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Meu nome é Amarela. Eu tenho um amigo, a quem me afeiçoei muito, de quem sou amiga fiel e inseparável companheira. Ele é tudo o que tenho e a razão da minha vida. Sempre cuidamos muito bem um do outro.

Por muitas vezes, dividimos os restos encontrados, que não bastavam sequer a saciar a fome de um. Não me lembro quando comemos direito pela última vez. No frio, nos aquecemos um ao outro.

Eu nasci para ser uma amiga fiel e é o que eu sou. Enquanto meu amigo precisar de mim, estarei ao seu lado, dividindo a comida que encontrar, ou aquecendo-o nas noites mais frias.

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Se alguém ainda não entendeu, meu amigo não é outro cachorro. Ele é um homem, morador de rua. Não bastasse a miséria, ainda é viciado, o que o torna ainda mais dependente de mim.

Fizemos pacto de amizade e juramos lealdade um ao outro. E assim tem sido.

Morando na rua, raros foram os cios que passei intocada. Pari muito filhotes, mas não me lembro de nenhum que tenha sobrevivido às primeiras semanas.

Pré-natal é coisa que nunca tive. Nunca havia visto de perto uma agulha e sempre pensei que vermífugo fosse coisa de cachorro de rico.

Há algumas semanas, mais um cio. Acabei prenhe e pari cinco lobinhos. Eles estavam fracos demais e já nasceram com cara de fome.

Não demorou muito e os sinais da rua começaram a aparecer. dois dos meus filhos se machucaram, atraindo moscas, e já estavam sendo comidos vivos.

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Os outros, se não morressem pelo mesmo motivo, seria pelo excesso de vermes, pela fome, atropelamento e doenças comuns para os pequeninos.

Por alguns dias, cuidei dos meus filhos, dormindo em uma caixa de papelão. Não era a melhor cama do mundo, mas era mais do que eu mesma tinha na maior parte do ano.

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Um dia, alguém se aproximou e nos ofereceu ajuda. Meu amigo logo disse que não precisávamos de nada, que não nos entregaria a ninguém.

Aquela talvez fosse a única oportunidade dos meus filhos sobreviverem, mas eu sempre fui fiel e estava pronta pra acatar a decisão do meu amigo, mesmo que me parecesse insana.

A insistência foi grande e constante, até que ele entendeu que os filhotes não sobreviveriam sem aquela ajuda. Eu também não estava bem e já não teria mais forças pra continuar naquela vida tão sofrida, emprenhando a cada cio.

A proposta seria levar a mim e aos meus filhos, doar os filhotes e me esterilizar. Assim, eu poderia continuar com o meu amigo, mas sem o sofrimento de colocar mais filhos no mundo pra morrerem antes de abrirem os olhos.

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A proposta foi aceita e, numa manhã de sábado, fomos levados. O meu pequenino mais fraquinho passou por um procedimento de limpeza e retirada dos bichos, recebendo também muitos remédios.

Pra mim, um regime especial de engorda. Eu precisava mesmo de vitaminas e de comida boa. Eu comi por três dias, quase sem parar. Havia aprendido na rua que preciso usar meu corpo para armazenar o máximo possível de nutrientes, ganhando peso para poder gastá-lo na escassez.

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Os filhotes foram acomodados em uma caminha com panos limpinhos e macios. Eles dormiram por 3 dias, quase inteiros, acordando apenas pra mamar.

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Meu leite já começava a fluir melhor. Com as vitaminas e a boa comida, passei a amamentar os filhotes com mais disposição.

Pela primeira vez, senti que meu esforço não seria em vão. Os pequenos estavam bem alimentados e tinham chance de sobreviver. Eles ganharam vacinas e vermífugos.

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Pra mim, não havia nada melhor que ver os pequenos dormindo tranquilos, em segurança.

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Eu passava horas de pé ao lado da cama deles, apenas pra vê-los dormindo.

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Eu me sentia também segura e protegida. A cama quentinha era também o lugar de amamentação, com direito a travesseiro macio. Pela primeira vez, conheci um lado da vida que pra mim não existia.

Sempre achei que cães dormissem ao relento, mas descobri que a vida pode ser mais generosa.

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Pra mim, aquele paraíso teria tempo pra acabar, mas confiavam meus novos amigos que a vida se encarregaria de colocar tudo em seu lugar. Meu amigo dos tempos difíceis continuava esperando meu retorno. Visitava-me constantemente na clínica, pedindo notícias minhas.

Eu ficava feliz quando o via, mas estava ainda mais feliz por poder proporcionar aos meus filhos um começo de vida diferente de tudo que já tive.

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Depois da mamada, eles dormiam por horas e eu estava sempre ali, velando-os. Havia dias que uivava de saudade do meu amigo. Fiquei imaginando como seria bom se ele pudesse estar aqui conosco, usufruindo dessa caminha quente e seca, comendo dessa ração gostosa.

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É muito bom ter comida sempre e não precisar revirar lixo. Estava ansiosa pra voltar e contar a ele como será a vida dos filhotes.

Queria que o meu amigo se encontrasse na vida, que conseguisse um espaço seguro e seco, um abrigo quente para as noites frias. Talvez ele ainda espere por mim, mas meu destino será outro.

Não queria voltar pras ruas, ou tudo de bom que experimentei pareceria apenas um sonho. A vida nas ruas era triste demais. Ao mesmo tempo, não queria deixar meu amigo, pois sabia que ele precisava de mim. Mas eu não tinha saúde pra continuar naquela vida e ele acabaria entendendo.

O tempo passou, os filhotes cresciam rápido demais e se aproximava o dia de me despedir dos pequenos. Eles não serão esquecidos. Pela primeira vez, teria motivos pra desejar lembrar. Saberei que eles estão bem e que serão felizes. Desejo que nunca sejam abandonados, e que nunca mais precisem dormir ao relento.

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Até nomes de cães estimados eles ganharam. E eu sou a mãe mais orgulhosa do mundo.

A minha menininha chama-se Lily, que significa bela e pura. Os meninos são Billy, Nick, Lucky e Toby.

Eles estão felizes e crescendo muito rápido. Logo estariam prontos pra seguir seu caminho e eu poderia passar pelos procedimentos finais.

Eu também ganharia o direito a uma vida melhor. Serei estimada e terei uma vida feliz. Foi com lágrimas nos olhos que meu amigo me deixou seguir outros caminhos. Percebeu que eu merecia mais do que ele poderia me dar.

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Que as oportunidades de uma vida melhor um dia cheguem também para o amigo que deixei. Às vezes, pra crescer, precisamos dar grandes saltos e deixar pra trás pessoas que amamos.

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E quando pelas ruas for avistada uma cadela amarela acompanhando um morador de rua, será apenas mais uma história parecida com a minha.

Talvez eles também estejam precisando de ajuda. Talvez seja o meu amigo, com uma nova amiga.

Abaixo estão as crianças, mais crescidas. Na ordem: Lili, Billy, Nick, Lucky e Toby.

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As crianças foram adotadas. Tiveram muita sorte e são hoje lobinhos estimados e felizes.

Pra mim, a sorte demorou mas chegou. Passei uma temporada em um abrigo, fui castrada e recebi muitas vacinas. No final, uma família muito especial decidiu me aceitar.

Tenho saudade das crianças, e do meu amigo, mas, apesar disso, sou feliz. O mesmo afeto que um dia dediquei ao meu amigo, hoje dedico à minha nova família.

Assim como os meus filhos, eu também ganhei nome de cachorro estimado. Sou Layla agora.

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