mesmo aqui no Brasil. Animais abandonados, com histórico de maus-tratos, acabam se unindo, formando matilhas e se refugiando em locais mais ermos e distantes das aldeias (cidades).

Lá costumam ter seus filhotes e os criam naturalmente, em buracos escavados, tocas ou cavernas, como faziam seus antepassados. Reaprendem a caçar e retomam características e habilidades antes perdidas, que os qualificam para a vida livre.

O que tem sido observado é que os filhotes, já nascidos em ambiente selvagem e sem convício com humanos, têm se mostrado mais arredios e hostis a cada nova geração.

Acreditamos que esse “caminho inverso” pode acontecer também em ambientes urbanos, quando um grupo de animais é criado em ambiente hostil, sofrendo maus-tratos e crueldade.

Essa é talvez a explicação para o Hassan. Ele nasceu em um ambiente assim ou é filho de animais que nasceram em um desses vários infernos que nossa espécie, vez ou outra, impõe a eles.

O “caminho inverso” ocorre quando um grupo de animais é submetido, em várias e sucessivas gerações, a situações de estresse, sofrimento e maus-tratos. Com isso, eles se tornam mais arredios e hostis a cada nova geração. O tempo e a quantidade de gerações vivendo nas condições narradas é que vai determinar o quão arredias serão as próximas ninhadas.

Esse fenômeno pode acontecer em animais criados e utilizados em experimentos científicos, ou mesmo em casos de cães mantidos em situação de intenso sofrimento e maus-tratos, por pessoas com distúrbios que os utilizam para tortura ou coisas parecidas.

E se a teoria está correta, mesmo sem ter sentido na pele, ele traz no DNA o pavor de seus ascendentes. Ele herdou o medo e a angústia de conviver com gente. Infelizmente, se esta for a explicação, sabíamos que a socialização dele não seria tarefa fácil.

Ele não é e jamais será um cão doméstico. No máximo, poderá ser “amansado”.

Será um desafio sim, e dos grandes. Mas acreditávamos que seria possível. Em algum lugar, haverá alguém disposto a tentar. Tempo e paciência são a base da receita, temperada com florais e outras terapias alternativas.

Não deve ser doado para apartamento, nem para sítios ou chácaras muito grandes. Ele precisará ter espaço suficiente apenas para que consiga manter uma distância de conforto em relação aos tutores, mas com segurança.

A aproximação deveria ser lenta. Ele não era agressivo e não atacava as pessoas. Seus instintos determinam que ele se afaste das pessoas e nunca as enfrente.

Quando soltamos a matéria, não acreditávamos que adestramento fosse a solução. As técnicas usadas não se aplicam a ele e poderiam agravar o quadro. Hassan era um caso diferente. Ele precisava mesmo de tempo e paciência.

Nem mesmo de carinho ele precisa, neste momento. Mais adiante, quem sabe?

Há alguns dias, o Hassan esteve na mira das lentes do Márcio Rossi, que está doando sua experiência como fotógrafo, pra ajudar a mudar a vida de animais abandonados. O resultado é este, mesmo à distância e com uma tela entre eles:

As coisas começaram a mudar quando a Cão Viver recebeu a visita do Eli, um adestrador que ali chegou disposto a tentar ajudar o Hassan.

Hassan continuava arredio e assustado. A cada dia, piorava um pouco mais. Precisávamos insistir e permitir a tentativa. Afinal, qualquer coisa era melhor do que nos conformar e deixar ele passar a vida em sofrimento.

Não sabemos quais as técnicas foram usadas pelo Eli. Não sabemos se ele é apenas adestrador ou se há algo mais ali. Ninguém sabe de onde veio, nem pra onde vai, mas as imagens surpreendem.

Hassan

Talvez o Hassan nunca seja adotado, talvez venha a morrer no abrigo e venha a ser lembrado como aquele que teve a docilidade arrancada, em sucessivas gerações de cães submetidos a maus-tratos. Talvez ele seja uma sub espécie, nem lobo, nem cão, um tipo de canídeo moldado pela crueldade humana.

Mas já podíamos esperar um futuro melhor pra ele. E se a adoção não viesse, pelo menos a vida dele no abrigo não seria tão penosa quanto estava sendo até agora. Valeu Eli.

Já nos conformávamos, mas não era o que desejávamos. Sabíamos que ele poderia se recuperar, mas acreditávamos que isso não seria possível, enquanto ele continuasse no abrigo.

Mas, para nossa surpresa, ele melhorou muito. Foram meses de muita luta e insistência, mas hoje ele é um cãozinho de colo. Ainda é especial, pois sabemos que qualquer mudança em sua rotina poderá desencadear tudo novamente.

O fato é que agora já dá pra tentar, porque deixar um abrigo e ir para uma casa amorosa, com afeto constantes, será uma mudança para muito melhor. Ele já aceita afagos e, quando aprende a confiar na pessoa, torna-se um cachorrinho de colo.

Que venha a adoção certa pra ele.

Contato para adoção na Cão Viver.

Só pra lembrar, a Cão Viver tem feira permanente de adoções.

De Segunda a Sábado, na Rua 1º de maio, nº 165, Bairro Braúnas, Contagem. Fone: (31) 3397.8560 / 9492.8730.

HORÁRIO. 3ª, 5ª e 6ª, das 14 as 16 hs / Aos sábados, das 13:00 as 17:00 hs

Contato também pelo e-mail: contato@caoviver.com.br

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