Tweetar

Compartilhar



Recebemos o pedido de um amigo para fazer a soltura de quatro passarinhos que ele tinha há muitos anos, nascidos em cativeiro.

Eram três canários da terra e um pintassilgo.

Os canários estavam bem e em apenas dois dias já estavam voando no viveiro de aclimatação, disputando no canto o território com outros de sua espécie que por aqui passaram antes deles.

Toquinho 1

O pequeno pintassilgo, que por força do nosso desejo de ajudá-lo, seria coroado o reizinho do santuário, não parecia estar em condiões de ganhar a liberdade.

Ele ganhou um nome e passou a ser chamado de Toquinho.

Toquinho 2

Precisou de uma força pra deixar a gaiola, pisou pela primeira vez no chão, ciscou alguns grãos na areia e esticou as asas.

Toquinho 3

Depois, tentou timidamente batê-las, sem forças pra sair do lugar.

Enquanto isso, seus súditos, os canários, deleitavam-se com aquela pré-liberdade monitorada. Beberam na fonte, ciscaram a terra, voaram até as árvores e até ensaiaram uma dancinha do acasalamento. Eram dois machos e uma linda fêmea, que acabaria com a paz naquele recinto.

Toquinho 4

O Toquinho seguia lutando contra uma vida inteira roubada. Quem já viu um pintassilgo em uma gaiola já deve ter notado um comportamento característico. Ele passa a vida virando a cabeça pro alto, olhando as grades da gaiola, pulando, se agarrando nela e depois voltando para o poleiro.

Esta é a rotina de um pintassilgo prisioneiro. Passa a vida dando cambalhotas, pulando do poleiro para as grades do alto da gaiola.

Toquinho 5

E o nosso pequeno Toquinho viveu assim a vida inteira. Ele ficava todo o tempo virando o pescoço, como se procurasse as grades que não estavam mais lá.

Toquinho 6

Nada poderia ser mais angustiante que vê-lo naquele movimento. Não saber voar não era um problema. Ele não foi o primeiro e nem será o último que chegou ao santuário sem saber voar.

Era de se esperar que, em uma semana, ele já estivesse voando. Tínhamos esperança de que o tempo tirasse dele os tristes cacuetes da escravidão.

Toquinho 7

Infelizmente, o tempo mostrou que o Toquinho precisaria de um pouco mais do que os esperados 15 a 30 dias para se aclimatar. O cacuete de virar o pescoço procurando as grades da gaiola ele perdeu em uma semana.

Esse foi o tempo que ele precisou para esquecer que existem gaiolas. Faltava então fortificar as asas e treinar melhor o voo.

Toquinho 8

E ele nos surpreendeu. O Toquinho batia as asas, muitas vezes sem mesmo sair do lugar. Não tinha segurança para alçar voo, mas demonstrava muita vontade de aprender.

Passou a ocupar um dos arbustos, neste caso, um Ipê seco que fica na parte coberta e escura do viveiro. Se era ali que ele se sentia seguro, ali ele poderia ficar. Teria o tempo que precisasse.

Notamos também que o Toquinho tinha algumas penas das asas desalinhadas, como se estivessem fraturadas. Talvez estivesse ali as razões de sua dificuldade de voar.

Precisávamos dar a ele mais tempo. Talvez, tivéssemos que aguardar uma muda completa das penas, pra que ele pudesse trocar as penas quebradas por outras novinhas e bem alinhadas para o voo.

Toquinho 9

Mas não poderíamos adiar a soltura de seus súditos, que já ensaiavam a construção de um ninho dentro do viveiro.

Então, a solução foi libertar os canários e dar ao Toquinho mais tempo.

E os súditos cuidaram de procurar novos poleiros, apossando-se de um dos ninhos no entorno do viveiro.

Toquinho 10

Enquanto isso, nosso reizinho seguia tentando fortalecer as asas, esperando pela tão sonhada muda de penas.

Toquinho 11

O tempo e a vida há de lhe mostrar os caminhos. Queríamos vê-lo livre, batendo as asas, ganhando o céu.

Toquinho 12

Os dias se passaram e a timidez de nosso reizinho começou a nos preocupar. Ele estava aprendendo a voar, mas para viver em liberdade, ele precisaria de muito mais que aquilo.

Toquinho 13

Vez ou outra ele se aventurava em área mais aberta, mas logo voltava para a segurança do canto mais escuro do viveiro.

Toquinho 14

Estávamos mesmo sentindo o peso de escolhas que ainda nem tínhamos feito. Já nos perguntávamos se teríamos que abortar aquela soltura. Não era justo com ele. Talvez, um novo viveiro, tão grande quanto o nosso, fosse uma solução.

Preferíamos vê-lo morto do que de volta a uma gaiola. E talvez essa fosse também a escolha dele.

Mas recusávamos a pensar nisso. Esperaríamos pela próxima muda de penas. Ele teria o tempo que precisasse.

Toquinho 15

O Toquinho seguia se agarrando com toda força à sua segunda chance. Ele queria a liberdade, mais que a própria vida.

Toquinho 16

E como se lhe mostrassem o caminho, seus súditos estavam a cada dia mais adaptados. Eles cantavam, como se festejassem a liberdade, convidando o Toquinho a perseverar.

Toquinho 17

E o nosso pequenino passarinho amarelo de cabecinha preta seguia tentando viver.

Toquinho 18

Ele parecia feliz. Mas tudo indicava que aquele viveiro de aclimatação era a única liberdade que ele poderia ter.

Toquinho 19

Estávamos angustiados demais pra tomar qualquer decisão. Abortar a soltura já se mostrava uma possibilidade concreta.

E aí, a vida se encarrega de decidir por nós. O Toquinho partiu, durante uma bonita noite. Seu corpinho, sem vida, foi encontrado dentro do viveiro.

Toquinho 20

Ficou o sonho de uma liberdade que não veio. Em algum momento, ele talvez tenha se sentido livre, mas não era essa a liberdade que queríamos pra ele.

Abaixo, a imagem do ensaio de um voo que nunca aconteceu.

Toquinho 21

Vá em paz, amiguinho. Que aqueles que um dia sonharam em ensinar a humanidade a respeitar todas as formas de vida, te recebam, e que te conduzam, para que você nasça livre.

Agora você tem um território pra onde voltar. Seja muito bem vindo, amigo.

Toquinho 22

Que nenhum passarinho nasça em cativeiro. Que nenhuma alma seja escravizada antes mesmo de nascer.

Toquinho

Fazenda Vale dos Sonhos Versao 2   O Lobo Alfa H 10