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Tchulinha é uma cadela SRD, preta, porte médio, igual a muitas que vagam pelas ruas, mendigando migalhas e, por vezes, um mínimo de afeto.

Quem já teve a oportunidade de dar atenção a um cão de rua sabe como eles são receptivos a novas amizades. Aproximam-se ressabiados e, ao receberem os primeiros afagos, sinalizam com a cauda a alegria de ter feito um amigo, e a esperança de serem acolhidos.

Estão sempre buscando um porto seguro. Se são bem recebidos, fixam morada em qualquer lugar, de um ponto de ônibus à porta de um boteco qualquer. Se a hostilidade e a intolerância humana falam mais alto, buscam outros caminhos.

Assim aconteceu com a Tchulinha. Ela invadiu a garagem de um prédio, procurou um canto e ali ficou, esperando pela reação dos moradores.

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As chances de alguém dizer sim pra ela eram remotas, mas aquele não era um pedido de ajuda corriqueiro. Em seu ventre, 10 (dez) lobinhos disputavam um território já apertado para tantas vidas.

Uma reunião no condomínio selou o destino dela: “Pode ficar”.

A situação era pra lá de precária, mas ela teve sorte de ser, no mínimo, tolerada, por uns dias. Passou a receber comida e água. Tudo que ela não merecia seria ser hostilizada e enxotada. Não havia muito tempo pra buscar outro porto, pois os filhotes já estavam prestes a nascer.

A garagem do prédio não era o mais seguro dos mundos. Foi aí que uma das moradoras decidiu fazer um pouco mais. Acolheu a mãe e ofereceu a ela um ninho confortável e bem quentinho.

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E era só o que ela esperava. Parecia estar segurando a prole em seu ventre, esperando o momento e o lugar certo para que os pequenos viessem ao mundo.

E assim, em 29 de maio, vieram ao mundo os 10 lobinhos, todos bem miudinhos, mas fortes e saudáveis. A mãe já havia passado por um regime de engorda nos dias anteriores e já tinha bastante leite. Estava mesmo pronta pra receber a turma.

E a visão que se teve daquele ninho era “qualquer coisa a ver com paraíso”.

Melhor que ver aqueles ursinhos famintos disputando as poucas tetas, era registrar o olhar de gratidão da pequena mãezinha Tchulinha.

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Nos primeiros 15 dias, não deram tanto trabalho. A vida dos pequenos era só mamar e dormir. Nem abriam os olhos, de tanta preguiça.

E não era pra menos. Aquele ninho estava mesmo bem aconchegante. Nem nos sonhos mais ousados a Tchulinha imaginou que seus filhos pudessem nascer em tão esplêndido berço.

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Os dias se passaram e os pequeninos lobinhos, ainda com futuro incerto, seguiam se arrastando pela vida, ou melhor, pelos tapetes do apartamento.

Nossa história fala de lobos, mas cabe aqui registrar nossa admiração à nova protetora que os acolheu. Receber num apartamento uma SRD média com 10 bezerrinhos ao pé não é das mais fáceis tarefas.

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Um dia, sem prévio aviso, eles decidiram abrir os olhinhos e conhecer o mundo. Naquele dia, eles ganharam de sua madrinha dois presentes muito importantes: brinquedos e nomes.

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As três Pretinhas são Mudinha (1), Pretinha (4) e Espoleta (10). A marronzinha é a Chocolate (7). A malhadinha preta e branca é a Gal (8). Tem ainda a Pit (2) e a Tigrinha (5).

Depois delas, os três machinhos, Zerrão (9), Max (6) e o Pavaroti (3).

Os dias estão passando rápido demais e eles já estão quase prontos para serem entregues aos novos donos. A mãe já sente a despedida que se aproxima. Gostaríamos muito que ela tivesse uma nova chance, junto a um de seus filhos.

Durante esse tempo, ela se mostrou a mais amorosa e dedicada de todas as lobas. É uma mãe muito especial. Por algum motivo, nos lembrou duas guerreiras que por aqui passaram (As Glorinhas).

Os filhotes estão fortes, saudáveis e já foram vermifugados. Já podem partir. Deixarão saudade, tanto na mãe biológica como naquela que os aceitou por amor adotivo.

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Mas essa é a vida. É a sina dos lobos, o preço que pagaram quando decidiram se aproximar de nós. Que a decisão de seus antepassados, tomada há 100 mil anos, seja, pra cada um deles, motivo de gratidão.

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São lobos sim, mas estão em avançado estágio evolutivo. A despigmentação de algumas partes do corpo é um sinal que não podemos ignorar. Eles não podem mais viver livres. Precisam de nossa companhia e proteção.

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Que vivam muito e cheguem ao final desse ciclo entendendo a linguagem humana. Que possam partir, sem escalas, para um lugar muito especial (a terra dos cachorros que falam). E isso só depende daqueles que os receberem. Que sejam os melhores donos do mundo, capazes de entender o tamanho da responsabilidade que assumiram.

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A sorte de vocês está lançada, meninos. Que a vida leve esta história a gente que os mereça.

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Os filhotes foram adotados. A mãe também teve a sorte grande. Foi adotada por sua protetora, junto com um de seus filhos.

Um resgate de keylavilaca@hotmail.com

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